AMÉRICA LATINA

Apesar das diferenças regionais, a preocupação com a defesa da democracia é compartilhada

Brasil e Colômbia têm a oportunidade de mostrar ao mundo que a defesa democrática é um exercício contínuo, no qual a sociedade civil desempenha um papel central

2026 será um ano eleitoral especialmente importante para a América Latina. Sabemos que o segundo semestre será marcado pelas eleições presidenciais no Brasil, mas também é fundamental lançar luz sobre as eleições na Colômbia, que ocorrem no primeiro semestre. À primeira vista, tratam-se de contextos bastante distintos, com espectros políticos e trajetórias institucionais diferentes. No entanto, há um elo que os aproxima: em ambos os países, a sociedade civil se coloca como um ator central na defesa da democracia.

Em um momento de crescente polarização e descrédito nas instituições, é a sociedade civil organizada que tem se mobilizado para reconstruir pontes e restaurar a confiança pública. O relato democrático não pode ser monopolizado por atores políticos ou partidários; ele deve ser construído coletivamente, a partir da pluralidade e da ação conjunta de diferentes setores sociais.

É essa visão que inspirou o surgimento, em setembro de 2025, da Alianza por la Democracia, lançada na Colômbia e inspirada no trabalho do Pacto pela Democracia, no Brasil. A iniciativa nasce da compreensão de que coalizões plurais são fundamentais para proteger os processos eleitorais e fortalecer a democracia – e de que essa articulação precisa ultrapassar fronteiras nacionais.

O Pacto pela Democracia, que reúne mais de 200 organizações da sociedade civil brasileira, foi reconhecido em 2025 pela Fundação Skoll com o Prêmio de Inovação Social. Esse reconhecimento reforçou a capacidade do Pacto de inspirar mudanças e criar novas ações, e logo ficou claro que a experiência brasileira poderia servir de referência para organizações colombianas. A inovação do Pacto está justamente na criação de mesas amplas de diálogo, reunindo organizações de diferentes espectros ideológicos e temáticos em torno de um comum transversal democrático: o compromisso de defender as instituições, o processo eleitoral e a convivência plural.

Crédito:
MinAmbiente Colombia/X

As eleições brasileiras de 2022 oferecem aprendizados essenciais para as eleições colombianas. O desafio central, similar ao enfrentado no governo de Jair Bolsonaro, é lidar com um presidente que adota ações antidemocráticas. Organizações e movimentos sociais tiveram que se colocar como uma barreira entre o que é ou não permitido numa democracia. Em um país marcado por debates sobre paz e violência armada, a sociedade civil enfrenta um tipo de desafio inédito, mas encontrou na experiência brasileira inspiração para organizar suas próprias respostas.

Da mesma forma, o Brasil terá muito a aprender com as eleições colombianas de maio de 2026. A Colômbia enfrenta descrédito em suas instituições, que se reflete no sistema eleitoral e na própria democracia. Garantir que as pessoas votem de forma pacífica, íntegra e com amplo reconhecimento dos resultados será um aprendizado fundamental que o Brasil poderá incorporar para fortalecer suas próprias práticas democráticas.

Brasil e Colômbia têm a oportunidade de mostrar ao mundo que a defesa democrática é um exercício contínuo, no qual a sociedade civil desempenha um papel central. A criação da Alianza por la Democracia, inspirada na experiência brasileira, demonstra que a América Latina está se consolidando como um ator estratégico, dinâmico e protagonista ativo na promoção e proteção da democracia em nível global.

Helena Salvador é Coordenadora de Campanhas e Mobilização do Pacto pela Democracia.

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