ELEIÇÕES COLOMBIANAS

Entre Cepeda e de La Espriella: para onde vai o voto da revolta?

No último dia do mês que os colombianos retornaram às urnas para traduzir em voto as expectativas que seguem abertas

É natural que a cada ciclo eleitoral os países passem por mudanças. No caso colombiano, neste intervalo, o país se transformou por completo. Existe uma Colômbia antes e depois do Estallido Social de 2021, um dos processos de mobilização popular mais importantes da história recente da América Latina. Em maio, completaram-se cinco anos das greves gerais que tomaram o país – do Caribe à Amazônia e ao Eje Cafetero – e foi também no último dia do mês que os colombianos retornaram às urnas para traduzir em voto as expectativas que seguem abertas.

O resultado do primeiro turno mostrou o candidato da ultradireita, Abelardo de La Espriella, à frente de Iván Cepeda, herdeiro político do Pacto Histórico do atual presidente Gustavo Petro. Mais marcante do que a própria disputa eleitoral, porém, é a profunda divisão do país em duas Colômbias: de um lado, os grandes centros urbanos, que apostaram na promessa de segurança de um nacionalismo conservador; de outro, as regiões mais afetadas pelo histórico conflito armado, que optaram pela continuidade do projeto de paz defendido pela esquerda.

Interessante é também observar como votaram as regiões que, há exatos cinco anos, foram o epicentro dos maiores protestos sociais da história recente do país. No Valle de Cauca, por exemplo, região de Cali, que protagonizou o levante social, Cepeda poderia ter ganhado a presidência já no primeiro turno. As demandas que levaram milhões às ruas seguem vivas, e este intervalo de duas semanas entre o primeiro e segundo turno deixou isso evidente. Estudantes da Universidade Del Valle anunciaram greve estudantil até o resultado das eleições e Cali voltou a ter protestos registrados.

Não por acaso, os dois candidatos que seguem na disputa adotaram discursos radicalmente opostos sobre o levante dos jovens populares nas regiões mais afastadas do centro do país:  Iván Cepeda exaltou a coragem da juventude que assumiu a linha de frente dos protestos; Abelardo De La Espriella os rotulou de terroristas.

As mobilizações, que surgiram como reação a uma proposta de reforma tributária, rapidamente se expandiram a ponto de escancarar o esgotamento político, econômico e social que a Colômbia carrega há décadas. As forças policiais do então presidente, Iván Duque, responderam com a violência brutal contra as juventudes populares que assumiram a linha de frente dos protestos. O saldo foi de ao menos 80 mortos.

Foto: Leon Hernandes/ Dialogue Earth

As eleições seguintes, em 2022, realizadas exatamente um ano após as grandes greves gerais, levaram ao poder pela primeira vez na história um partido de esquerda, o Pacto Histórico. A esquerda colombiana sempre operou às margens do poder, entre a clandestinidade, a relação com os movimentos guerrilheiros e um pacto das elites que a mantiveram sistematicamente afastada da política institucional. Esse bloqueio foi rompido por Gustavo Petro, num governo de tropeços e sinalizações preocupantes para a democracia, mas também de avanços significativos nas principais demandas levadas às ruas: a gratuidade da educação, o aumento do salário mínimo e uma política de reforma agrária.

Ainda assim, a distância entre as expectativas despertadas e os resultados concretos do governo se mostrou significativa. E então surge a pergunta: para onde vai o voto do Estallido?

As pesquisas mais recentes parecem oferecer uma resposta parcial. A rejeição a De La Espriella é maior entre os jovens do que entre as gerações mais velhas: 62% entre 18 e 24 anos, e 47% entre 25 e 34 anos. As manifestações contra a possível eleição de um autocrata têm sido encabeçadas por estudantes. O voto jovem parece carregar a tentativa de manter viva a memória democrática, uma recusa a deixar que os protestos de 2021 sejam criminalizados.

Vale olhar com atenção para a experiência de outro país da Cordilheira dos Andes. No Chile, país que também viveu um estallido massivo na última década, as eleições no ano passado tiveram um resultado ruim para a esquerda: a decepção com as respostas não atendidas dos protestos de 2019, direcionada a Gustavo Boric, que assumiu o poder logo após a crise, abriu espaço para uma extrema direita que tratou de enterrar qualquer possível aprendizado ou resquício de memória das maiores manifestações sociais da história do país.

O desafio colombiano é que a força viva de ocupar a democracia e redefinir o jogo de poder do país não se perca no caminho. Algo grandioso aconteceu naquele maio de 2021. O segundo turno, em 21 de junho, será o teste de quanto isso ainda pulsa.

 

Helena Chagas Salvador é Jornalista, cientista política e mestranda do Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo.

Leia mais sobre o tema: