Diante do mal, a síndrome do fascínio canibal
No mundo salvacionista ocidental-cristão, cabe, numa distorção da realidade, a defesa de uma chacina e até mesmo aplausos

No mundo salvacionista ocidental-cristão, cabe, numa distorção da realidade, a defesa de uma chacina e até mesmo aplausos
A eficácia da Operação no sentido de combate ao crime foi nenhuma: o número dois do Comando Vermelho, alvo declarado, conseguiu escapar. A operação se mostrou uma tragédia em sua letalidade e um fracasso em seu objetivo declarado. Mas um sucesso de propaganda
No Brasil não temos pena de morte como mecanismo legal, mas existe uma autorização social, política e econômica para chegar nas favelas e regiões periféricas “atirando na cabecinha”
Como uma megaoperação legitima a morte, ou mais ainda, as vidas que não podem ser consideradas ou perdidas, se não forem primeiro, consideradas como vida
A contradição entre o discurso “verde” do Brasil às vésperas da COP30 e a realidade da violência racial nas periferias do Rio de Janeiro se evidencia nos massacres do Alemão e da Penha, que expõem como a necropolítica transforma vidas negras em alvos descartáveis. É preciso reafirmar: não há justiça climática sem justiça racial, nem sustentabilidade possível enquanto o Estado seguir devastando corpos e territórios
Que espécie de polícia é essa que viola o direito à privacidade dos transeuntes e pratica crimes comuns contra a propriedade de quase um terço dos moradores de um bairro? Trata-se da mesma polícia que em poucos meses invadiu as casas de 50% dos entrevistados
A operação realizada pela Polícia Civil no dia 6 de maio na favela do Jacarezinho se converteu em uma chacina que resultou na morte de 28 moradores. Trata-se da operação mais letal da história democrática do estado do Rio de Janeiro, pois, diferente de outras chacinas que se tornaram notórias, como a de Vigário Geral e da Baixada, o massacre do Jacarezinho não foi realizado por um grupo de extermínio, e sim avalizado pelas autoridades políticas e policiais do estado. Resta saber como é possível sua ocorrência em condições notadamente controladas pela cadeia de comando institucional do estado
Nós e eles. A narrativa que tenta justificar a barbárie e fazer da chacina mais uma notícia no jornal. Mais uma vez, a sociedade escolhe quem deve viver e quem deve morrer
Se desumanizar o outro facilita a aceitação moral de todo tipo de violência que lhe seja infligido, o “favelado” é regularmente destituído de sua dignidade humana pela sua suposta “degenerescência moral, social, cultural e racial”
O que há de diferente entre as mortes do ataque em Saudades, a chacina no Jacarezinho e as mortes por Covid-19
Perguntas que não querem calar sobre a Chacina no Jacarezinho de maio de 2021