Fascismo na sociedade sem classes: uma interpretação do bolsonarismo

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Fascismo na sociedade sem classes: uma interpretação do bolsonarismo

por Henrique Costa
22 de março de 2019
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Passado algum tempo do início do atual governo, é o caso de se perguntar o que teria levado 57,8 milhões de pessoas vivendo nesses escombros dominados por milícias a acelerar o fim da História, votando em Jair Bolsonaro e sua Tropa de Elite composta por figuras como Paulo Guedes, Sérgio Moro e Ricardo Vélez. O espírito que move a corrida para o abismo seria apenas o Brasil tentando “ajeitar as coisas” mais uma vez?

Catarse

A certa altura do romance Estorvo, o narrador-protagonista sugere querer visitar a mãe, mas desiste, acreditando que esta poderia ter caído no sono “desinteressada das novas coleções” e estaria a sonhar, talvez com o marido falecido. O cinismo e a verve aguda e amoral do personagem lhe permitem refletir sobre os sonhos dos velhos com esclarecimento de gerontologista astrólogo. Na tese que apresenta, o acervo de sonhos dos velhos, depois de certa idade, se esgota, e eles começam a se repetir. “Mas como nada é totalmente péssimo”, diz, “a memória de um velho também enfraquece, e ele já não tem certeza se sonhou aquele sonho ou não”. E se algo desastroso vier pela frente que ele eventualmente já tenha sonhado, “um precipício, um incêndio, um desastre de avião, a morte de todos os parentes, uma perseguição no labirinto, um cataclismo que a gente acorda sobressaltado com falta de ar”, se levanta com a frase na ponta da língua: “Eu não avisei?”. Não tendo certeza se foi sonho ou realidade, volta a dormir e emenda em outro. Já o personagem narrador do livro, que termina esfaqueado, imundo e desfigurado, física e moralmente, espera que alguém – sua irmã rica, a ex-mulher ou o amigo intelectual – lhe dê abrigo por mais uma temporada até que ele possa “ajeitar as coisas”.

O romance de Chico Buarque nos ajuda a ter uma visão mais dilatada do tempo histórico, pois do período da redemocratização ao que vivemos hoje, o diagnóstico do romancista-cantor mantém surpreendente atualidade. Nesse meio tempo, quatro governos petistas se sucederam, o que a intuição de esquerda sugeriria progresso. Contudo, a fórmula era premonitória. Roberto Schwarz apontou à época que o narrador talvez fosse “um moço de família vivendo como joão-ninguém a caminho da marginalidade”. A compreensão de seu lugar sui-generis no tecido social se encaixaria não nos antagonismos a que estamos acostumados (ricos e pobres etc.), “mas na fluidez e na dissolução das fronteiras entre as categorias sociais”. A estas, no boom das commodities, economistas como Marcelo Neri deram o nome de “nova classe média”, imediatamente adotado pelo governo Dilma. Na verdade, trata-se de uma reunião do precariado renovado pelo lulismo e pela gig economy ao conjunto de trabalhadores mais ou menos remediados a caminho da dessocialização que remete à reestruturação produtiva. Com o aprofundamento da crise econômica, o bolsonarismo lhes ergueu uma fortaleza.

“Estaríamos nos tornando uma sociedade sem classes, sob o signo da delinquência?”, perguntou Schwarz, quando tipos como Sérgio Cabral e Eduardo Cunha, símbolos de tal comportamento, ainda esperavam sua vez. Pois comentando sobre a decadência do período que atravessamos, Mario Sergio Conti sugeriu a figura de um túnel vertical, em que os brasileiros parecem acelerar rumo ao fundo do poço, onde encontrarão a felicidade no fim da previdência e dos direitos trabalhistas. A metáfora de Conti soa ainda mais dramática quando lembramos que a essência do progresso é acelerar indefinidamente, com o anjo da história de Walter Benjamin a observar impotente a destruição deixada para trás. No espetáculo da política brasileira dos últimos seis anos, o medo e o delírio se alternaram no lusco-fusco, em que imagens embaçadas e sons de sirenes vez ou outra ameaçavam interromper mais um sonho repetido, o do lulismo como releitura do velho desenvolvimentismo. Nesse jogo de luzes, a delinquência se espraiou de cima a baixo via redes sociais.

Agora, passado algum tempo do início do atual governo, é o caso de se perguntar o que teria levado 57,8 milhões de pessoas vivendo nesses escombros dominados por milícias a acelerar o fim da História, votando em Jair Bolsonaro e sua Tropa de Elite composta por figuras como Paulo Guedes, Sérgio Moro e Ricardo Vélez. O espírito que move a corrida para o abismo seria apenas o Brasil tentando “ajeitar as coisas” mais uma vez?

A resposta para o enigma da ascensão bolsonarista tem relação com a virada empreendedora turbinada pela gig economy, que precariza o que já era ruim. Assim como nos anos 1990, ela vem acompanhada de desemprego e desalento persistentes. A dissolução das classes contou ainda com a criação do Microempreendedor Individual (MEI) pelo governo Lula, que ajudou a renovar a economia da viração e eliminar sua possibilidade de aposentadoria – 23,9 milhões de pessoas no país trabalham por conta própria, segundo o IBGE. Reinterpretado para o Brasil pós-lulista da competição cruel, esses elementos movem a determinação básica de eliminar a concorrência, sejam eles vizinhos, colegas de trabalho, motoristas no trânsito, participantes de reality shows. A ética própria ao empreendedorismo torna-se finalmente hegemônica exatamente no momento em que a ex-nova classe média acelera rumo ao fundo do poço.

Disposta a destruir a si mesma, a sociedade brasileira busca efetivar a tese de Thatcher. No começo de cada ano nas empresas, já era comum que funcionários se organizassem para cancelar suas contribuições sindicais. Enquanto “indivíduos e suas famílias”, uma massa de trabalhadores com carteira assinada acabou com seus sindicatos antes mesmo que as burocracias e o governo o fizessem, bastando a este último jogar a pá de cal com sua reforma trabalhista. E no momento em que a organização sindical seria mais necessária, eles já não fazem mais parte do universo simbólico de trabalhadores atomizados e sem nenhum sentido comunitário.

A distopia do planeta em colapso já é real, mas sentida como sapo em lenta fervura, sensação de fim de linha que faz aflorar a luta pela sobrevivência, cujo palco principal é exatamente um mercado de trabalho que se flexibiliza e se afunila ao mesmo tempo, seja pelo avanço da automação – pesquisa realizada pelo Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações da UnB (Universidade de Brasília) avaliou que, até 2026, 30 milhões de vagas com carteira assinada deixariam de existir se todas as empresas decidissem substituir trabalhadores humanos pela tecnologia já disponível –, seja pela eliminação física pelos sistemas de justiça e pelo encarceramento em massa.
O que está em jogo é a eliminação física e simbólica de ocupações e estilos de vida da classe trabalhadora como a conhecemos nos últimos quatro séculos desde a Revolução Industrial, e sua substituição por um aglomerado de “empresas de si mesmos”.

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A sociedade sem classes cria seu espelho no mundo do trabalho e refaz sua própria ética, em que a correção política também se impôs. Há nele uma sensação difusa entre aqueles que se dissolveram em indivíduos sem classe e que fizeram sua qualificação profissional em cursos universitários massificados pelas políticas públicas do lulismo, como Direito e Administração (os mais procurados pela juventude ansiosa por se livrar dos empregos manuais), de que o gênero, a orientação sexual e a raça seriam assets que desequilibrariam a competição pelas vagas condizentes, restando-lhes empregos precários, dívidas e frustração. Estamos aqui no campo do capital humano e dos manuais de gestão corporativa, aquele em o trabalhador investe suas competências, ao mesmo tempo em que assume os riscos pelas próprias escolhas. Ter um capital humano condizente com o espírito do tempo se torna vital para a manutenção no mercado de trabalho, não só no capitalismo mais avançado, o das startups e da inovação tecnológica – não por acaso responsáveis pela supressão dos velhos empregos – mas também na gig economy. A dissolução ideológica das classes os fazem indivíduos em guerra aberta pela simples manutenção de condições competitivas nesse mercado.

A fluidez e a dissolução das classes no novo capitalismo, estimulada pela intensa concorrência, estrutura o mundo do trabalho contemporâneo. A unidade que possibilitou a emergência do bolsonarismo com consequências na política institucional se viabilizou pela figura do “homem comum” que Bolsonaro buscar representar. Segundo Theodor W. Adorno, as forças psicológicas que transformam indivíduos em massa têm sua origem no convencimento que o demagogo fascista é capaz de exercer em milhões de pessoas para objetivos incompatíveis com seu próprio interesse racional. Isso se faz criando artificialmente o vínculo libidinal que Freud buscou. “Se o método dos demagogos é realista – e seu sucesso popular não deixa dúvidas de que o seja –, poder-se-ia lançar como hipótese que o vínculo em questão é exatamente o mesmo que o demagogo tenta produzir sinteticamente; na realidade, que ele é o princípio unificador por trás de seus vários dispositivos”.
Bolsonaro é o vínculo unificador por trás do individualismo mortal que emergiu e se estruturou a partir do desmanche da sociedade do trabalho (precário) no Brasil, e consequentemente de suas classes, cujo exemplo emblemático são os caminhoneiros, estes também a caminho da atomização pela MEI e pelo endividamento – 44,8% deles, segundo a Confederação Nacional dos Transportes. Pesquisa Datafolha revelou que seus eleitores eram os que tinham maior preferência por ter um salário mais alto como autônomo, sem benefícios trabalhistas e impostos mais baixos (60%). Uma razão estruturante, a do sujeito neoliberal, faz emergir o fascismo da autoproteção de corpos vulneráveis em uma sociedade que aboliu as classes no plano ideológico. Com frequência cada vez maior, a violência extrapola o simbólico e resulta em massacres em escolas, em performances de brutalidade espetacularizada.

*

Na prática, a coisa se estabelece como uma lógica de vingança com as armas do inimigo. No percurso do lulismo, grandes esperanças se fundamentaram no estímulo do sujeito empreendedor, na verdade saídas de emergência para a precarização, tomando forma definitiva no pronunciamento de Dilma Rousseff no Dia Internacional de Luta das Mulheres, em 2015, voltado para as mulheres empreendedoras. Também se aproveitou do espírito politicamente correto da época para uma série de iniciativas no âmbito legislativo, que facilmente se confundiam com punitivismo. Assim, leis bem-intencionadas como as da classificação indicativa foram aprovadas com aplausos da parcela de esquerda da sociedade e silêncio reprimido da “maioria silenciosa” (em sentido nixoniano), que hoje cobra a fatura utilizando a legislação em vigor.

Inventamos e exportamos um estereótipo do brasileiro e com o tempo não enganamos apenas estrangeiros deslumbrados com nosso exotismo específico, mas nos acostumamos com ele pela sensação de conforto que nos trazia. O brasileiro ordeiro, festeiro e que superava as adversidades de nossa pobreza e formação truncada com inigualável criatividade, samba no pé e sorriso no rosto nos mantinha seguros que nunca neste país alguém como Bolsonaro cativaria a massa, pois o candidato autoritário e ranzinza era a negação ao cordial e pacífico nativo. A narrativa tropicalista encontrou um oponente que lhe roubaria a hegemonia entre as classes baixas, que afirma que sempre fomos uma sociedade conservadora, auto protetora, fundada em valores judaico-cristãos. O neoliberalismo progressista é uma razão que se consolidou no chamado capitalismo cognitivo, e contra ele o bolsonarismo se insurge.

Mas a dinâmica da vida coletiva mudou profundamente desde a crise final do regime militar, e a vingança da ex-nova classe média, convertida ao bolsonarismo, se volta para a perseguição daqueles que, na sua visão, “se dão bem” com o neoliberalismo progressista, bem pensante e politicamente correto: artistas, hipsters comopolitas, bem empregados em atividades rentáveis do mercado de trabalho de ponta e celebridades antenadas, disfarçando censura com a proteção de crianças e adolescentes. Como rastilho de pólvora, seus princípios se espalham entre pais de alunos, professores que se autocensuram, empresas da área de educação que “recomendam” cuidado com temas como sexualidade e religiosidade de matriz africana. As redes sociais permitem que um único indivíduo contrariado consiga disseminar entre outros milhões seu repúdio àquela escola, empresa, artista etc., o que explica também a insistência da militância bolsonarista no projeto Escola sem Partido, cujo objetivo principal é manter em alerta permanente sua base menos ideológica, pois permanecer neste estado de tensão inibe a reflexão.

Há campo fértil para que as fake news se espalhem, pois há predisposição para aceitá-las em uma massa tornada amorfa na grande apoteose do lulismo. O cerne da disputa não está no Congresso, um mastodonte da espetacularização da política e um fim em si mesmo, onde os partidos se esmeram em produzir performances para as redes sociais. No Brasil atual, já pouco importa se um projeto como o Escola sem Partido seja ou não aprovado, e em caso positivo barrado por óbvia inconstitucionalidade. A delinquência cibernética da sociedade sem classes, que não se confunde com o ativismo virtual bem-comportado da esquerda, tratou de fazê-lo realidade.

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Exemplos de como o sofrimento infligido pela razão neoliberal, incluindo valores esperados, se aplica especialmente às vítimas da precariedade, e paradigmas para qualquer startup brasileira, Wall Street e as empresas do Vale do Silício, pelo contrário, ajudam a impor comportamentos ao mesmo tempo em que os recusam para si próprias. O sujeito empreendedor não é sempre o mesmo, diferindo em relação as possibilidades que lhe foram dadas ao longo da vida. Um empreendedor da periferia de São Paulo é muito diferente dos clientes de um coach. Mas a razão neoliberal que lhes molda a conduta estrutura as relações para além do econômico, criando raízes inclusive na política. Na esfera onde o poder é praticamente incontrolável, as defesas contra o aumento da inclusão são mais efetivas, pois basta a recusa . Aliás, casos de assédio sexual e moral em empresas como Facebook e Uber se proliferam como em qualquer empresa do velho capitalismo, pois se tratam de corporações dirigidas por millennials cuja ética de governança é a pulsão pelo gozo sem limites .

Também não é uma coincidência que uma eleição polarizada pelo lulismo, duas greves de caminhoneiros e um impeachment tenham mantido uma constante e insuportável tensão no ar já rarefeito, pois é também o que se tem buscado na esquerda, quando poucos dias depois da eleição já se anunciava a “resistência” sem nenhum respiro para o pensamento e para a autoanálise. A compressão do tempo-espaço se manifesta em surtos de revolta sem consequência quando alienados da realidade vivida e da perspectiva histórica. O processo, contudo, se torna inteligível quando se nota que suas lideranças reproduzem a mesma ética e os mesmos métodos da gestão corporativa, assim como sua necessidade do gozo e substituição de bandeiras na maníaca velocidade das redes sociais.

Se a polarização entre bolsonaristas e petistas teria inviabilizado um hipotético governo Haddad, a escalada da violência entre a ex-nova classe média e uma parcela privilegiada do capitalismo contemporâneo convertida à esquerda indica que o círculo vicioso da vingança foi ativado, e não há programa de transição, apenas a opressão do aqui e agora. Nem há, a rigor, perspectiva de futuro. “No time for losers”, como diria a música do Queen, que voltou à moda, e não por acaso é usada como instrumento de tortura em Guantánamo.

*Henrique Costa é doutorando no programa de pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Entre o lulismo e o ceticismo: um estudo com bolsistas do Prouni de São Paulo (Alameda Casa Editorial).



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