ETs, efeitos transgeracionais da violência de Estado da ditadura
A produção de efeitos transgeracionais não é fruto do acaso ou da má sorte, mas, pelo contrário, de um processo social de delimitação dos limites de uma sociedade
Após o fim das ditaduras do Cone Sul, um tipo de organização começou a surgir dos escombros da repressão militar. Na Argentina, foi fundado Hijos e Hijas por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio, na sigla HIJOS, em 14 de abril de 1995. Terminada a ditadura em 1983, grupos argentinos começaram a se organizar pelo país, até a consolidação do HIJOS em 1995. Aderindo à defesa dos direitos humanos, especialmente no campo da memória, verdade e justiça, HIJOS serviu de inspiração para experiências similares em outros países da região, como Chile e Brasil.1
No caso brasileiro, esse tipo de organização política e social demorou mais tempo para surgir quando comparado à distância temporal do fim da ditadura até a criação de um agrupamento como esse. Em dezembro de 2014, foi criado o coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça (FeN MVJ), no Rio de Janeiro. Na esteira dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, instalada pela presidenta Dilma Rousseff, filhos, filhas, netos, netas e assim por diante foram atendidos pelo projeto Clínicas do Testemunho, ao longo do ano de 2014. Dois anos antes, esse projeto foi criado com o propósito de promover a reparação dos danos diretos e indiretos da violência de Estado da ditadura na esfera psíquica.
Dos atendimentos, surgiu a vontade de compor um grupo terapêutico formado apenas pelas segundas e terceiras gerações de atingidos pela violência de Estado da ditadura, iniciativa que acabou culminando na efetivação do coletivo. Nesse primeiro momento, algumas características mostraram-se mais evidentes logo de imediato. O silenciamento, o esquecimento, a paranoia, o saber sem saber e o não saber sabendo, a dificuldade de estabelecer laços sociais nas mais diferentes áreas da vida.
Os efeitos eram graves, profundos e generalizados. Em comum, um sentimento de desenraizamento. Não se era daqui, seja lá que aqui fosse. Dessa ausência de pertencimento, emergiu a sigla ET – efeitos transgeracionais. O acrônimo não era fortuito. Nos encontros terapêuticos, havia um relato comum e persistente de sentirem-se alienígenas, extraterrestres, ou, na forma mais popular, ETs.

Publicado coletivamente, o artigo Dos ecos do silenciamento ao concerto dos fragmentos: a experiência do Coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça na luta pelos Direitos Humanos e contra a violência de Estado no passado e no presente mostra com clareza os desafios enfrentados pela condição de afetado e afetada por essa violência indiretamente, bem como as soluções encontradas e inventadas para lidar com as dificuldades decorrentes dos efeitos dessa violência.2
Por meio de dez entrevistas, nove orais e uma por escrito, buscou-se mapear um pouco das questões do coletivo. O primeiro sintoma aparece logo na forma de identificar os depoentes – por letras. Realizadas entre 8 de julho e 12 de agosto de 2018, o artigo foi escrito durante a disputa presidencial, que, permeada de arbitrariedades jurídico-políticas, acabou levando à prisão de Lula, o concorrente mais bem avaliado pelas pesquisas de intenção de voto, e à eleição de Jair Bolsonaro, candidato que flertava aberta e intensamente com o golpe e a ditadura.
Diante do resultado das urnas, velhos fantasmas ganharam mais força para voltarem a assombrar com bastante concretude. Por esse motivo, os e as depoentes foram identificados e identificadas por letras de A a J, mostrando a profundidade do trauma. A escolha pelo anonimato foi feita no início de 2019 e a publicação do livro, em 2021, ainda sob os medos e incertezas do governo de Jair Bolsonaro. Inclusive todos os nomes foram criptografados, à exceção das personalidades públicas mencionadas no texto.
Para não reproduzir todos os trechos das entrevistas presentes no artigo, duas passagens serão citadas aqui para apontar aos sentimentos de isolamento, desenraizamento, solidão, inadequação e incompreensão, tão representativos dos membros e das membras desse coletivo. A escolha desses dois excertos deve-se ao diálogo que ambos estabelecem com o método apresentado e sugerido no artigo Caminho das pedras: historiografando o trauma familiar da violência de Estado da ditadura, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil no dia 30 de setembro deste ano.3
Em 12 de agosto de 2018, H disse em entrevista que
“sentia muita solidão e me sentia um peixe fora d’água. Sentia que aquilo que eu falava não tinha escuta, tanto entre meu grupo de amigos, quanto na minha própria família. Isso era uma coisa muito sufocada. As pessoas não tocavam nesse assunto ou era um assunto que era discutido pelos adultos, as crianças não participavam. Então, quando chegava para a criança, era tudo muito mastigadinho, era transformado em conto de fada, era transformado em outras coisas, mas era uma coisa alienante. A gente nunca sabia, realmente, o que tinha acontecido.”4
Pouco mais de um mês antes, B já havia indicado a relação com contos de fada na sua entrevista, em 8 de julho. Mobilizando o conto de Hans Christian Andersen, B comentou que “até estava para escrever isso. É aquela coisa, toda criança se sente o patinho feio. Só que tem diferentes formas de se sentir patinho feio, tem umas que são mais simples, tem outras que são mais complicadas”.5

Mundialmente conhecida, a estória narra a vida de um cisne que nasceu em um ninho de patos, o que fez com que fosse considerado um patinho feio. Ao longo de sua jornada, o cisne sofre com o isolamento, a solidão, a inadequação e a incompreensão de seus supostos parentes. Agravando-se ao longo da trajetória, o cisne não apenas sofreu com a rejeição, a censura e a violência dos patos, mas também com as da galinha, do gato e da criança, que igualmente queriam que o cisne fosse idêntico a cada um eles.
Sem lugar, o cisne precisou distanciar-se dos patos, da galinha, do gato e da criança, obrigado a encontrar seu próprio espaço e si mesmo. Nessa busca, descobriu-se quem realmente era, um cisne. Não um pato, nem uma galinha, um gato ou uma criança.

Católico, Andersen tem o objetivo de apresentar uma estória moral de transcendência por meio de seu conto. Simbolicamente, o cisne aparece com um significado grandioso, distinto do reles pato. Por essa intenção, é possível interpretar a personagem principal como um pato, de fato, que passou por uma transformação, transcendendo na forma aprimorada do cisne.
Bastante incomum, os cisnes são uma das poucas espécies monogâmicas na natureza, o que pode ser interpretado como uma fidelidade a um ideal, a um sentimento, a uma posição, o que reforça a ideia católica do conto. Contudo, a confissão religiosa não é o único fator que pode ser apontado como motivação e tema da fábula. Vivendo na Dinamarca do século XIX, Andersen não encontrou espaço para manifestar sua homossexualidade.
A inadequação do cisne, que tem que se fazer de pato, e de galinha, e de gato, e de criança, bem pode confessar a dificuldade do autor em ser quem era em uma sociedade tão conservadora em termos sexuais.
Retornando à questão do artigo, as duas possibilidades de interpretação são interessantes. Tratar dos efeitos transgeracionais da violência de Estado da ditadura é tanto um esforço de transcendência, de superação, quanto de “saída do armário”, ou, melhor dizendo, de retirada de “esqueletos do armário”. Simultaneamente, uma transformação de uma situação ruim e uma afirmação dessa condição subjetiva pessoal, familiar e social traumática.
Uma das maiores dificuldades encontra-se nesse lugar. A transcendência é muito dolorosa, exigindo a saída de um lugar e a ocupação de outro. Deixar de ser pato, transformar-se em cisne. Ao mesmo tempo, é preciso a afirmação desse lugar em que sempre se esteve pela transmissão do trauma da e pela família. Pela herança traumática, sempre se foi cisne, nunca pato. Em outras palavras, tornar-se o que se é, como afirmava Nietzsche.
Como fazer isso em uma sociedade que produz patos e cisnes, mas valoriza apenas os primeiros, embora simule um suposto encanto pelos segundos?
Antes da globalização, alienígena era uma palavra utilizada como sinônimo de estrangeiro, forasteiro, estranho, isto é, tudo aquilo que não era considerado local, nativo. Nos anos 1930, alienígena foi usado como adjetivo negativo. Contrapunha-se àquilo que seria supostamente “natural daquela terra”. Em termos de jogo de oposições, haveria o nacional e o alienígena.
O nacional deveria ser afirmado, desenvolvido, protegido e preservado. O alienígena era fonte de incertezas e inseguranças. Precisava ser controlado, neutralizado, amansado, domesticado. Se isso não fosse possível, perseguido, reprimido, destruído. O alienígena era o dissidente, político, econômico, cultural, étnico, racial, de gênero, religioso, sexual etc.

Nessa década de 1930 e 1940, alienígena era especialmente o comunista, que servia de espantalho a tudo que fosse considerado indesejável pelo poder constituído. O reconhecido dos primeiros membros do FeN MVJ na figura do ET vai muito além de uma mera coincidência de siglas. Apesar de as gerações pós-década de 1980 relacionarem ETs a vidas fora da Terra, especialmente ao que Hollywood produziu imageticamente, a ideia do alienígena vincula-se tradicionalmente a essa construção social do corpo indesejado, que vem de fora, que supostamente não pertence ao grupo nativo e que, justamente por isso, precisa ser excluído, ou mesmo eliminado, de acordo com o poder dominante de uma determinada sociedade.6
Por outro lado, a representação cultural da década de 1980 para cá descreve os alienígenas como uma espécie de vida “superior”, “mais evoluída”, visão que é transmitida de forma ambígua. São “superiores” e, por isso, supostamente vão nos dominar, ou hipoteticamente vão destruir nossa cultura. São “superiores” e, por isso, vão nos trazer conhecimento, avanços científico-tecnológicos.
O fascínio gira justamente em torno disso, quais seriam as intenções desses ETs, que pouco conhecemos? Em comum acordo, a percepção intuitiva de que o contato com esses seres de fora produzirá profundas transformações. Nada ficará igual, tudo será radicalmente alterado.
O alienígena, portanto, é uma necessidade social. As sociedades precisam criar seus ETs como forma de afirmar a regra social do grupo, sua identidade. Para construir graus de coesão social mais fortes, as sociedades demandam por patinhos feios. E tão importante quanto é que esses que recebem essa função social aceitem, voluntária ou involuntariamente, pacífica ou conflituosamente, essa classificação negativa, isto é, os cisnes precisam não se reconhecerem como cisnes e, simultaneamente, quererem ser patos.7
Devido a essa dinâmica social, a produção de efeitos transgeracionais não é fruto do acaso ou da má sorte, mas, pelo contrário, de um processo social de delimitação dos limites de uma sociedade. O que é legítimo e o que é ilegítimo, o que é regra e o que é anomia.
Ninguém é patinho feio sem estar inscrito em uma sociedade que afirme e imponha noções de normalidade, que imponha um tipo ideal de ser pato, seja em termos políticos, econômicos, culturais, étnicos, raciais, de gênero, religiosos, sexuais etc.
Felipe Lott é doutor e mestre em História pela UFF, bacharel em Ciências Sociais pela UFF e membro do coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça e do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação.
- Como leitura inicial da história dos HIJOS na Argentina, indico: Dirección Provincial de Educación Secundaria, Subsecretaría de Educación, DGCyE. Surgimiento de la agrupación H.I.J.O.S. …continuemos estudiando, 11 de out. 2023. Disponível em: https://continuemosestudiando.abc.gob.ar/contenido/surgimiento-de-la-agrupacion-h-i-j-o-s-1995/. Acesso em: 30 de out. 2025; CUETO RÚA, S. El surgimiento de la agrupación H.I.J.O.S.. Cuadernos de Aletheia, n. 2, 2016, p. 8-13.
- Coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça. Dos ecos do silenciamento ao concerto dos fragmentos: a experiência do Coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça na luta pelos Direitos Humanos e contra a violência de Estado no passado e no presente. In: ESTEVEZ, Alejandra (org.). Lembrar é agir: memória, verdade e direitos humanos. São Paulo: Letra e Voz, 2021.
- LOTT, Felipe. Caminho das pedras: historiografando o trauma familiar da violência de Estado da ditadura. Le Monde Diplomatique Brasil, 30 de set. 2025. Disponível em: https://diplomatique.org.br/historiografando-o-trauma-familiar-da-violencia-de-estado-da-ditadura/. Acesso em: 30 de out. 2025.
- Ibid., p. 162. Os grifos são meus.
- Ibid., p. 162.
- Sobre essa questão, ver especialmente: MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil (1917-1964). 2.ed. Niterói: EdUFF, 2020.
- DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. Trad. Paulo Neves. Revisão da tradução Eduardo Brandão. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

