Enquanto o mundo celebra o verde, o Rio respira cinzas
A contradição entre o discurso “verde” do Brasil às vésperas da COP30 e a realidade da violência racial nas periferias do Rio de Janeiro se evidencia nos massacres do Alemão e da Penha, que expõem como a necropolítica transforma vidas negras em alvos descartáveis. É preciso reafirmar: não há justiça climática sem justiça racial, nem sustentabilidade possível enquanto o Estado seguir devastando corpos e territórios
Às vésperas da 30ª Conferência da ONU sobre o Clima (COP30), que acontecerá em Belém do Pará, enquanto o Brasil tenta se apresentar ao mundo como protagonista climático e guardião da Amazônia, o Rio de Janeiro revela seus próprios horrores internos. Mais um capítulo em que o colonialismo e o racismo se unem para estruturar a morte e a vida negra é tratada como descartável. Enquanto se fala em sustentabilidade, economia verde e transição energética, o que se testemunha nas periferias, favelas e territórios/maretórios tradicionais é a manutenção cotidiana do racismo ambiental e da necropolítica.
À poucos dias da conferência global que deveria reafirmar o compromisso com a vida, o estado do Rio volta a reafirmar, com sangue, o pacto com a morte. O massacre ocorrido nesta terça-feira, 28 de outubro de 2025, nas comunidades do Complexo do Alemão e da Penha, é a mais brutal tradução dessa contradição. Na operação policial-militar que mobilizou 2.500 agentes para cumprir mais de 100 mandados, o resultado é devastador: ao menos 100 mortos, dezenas de feridos, civis e policiais atingidos, drones lançando explosivos e barricadas em chamas.
O que se assistiu foi a concretização da necropolítica, o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer. As favelas sempre foram tratadas como territórios de guerra, não como espaços de cidadania, de vidas, de pessoas. Quando mais de cem pessoas são mortas em poucas horas, é inevitável perguntar: Que vidas têm valor? Quem tem o direito de ir e vir sem ser alvejado? E as comunidades que permanecem entre o luto e o medo, quem chora por elas?
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025), uma pessoa negra tem 3,5 vezes mais chances de ser morta por forças de segurança do que uma pessoa branca. As taxas de letalidade policial alcançam 2,3 mortes para cada 100 mil adolescentes entre 12 e 17 anos, atingem o pico entre jovens de 18 a 24 anos, com 9,6 mortes por 100 mil e caem para 7,3 na faixa de 25 a 29 anos, mantendo redução progressiva conforme o avanço da idade.
Não se trata de falhas pontuais, mas de um projeto de poder que se sustenta na morte e na exclusão, operando de forma articulada em diferentes esferas da sociedade. Jovens, homens e negros continuam sendo as principais vítimas de homicídio, revelando a lógica seletiva da violência. A “guerra às drogas” é realmente contra as drogas? Então por que os disparos dessa guerra sempre têm cor e endereço? Se a operação tivesse ocorrido no Leblon, haveria cem mortos ou cem manchetes indignadas?

O racismo estrutura-se como uma engrenagem que define quais vidas importam e quais corpos podem ser mortos. Em sociedades regidas por essa lógica, até mesmo a infância é hierarquizada. Enquanto em determinados contextos uma criança de 12 anos deve ser protegida, sob o regime do racista/colonial uma criança negra, pobre e periférica é vista como ameaça. Como afirma Noguera (2020, p. s/p), tratam-se de “crianças matáveis, crianças que nascem com um alvo no peito, crianças invisíveis, crianças violáveis”.
O racismo ambiental, conceito que expõe a distribuição desigual dos impactos da degradação e da violência ambiental, se revela não apenas nas margens dos rios contaminados ou nas queimadas da floresta, mas também nas favelas cercadas, nos corpos negros silenciados, nas comunidades transformadas em zonas sacrificiais. Essa esfera do racismo é parte da estrutura que destitui as possibilidades de existir com dignidade em comunidades periféricas.
O Estado que devasta o meio ambiente é o mesmo que devasta corpos. É o mesmo que alimenta o genocídio e chama isso de “segurança pública”, quando, na verdade, é guerra interna. Ao negar às pessoas acesso aos direitos mais básicos, o Estado legitima a própria violência que deveria combater. As mortes no Alemão e na Penha não são exceções: são expressões de um projeto histórico que insiste em tratar a vida negra e periférica como descartável.
Nesse cenário, a democracia se desfaz na fumaça das armas e nas chamas que consomem corpos e territórios. Esse mesmo projeto necropolítico atravessa o cotidiano das pessoas negras em todas as esferas da sociedade, impondo uma lógica de vigilância e punição permanente. O imperativo silencioso de que pessoas negras “não podem errar” é uma das faces mais perversas do racismo: transforma o simples ato de existir em um campo de risco constante, onde a humanidade é sempre colocada em dúvida.
O erro de uma pessoa negra nunca é apenas um erro. É tomado, sob a percepção racista, como prova de uma suposta incapacidade natural. A responsabilização, necessária em qualquer sociedade justa, transforma-se em condenação antecipada quando as forças de segurança do Estado e parte da sociedade assumem o papel de juiz, júri e executor. Como analisa Frantz Fanon em Pele Negra, Máscaras Brancas, o colonialismo relega o sujeito negro à “zona do não-ser”, onde sua humanidade é negada e sua existência permanentemente vigiada.
Enquanto figuras brancas emergem de escândalos e crimes intactas, pessoas negras são estraçalhadas apenas pela suspeita. A cultura do “CPF cancelado” é apenas a tradução linguística dessa necropolítica seletiva. As “patricinhas do pó” têm nomes e segundas chances; o “suspeito negro” é reduzido a estatística. A mesma estrutura simbólica que nega o direito de errar nega, no limite, o próprio direito de viver e ser reconhecido como humano diante da lei e da sociedade.
O Brasil quer chegar à COP 30 como potência climática, entretanto carrega o peso de um país que ainda mata seus rios, suas florestas e seu povo negro e periférico. Enquanto se negociam metas e compromissos ambientais nas salas refrigeradas da diplomacia, o que arde (literalmente) são as periferias, os quilombos, as comunidades indígenas e as favelas. Não há transição energética justa sem justiça racial. Não há sustentabilidade sem reparação histórica. Não há futuro climático possível enquanto a vida negra continuar sendo tratada como resíduo, como corpo a ser eliminado, como erro a ser corrigido.
A mesma sociedade que se indigna com as queimadas na Amazônia precisa se indignar com os corpos carbonizados pelo racismo reproduzido pelas ações do Estado. A política ambiental que se diz verde precisa ser, antes de tudo, antirracista. Frente à barbárie, é preciso reafirmar: a vida negra não é um erro. Mais do que investigações e reparações, é preciso recusar a lógica da morte como punição e romper o pacto de silêncio.
Às vésperas da COP30, desvela-se um retrato cruel das contradições entre o discurso ambiental e a realidade social do país. Enquanto o Brasil tenta falar de futuro, o presente nos cobra coerência: não há democracia onde corpos são exterminados, nem sustentabilidade onde a vida é tratada como descartável.
Andresa Barros Santos é psicóloga (CRP 22/03615) do Programa Defensores dos Defensores, vinculado ao Instituto Internacional Arayara. Mestranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Maranhão (PPGE/UFMA) e especialista em Saúde Coletiva pela Faculdade Líbano/Centro Universitário Celso Lisboa.

