Historiografando o trauma familiar da violência de Estado da ditadura
Como narrar o trauma familiar da violência de Estado?
Diante das novas ameaças de golpe e de ditadura, a preocupação pelo registro das violências sistematicamente praticadas pelo Estado brasileiro, entre 1964 e 1985, voltou a ganhar nova importância. O que antes era tarefa quase exclusiva das famílias de atingidos pela ditadura passou a ser mais bem compreendido pelos brasileiros e brasileiras, depois do governo eleito em 2018 e finalizado em 2022.
Além dos próprios ataques ao regime democrático, a condução desastrosa da crise sanitária de covid-19 deixou nítido o caráter de letalidade generalizada do governo de Jair Bolsonaro e seus aliados. Quem achava-se protegido antes do governo viu-se tão alvo quanto aqueles que Bolsonaro prometeu perseguir e destruir.
Diante desse quadro, a velha pergunta sempre retorna: como foi possível? O diagnóstico costuma salientar o aspecto do esquecimento social, quando não se aponta à ignorância ou à perversidade humana. Contrariando o senso comum, é necessário esclarecer que a memória social é formada também por esquecimentos. Mais do que isso, a memória social é formada por disputas políticas, cada grupo político propondo salientar determinadas memórias e apagar outras. Há memórias hegemônicas de direita, de centro e de esquerda; liberais, conservadoras, comunistas; empresariais e sindicais; institucionais etc., bem como memórias marginais e reprimidas.[1]
A solução da Lei de Anistia de 1979 optou pelo esquecimento amplo, geral e irrestrito dos mais bárbaros crimes perpetrados pelos agentes do Estado durante a ditadura, legando ao futuro uma bomba relógio que não foi suficientemente desarmada. Foram grandes os esforços, embora não o suficiente para impedir as sucessivas explosões desencadeadas a partir da eleição presidencial de 2014. Muitas foram as perdas, algumas irreparáveis, porém, isso não deve ser razão de desânimo, pois a luta política não transcorre da forma que desejamos, mas do modo em que se apresenta em cada momento histórico.
Por esse motivo, é importante continuar e aprofundar os trabalhos da luta do campo da Memória, Verdade e Justiça. Tomando como marco a fundação do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro (GTNM-RIO), em 1985, e já são 40 anos de luta. Muitas batalhas foram travadas, algumas conquistas, duras conquistas, mas muito ainda por ser feito.

Depois de 4 décadas, um desafio importante e inadiável está posto: como fazer com que essa luta perdure no tempo?
Cronos devora seus filhos, exigindo a renovação daqueles e daquelas que estão engajados e engajadas nessa luta. Em matéria sobre a luta dos familiares de mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, publicada no UOL em 10 de agosto de 2025, o jornalista Mateus Coutinho apresenta as dificuldades enfrentadas ao informar, no parágrafo de abertura, que: “Mais de 20 anos após conseguirem uma decisão da Justiça que obriga o governo federal a responder sobre os desaparecidos da guerrilha do Araguaia, durante a ditadura militar, os familiares dos mortos oscilam entre a desesperança e a necessidade de manter a luta em memória dos parentes. Até hoje, os militantes não foram enterrados por desconhecimento do paradeiro dos restos mortais.”.[2]
Em 1982, 22 pessoas entraram com uma ação contra Estado sobre as violações de Direitos Humanos no caso da Guerrilha do Araguaia. Do número original, apenas Victoria Grabois, filha de Mauricio Grabois, irmã de André Grabois e esposa de Gilberto Olímpio, todos os três mortos e desaparecidos na luta guerrilheira, encontra-se viva em 2025. Nas declarações dadas ao jornalista Mateus Coutinho, do UOL, Victoria Grabois, que é membra histórica do GTNM-RIO, dá bem o tom do drama enfrentado pelas famílias dos mortos e desaparecidos políticos ao dizer que: “Eu não tenho esperança. Eu luto porque a gente tem que lutar, mas esperança eu não tenho mais, não”. Em outra fala, Victoria Grabois afirma que: “Não espero mais nada. Isso vai cair no esquecimento, vai virar como a Guerra do Paraguai, infelizmente vai virar um fato histórico.”.[3]
Pessimista, a colocação da militante do GTNM-RIO é interessante para pensar a continuidade da luta, especialmente no campo da historiografia. A abordagem dos fatos históricos é multifacetada. Alguns aspectos são privilegiados, enquanto outros são ignorados ou até mesmo esquecidos. Além disso, um evento ficar no passado não garante que o fato histórico será tema de trabalho dos historiadores e historiadoras, no presente ou futuramente.
Em razão disso, torna-se quase obrigatório aos familiares, ou pelo menos um familiar, assumir a responsabilidade de pesquisa histórica e manutenção da memória da luta dos familiares, mesmo que aparentemente derrotada no passado e no presente. Apesar de simples, essa constatação fria impõe um caminho muito duro a ser seguido, o que desestimula e afasta muitos descendentes dessa tarefa.
No intuito de pavimentar esse caminho pedregoso, favorecendo um percurso menos penoso àqueles e àquelas que aceitarem realizar esse trabalho, passo a apresentar uma sugestão de método historiográfico para tratar do tema.
Como no mito de Perseu, o herói vence Medusa ao olhá-la indiretamente, utilizando-se do reflexo da górgona no escudo translúcido presenteado pela deusa Atena. Se a olhasse diretamente, Perseu haveria sido transformado em pedra. O horror possui uma intensidade que nos excede, demandando mediações para seu tratamento. É preciso fazer uso de certas ferramentas para diminuir o impacto deixado pela violência de Estado da ditadura, transmitida transgeracionalmente a filhos, filhas, netos, netas etc.
Longe de ser uma invenção pessoal, o método aqui sugerido é o mesmo utilizado pela Psicanálise e pela Psicologia Analítica na interpretação de sonhos. Na Psicanálise, o sonho é a realização de um desejo, que, frequentemente, passa por um processo de condensação e deslocamento. Por não poder relacionar-se diretamente com seu desejo, o sujeito inventa um filme para tornar esse contato possível.
Na condensação, muitas ideias, sentimentos, sensações etc. formam uma imagem condensada representativa. No deslocamento, aspectos secundários dos sonhos ganham mais atenção e relevância em relação aos mais importantes. Por meio desses mecanismos, o sujeito pode receber uma mensagem com alta carga psíquica de forma menos dramática. Por sua vez, Psicologia Analítica trabalha o sonho pelo método da amplificação. Para isso, o sonho é comparado a casos análogos, mobilizando-se mitos, lendas, contos de fada e outras manifestações da subjetividade humana, de modo a amplificar as possibilidades de interpretação onírica.
O método aqui proposto baseia-se nessas três operações. Deslocar a experiência familiar e pessoal a uma outra estória análoga, seja um mito, uma lenda, uma história em quadrinho etc. Analisar essa estória análoga, de modo a dissolver gradualmente essa imagem condensada. Amplificar essa estória com o apoio de outros casos análogos, de modo a facilitar o processo de dissolução dessa imagem condensada.
Ao efetuar essas três operações, o sofrimento psíquico, o resultado da violência de Estado e da transmissão do trauma às gerações seguintes, tende a diminuir em intensidade, favorecendo a escrita historiográfica da experiência familiar traumática. Ao reduzir o desgaste emocional, abre-se mais espaços e possibilidades para tratar de mais elementos da experiência familiar traumática.
Em termos acadêmicos no campo da História, haverá uma certa formalidade de exclusão de todo esse percurso da escrita do trabalho. Em relação à escrita da História não acadêmica, esse processo pode ser apresentado. A questão é saber qual o propósito de escrita de História de um ou uma familiar atingido ou atingida pela violência de Estado tem em mente. Sabendo do objetivo, é importante deixar isso claro ao leitor e à leitora.
Felipe Lott é Doutor e Mestre em História pela UFF e Bacharel em Ciências Sociais pela UFF, membro do coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça e do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação
[1] JELIN, Elizabeth. Los trabajos de la memoria. 1.ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2021.
[2] COUTINHO, Mateus. Araguaia: ‘Luto, mas esperança não tenho’, diz familiar de desaparecido. UOL, Brasília, 10 de ago. 2025. Política. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/08/10/luto-porque-a-gente-tem-que-lutar-mas-esperanca-eu-nao-tenho-mais.htm. Acesso em: 22 de set. 2025.
[3] COUTINHO, Mateus. Araguaia: ‘Luto, mas esperança não tenho’, diz familiar de desaparecido. UOL, Brasília, 10 de ago. 2025. Política. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/08/10/luto-porque-a-gente-tem-que-lutar-mas-esperanca-eu-nao-tenho-mais.htm. Acesso em: 22 de set. 2025.

