Entretecendo comunidade: audiovisual e movimento social

Cinema e Meio Ambiente

Entretecendo comunidade: audiovisual, movimentos sociais e meio ambiente

por Maria Camila Ortiz, Suelen Rodrigues e Tereza Spyer
26 de novembro de 2020
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Com uma narrativa tão fluida e autêntica como o próprio movimento que acompanha, o documentário “Chão” é tema do quarto texto da série Cinema & Meio Ambiente. Inspiradas pelo filme, as autoras destacam as relações de exploração do ser humano e da natureza para a produção de alimentos e apontam o coletivo, no caso em forma de famílias e comunidades, como alternativa aos modelos ainda dominantes.

Em setembro de 2020, em plena pandemia de Covid-19, o Armazém do Campo e a Loja da Reforma Agrária, ambos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), foram notícia em importantes meios de comunicação do país (meios estes que costumam veicular reportagens muito pejorativas sobre o movimento). Isso por conta do aumento exorbitante no preço do arroz. A procura por este alimento produzido pelo MST, que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, cresceu 30%. Além de ter os preços mais acessíveis e remunerar melhor os produtores, os valores praticados pelo movimento não foram reajustados, embora tenha aumentado bastante a procura. Isso porque a meta do MST não é praticar valores abusivos e sim vender os produtos sem onerar os consumidores que já vêm pagando preços mais altos pelos alimentos da cesta básica. 

Também em setembro deste ano, as queimadas voltaram a ocupar as manchetes nacionais e internacionais. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), as áreas queimadas abrem espaço para a soja, a cana e o gado. As consequências da degradação ambiental do Pantanal e da Amazônia também são foco de pesquisa pela perda de serviços ecossistêmicos que eles naturalmente geram, como a provisão de água, que pela proporção do estrago não somente será sentida pelos habitantes da região, que dependem daqueles ecossistemas para viver, mas pelo país inteiro e também pelo continente americano. 

Cenas do documentário “Chão” (Crédito: Reprodução)

São muitas as obras audiovisuais realizadas no Brasil, veiculadas pelos principais Festivais de Cinema nacionais, que denunciam a grave crise ambiental e registram as inúmeras experiências de resistência. Festivais como a Mostra Ecofalante de Cinema (SP), o Amazônia Doc (PA), o Festival Pachamama (AC), o Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra Catarinense (SC), a ECOCINE (SP), o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (GO), entre outros, são importantes espaços de exibição de produções (na sua maioria documentários) que problematizam o tema da exploração do meio ambiente e as iniciativas contra-hegemônicas levadas a cabo pelas entidades e organizações sociais.

Nestes festivais é possível encontrar um número considerável de obras que contam com a participação dos movimentos sociais. O MST, inclusive, tem programas de formação da militância na área da comunicação, que abrange o campo do audiovisual. Entretanto, é importante para o movimento que as produções audiovisuais contribuam com a luta pela terra, estando vinculadas aos princípios e objetivos do MST. De acordo com Jovana Aparecida, o movimento tem feito algumas reflexões sobre a utilização do audiovisual, como o registro histórico das lutas, a formação da militância através desses registros, a divulgação desses materiais para a sociedade como forma de denúncia e, em muitos casos, a câmera é utilizada como um meio de proteção para tentar inibir violações aos direitos humanos ou mesmo como registro dessas violações. 

O documentário “Chão” (2019), de Camila Freitas, é um bom exemplo de produção audiovisual feita em parceria com o MST. Ao longo de quatro anos, “Chão” acompanha o cotidiano de uma das principais ocupações do movimento no estado de Goiás: o acampamento Leonir Orback, que ocupa uma pequena parcela de uma vasta área pertencente a uma usina de processamento de cana-de-açúcar, a Usina Santa Helena, em recuperação judicial há cerca de uma década. O filme nos permite acompanhar o processo de ocupação, a produção via agricultura familiar e a luta das famílias na busca pelo reconhecimento de suas terras. 

Cenas do documentário “Chão (Crédito: Reprodução)

O documentário foi exibido gratuitamente durante três dias e debatido como uma das atividades do projeto de extensão Cineclube Cinelatino: Imagens da América Latina a serem decifradas, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), em parceria com a distribuidora Vitrine Filmes. O debate online ocorreu no dia 29 de maio de 2020 e contou com a participação da diretora do longa Camila Freitas e as mestrandas Camila Vital (UNESPAR) e Daniela Paiva (UNILA). 

Graças à parceria e ao apoio do MST na divulgação, tanto o filme quanto o debate são os mais assistidos do cineclube e trouxeram, com a participação de um público heterogêneo, a reivindicação do cineclubismo como espaço de compartilhamento de ideais e demanda por representação e visibilização. Isso porque as pedagogias e práticas de teorização pretendidas no cineclubismo adquirem sentido nas lutas e nas resistências. São estas dinâmicas comunitárias transversais que promovem e provocam brechas no sistema, permitindo pensar sobre outras epistemologias que não dependam de serem reconhecidas por um pensamento hegemônico; pelo contrário, que abram espaços para o reconhecimento de pensamentos-outros. 

Nessa perspectiva de se posicionar “ao lado de” e “a partir de”, Camila Freitas “filma com” e não “filma sobre”. Seu contato com o MST começou em 2001. Já durante o período em que cursava a graduação em cinema, fez seu primeiro curta-metragem, “Passarim” (2003), sobre uma comunidade que foi desmantelada em Corumbá de Goiás pela pressão do latifundiário Eunício Oliveira. Nessa obra, e também em “Chão”, emergem suas memórias afetivas de infância e parte da adolescência, que estão conectadas a famílias camponesas da região de Alexânia e Abadiânia, no centro-oeste de Goiás.

Em uma das sequências mais emblemáticas do filme, logo nos primeiros minutos, após a câmera fazer um percurso contemplativo do espaço da ocupação, aparece em cena uma senhora, a “Vó” (Natália Cândida), quem conversa com “P.C.” (Wilmar Fernandes) sobre o que planejam fazer com os quatro alqueires quando estes lhes forem reconhecidos. Enquanto “PC” desenha em uma lousa o que sonha fazer com sua futura propriedade, a “Vó” vai descrevendo como gostaria de dividir o espaço entre os animais e os cultivos. Tudo isto acontece dentro da guarita de madeira onde os dois têm como função vigiar e avistar qualquer suspeita de ameaça para a ocupação. 

Na sequência, as imagens, por vezes meditativas, se revezam entre reuniões da comunidade nas quais se contextualiza o cenário; os momentos e processos da ocupação e suas consequências; um julgamento sobre a legalidade da ocupação (que teve a reintegração de posse cancelada em julho de 2019); o cultivo da terra; os processos de organização da comunidade; e o empenho por mostrar à cidade os benefícios que traz a agricultura familiar. Ao mesmo tempo, os diálogos das(os) camponesas(es) vão estruturando o documentário e apresentam testemunhos de desafios e injustiças. “Chão” é um longa-metragem que resulta necessário para narrar as lutas do MST desde, e com, o movimento, para mostrar que a conquista da terra é somente o primeiro passo para a Reforma Agrária, que propõe formas outras de contemplar o futuro.

Cena do documentário “Chão” (Crédito: Reprodução)

Algumas críticas acerca do filme afirmam que ele carece de uma personagem forte o suficiente para conduzir a narrativa. No entanto, é a comunidade a protagonista dessa história. É através de uma modalidade observacional que a diretora oferece ao espectador(a) um espaço para perceber e refletir sobre a necessidade de dar a conhecer a luta a partir das(os) envolvidas(os), isto é, ressaltar que houve uma parceria no fazer cinematográfico, um pensar e produzir comunitário.  

Há uma responsabilidade nesta produção cinematográfica de encarar o cinema como pesquisa, práxis e transformação sociopolítica, no qual exista uma recriação mútua, ao invés de apenas uma relação de representação. Aqui há uma noção histórica usada como instrumento de conhecimento através da qual a diretora procura gerar uma consciência sobre o movimento, reprimindo as representações alienadas e impostas durante décadas pela mídia hegemônica. 

Isto se evidencia na cena em que um repórter pede para entrar na ocupação, recebendo uma negativa enérgica, porém muito pedagógica, de uma líder do movimento. Esta, ao ser indagada pelo repórter sobre “a invasão da propriedade”, responde enfaticamente “na verdade não é invasão, né? É ocupação”. Neste momento, a câmera se localiza à margem, observando e apresentando a situação, sem intervir, mas se posicionando como agente político. Ela está do lado do movimento e de frente para o repórter.  

Segundo Freitas, a própria comunidade a alertou para não focar em uma pessoa só, “porque as coisas são muito móveis e fluidas. No começo podem estar algumas pessoas na frente, mas depois muda”. Isto evidencia como a dinâmica da gravação tem o objetivo de transformar a prática às vezes excludente do cinema em uma atividade coletiva onde as pessoas fazem parte da engrenagem e da evolução do próprio filme. Essa coletividade tenta fazer frente, através da agricultura familiar, ao agronegócio nacional e transnacional que detém o controle do mercado.

A luta, além de questionar o monopólio do território destinado quase na sua totalidade a monoculturas que impactam de forma direta a biodiversidade, é ação para conquistar uma parcela de terra onde as famílias trabalhadoras possam se estabelecer e ter uma vida autossustentável, através de cultivos agroecológicos e comunitários que promovam uma vida digna. A prática da agricultura familiar é, assim, geradora de alimentos saudáveis para as famílias e para os mercados nacionais a preços justos. No entanto, segundo Daniela Paiva (assentada do MST no Paraná) “a cultura da agricultura familiar não é fácil de continuar. Algumas famílias ficam reféns da monocultura, [porque] não é simplesmente uma tomada de território, não é só a terra que se disputa, tem um rompimento no padrão de poder. Não é a terra para produzir na lógica capitalista, muito pelo contrário, é uma luta por igualdade, diferente desses padrões de produção. É uma questão de saúde também, como a segurança alimentar dos produtos orgânicos”.

Essa dificuldade é um reflexo da própria sociedade, pois o movimento não está fora dela. É esse sistema que deslegitima as relações seres humanos-natureza porque vê no meio ambiente somente uma fonte de recursos que devem ser dominados para geração de lucros. Nesse sentido, se faz importante o documentário como janela que apresenta possíveis relações socioecológicas que existam e resistam em meio a essa demanda de recursos naturais que se exacerba com o consumismo, que tem se transformado em uma das maiores pressões para o meio ambiente.

Segundo Graeme S. Cumming e Maike Hamann, vivemos atualmente um “red-loop”, ou seja, esquecemos que o nosso bem-estar provoca uma intensa degradação ambiental: as sociedades consomem o que querem quando querem; em meio à pandemia as comunidades se surpreendem com a presença de animais nas suas cidades; as pessoas não reconhecem sua própria existência como parte da natureza e consumimos alimentos produzidos por ecossistemas nos quais não habitamos.

Em meio a este panorama desolador, práticas comunitárias se apresentam como uma brecha no sistema, pois se tecem, fortalecem e desenvolvem no intuito de garantir a vida e combater a injustiça, consolidando os conhecimentos tradicionais e respeitando os ciclos da natureza, como vemos apresentado no documentário. Uma das brechas evidenciou-se durante a pandemia com as mais de 3.400 toneladas de alimentos doados pelo MST, em 24 estados do país, fortalecendo o “green-loop” que nos chama a termos consciência dos recursos que usamos para nossa existência e dos riscos da degradação ambiental, e a revisarmos a forma que consumimos, além de abrir portas a modelos possíveis de caráter comunitário que transcendam a autonomia alimentar e (re)estabeleçam a nossa conexão com o ecossistema onde vivemos.

María Camila Ortiz é graduada em Jornalismo e estudante de Cinema & Audiovisual; Suelen Rodrigues é graduada em Direito e estudante de Cinema & Audiovisual; Tereza Spyer é doutora em História e professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). As três fazem parte do Cineclube Cinelatino.

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Como o cinema tem tratado as diversas faces da questão ambiental? Da crise civilizatória à perda de biodiversidade, do colapso climático à busca da sacralidade da Terra, a realidade ecológica está em ficções e documentários de diferentes formas, sejam distópicas ou apontando caminhos, como elemento central ou paisagem de fundo. Com esta série, o Le Monde Diplomatique Brasil, em parceria com o Observatório Educador Ambiental Moema Viezzer e o Doc Ambiente, convida alguns dos melhores corações e mentes para pensar a interface da produção cinematográfica com o meio ambiente.



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