Fascismo, totalitarismo e a classe trabalhadora sob o olhar da História
Um diálogo crítico entre as interpretações clássicas e a perspectiva da ‘história vista de baixo’
O século XX legou à humanidade um conjunto de experiências políticas que desafiaram – e continuam desafiando – as categorias analíticas tradicionais das ciências humanas. O fascismo e o totalitarismo, fenômenos que marcaram profundamente o período entre as duas guerras mundiais e cujas reverberações ainda se fazem sentir na contemporaneidade, constituem objetos de investigação que exigem abordagens historiográficas capazes de articular estruturas econômicas, dinâmicas políticas e experiências vividas pelos sujeitos históricos
A historiografia sobre o fascismo e o totalitarismo constituiu-se, ao longo do século XX, como um campo de intensos debates teóricos e metodológicos. Eric Hobsbawm, em sua obra Era dos Extremos (1994), caracterizou o período de 1914 a 1945 como a “Era das Catástrofes”, inserindo o totalitarismo não como anomalia histórica, mas como resposta política extrema à crise estrutural do capitalismo liberal deflagrada pela Primeira Guerra Mundial e pela Grande Depressão. Essa interpretação, ancorada no materialismo histórico, compreende os regimes fascistas como expressões das contradições internas do sistema capitalista em momentos de crise hegemônica.
Contrapondo-se parcialmente a essa leitura estrutural, Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo (1951), propôs uma interpretação que enfatiza a novidade qualitativa dos regimes nazista e stalinista. Para Arendt, o totalitarismo representou uma tentativa de transformação total da natureza humana e da realidade social, dissolvendo as fronteiras tradicionais entre Estado e sociedade civil. O terror sistemático e a ideologia totalizante emergem, nessa perspectiva, como elementos constitutivos de uma forma política sem precedentes na história.
A contribuição de Enzo Traverso, desenvolvida em obras como A Violência Nazista: uma genealogia europeia (2002) e À Fogo e Sangue (2007), introduz uma dimensão frequentemente negligenciada: a genealogia colonial da violência totalitária. Traverso conecta o genocídio nazista à história da violência moderna europeia, argumentando que as tecnologias de extermínio foram desenvolvidas e aplicadas previamente no contexto colonial. A violência colonial, nesse sentido, emerge como laboratório das práticas que seriam posteriormente aplicadas em território europeu.
Os sistemas coloniais, em sua implementação, assentavam-se em filosofias que tinham como objetivo primordial rentabilizar ao máximo as colônias em benefício exclusivo da economia metropolitana. Essa perspectiva permite compreender como práticas de dominação, desumanização e extermínio foram paulatinamente desenvolvidas nas periferias do sistema capitalista mundial antes de serem reimportadas para o centro europeu.
Robert O. Paxton, em A Anatomia do Fascismo (2004), oferece uma abordagem que privilegia as práticas concretas em detrimento das formulações ideológicas abstratas. Para Paxton, o fascismo deve ser definido por suas ações – a mobilização de massas, o culto à violência, as alianças políticas com elites conservadoras (industriais, militares) – e não por suas justificativas teóricas.
Tabela 1 – Principais Diferenças entre as Abordagens Interpretativas
| Autor/a | Ênfase Principal | Diferença Fundamental |
| Hobsbawm (1994) | Crise estrutural do capitalismo liberal | Totalitarismo como resposta à crise sistêmica, não como anomalia |
| Arendt (1951) | Novidade qualitativa do terror e ideologia totalizante | Fenômeno sem precedentes; dissolução Estado/sociedade |
| Traverso (2002) | Genealogia colonial da violência | Continuidades entre violência colonial e nazismo |
| Paxton (2004) | Práticas e alianças políticas concretas | Fascismo definido por ações, não por ideologia |
| Guérin (1936) | Funcionalidade econômica para o grande capital | Ditadura terrorista contra o movimento operário |
| Poulantzas (1970) | Forma específica de Estado capitalista de exceção | Crise de hegemonia; burguesia governa pela coerção |
Fonte: Elaboração própria a partir das obras citadas.
Classes, Estado e exceção: a tradição marxista em debate
A tradição marxista produziu algumas das análises mais influentes sobre o fenômeno fascista, embora com divergências significativas quanto às mediações entre economia, política e cultura. Daniel Guérin, em Fascismo e Grande Capital (1936), desenvolveu uma interpretação que enfatiza a funcionalidade econômica do fascismo para a estabilização da acumulação capitalista em crise. Para Guérin, o fascismo constitui uma ditadura terrorista do grande capital contra o movimento operário, evidenciando a aliança estrutural entre as frações monopolistas da burguesia e os movimentos de extrema-direita. Essa leitura, produzida ainda no calor dos acontecimentos, permanece como referência fundamental para a compreensão das bases materiais do fenômeno.
Nicos Poulantzas, em Fascismo e Ditadura (1970), aprofundou a análise marxista ao propor o conceito de “Estado capitalista de exceção”. Para Poulantzas, o fascismo emerge em conjunturas de crise de hegemonia, quando a burguesia não consegue mais governar através das formas democráticas tradicionais e necessita recorrer à coerção extrema. Essa formulação permite compreender o fascismo não como simples instrumento da classe dominante, mas como forma específica de Estado que responde a contradições particulares do bloco no poder.
A historiografia de Hobsbawm, como demonstrou Michael Löwy, integra a riqueza da subjetividade sociocultural em sua análise dos acontecimentos históricos. Os fenômenos não são percebidos simplesmente como produtos do jogo “objetivo” das forças econômicas ou políticas, mas como processos mediados por crenças, sentimentos e emoções.
A questão da base social do fascismo permanece central para qualquer análise histórica consequente. O debate clássico sobre o papel das classes médias – enfatizado por autores como Wilhelm Reich e retomado por estudos contemporâneos. O fascismo histórico mobilizou amplos setores das classes médias, mas também encontrou apoio em frações da própria classe trabalhadora. Compreender essa aparente contradição exige uma análise que vá além das determinações estruturais e investigue as mediações culturais, ideológicas e organizativas que permitiram a construção de consensos em torno de projetos autoritários.
Tabela 2 – Contribuições Conceituais para a Análise do Fascismo
| Autor/a | Conceito Central | Contribuição Principal |
| E.P. Thompson | Experiência / História desde abajo | Articula estruturas objetivas com vivências subjetivas; valoriza a agência dos sujeitos subalternos |
| Eric Hobsbawm | Era das Catástrofes | Periodização histórica que situa o totalitarismo como resposta à crise sistêmica do capitalismo liberal |
| Hannah Arendt | Terror sistemático / Ideologia totalizante | Análise da experiência subjetiva do terror; atomização social e destruição dos laços de solidariedade |
| Enzo Traverso | Genealogia da violência colonial | Revela continuidades entre práticas coloniais e nazismo; desnaturaliza a violência europeia |
| Robert Paxton | Práticas fascistas | Metodologia que privilegia ações concretas sobre formulações ideológicas; análise das alianças políticas |
| Daniel Guérin | Fascismo e grande capital | Demonstra a funcionalidade econômica do fascismo para frações monopolistas da burguesia |
| Nicos Poulantzas | Estado de exceção | Teoria do Estado que explica o fascismo como forma específica em conjunturas de crise hegemônica |
Fonte: Elaboração própria a partir das obras citadas.
Considerações finais: da análise histórica às questões contemporâneas
A análise histórica do fascismo e do totalitarismo não constitui exercício meramente acadêmico, desvinculado das urgências do presente. Os debates teóricos travados ao longo do século XX oferecem ferramentas conceituais indispensáveis para compreender fenômenos contemporâneos que, embora distintos em suas manifestações concretas, guardam afinidades estruturais com as experiências históricas do entreguerras. A ascensão de movimentos de extrema-direita em diferentes países, a erosão de instituições democráticas e a disseminação de discursos autoritários exigem uma historiografia capaz de articular a análise das estruturas com a compreensão das experiências vividas pelos sujeitos sociais.
A perspectiva da “história desde baixo” revela-se particularmente fecunda para esse esforço analítico. Ao colocar no centro da investigação as experiências dos trabalhadores e das classes subalternas, essa abordagem permite superar tanto os determinismos economicistas quanto as análises puramente ideológicas do fenômeno fascista. O fascismo não se impôs apenas pela força – embora a violência tenha sido elemento constitutivo – mas também através da construção de consensos, da mobilização de ressentimentos e da oferta de respostas (ainda que ilusórias) para crises reais vivenciadas por amplos setores da população.
O diálogo entre as diferentes tradições interpretativas – a filosofia política arendtiana, a história social britânica, o marxismo estruturalista, a genealogia da violência colonial – não deve ser pensado como ecletismo teórico, mas como esforço de construção de uma análise multidimensional que faça justiça à complexidade do fenômeno. Cada perspectiva ilumina aspectos específicos: as transformações na natureza do poder político, as experiências subjetivas do terror, as determinações econômicas, as continuidades coloniais. A articulação crítica dessas contribuições permite uma compreensão mais adequada do que foi – e do que pode voltar a ser – o fascismo.
A compreensão histórica dos fenômenos autoritários exige, portanto, uma atenção especial às condições materiais que possibilitam sua emergência. Crises econômicas profundas, desemprego massivo, desorganização das formas tradicionais de solidariedade de classe, fragmentação das experiências de trabalho – todos esses elementos criam um terreno fértil para a disseminação de ideologias que prometem restaurar uma ordem perdida. Não se trata, contudo, de relação mecânica: as mesmas condições objetivas podem gerar respostas políticas distintas, dependendo das mediações organizativas, culturais e ideológicas que se interpõem entre a estrutura e a ação.
A violência constitui elemento central de qualquer análise consistente do fascismo e do totalitarismo. Não se trata apenas da violência física – embora esta seja constitutiva – mas também das formas mais sutis de coerção: a vigilância permanente, a destruição dos espaços de autonomia, a imposição de uma conformidade total. A experiência do terror transforma profundamente as relações sociais, atomizando os indivíduos e destruindo os laços de confiança que sustentam qualquer forma de resistência coletiva. Compreender essa dimensão experiencial da dominação totalitária é fundamental para não reduzir o fenômeno às suas determinações estruturais.

A memória histórica dos regimes autoritários permanece, ainda hoje, como campo de disputas políticas. As formas pelas quais sociedades contemporâneas elaboram – ou recusam elaborar – seu passado fascista ou ditatorial têm consequências diretas sobre a capacidade de reconhecer e resistir a manifestações atuais do autoritarismo. O silenciamento da violência colonial, a relativização dos crimes perpetrados por regimes de exceção, a nostalgia de supostas “ordens” perdidas: todos esses elementos participam de uma cultura política que facilita a emergência de novos autoritarismos. A história, nesse sentido, não é apenas disciplina acadêmica, mas também instrumento de luta política.
A classe trabalhadora ocupa posição central em qualquer análise consequente do fascismo. Seja como alvo privilegiado da repressão – sindicatos, partidos operários, organizações de classe foram sistematicamente destruídos pelos regimes fascistas –, seja como base social parcialmente mobilizada para o projeto autoritário, os trabalhadores constituem sujeitos históricos cuja experiência não pode ser ignorada. A pergunta sobre por que frações da classe trabalhadora aderiram ao fascismo – e por que outras resistiram – permanece fundamental para compreender tanto o passado quanto os riscos do presente.
As resistências ao fascismo – cotidianas e extraordinárias, individuais e coletivas, organizadas e espontâneas – constituem dimensão frequentemente negligenciada da historiografia tradicional.
O estudo histórico do fascismo e do totalitarismo, em última análise, não é exercício contemplativo sobre um passado encerrado, mas ferramenta para a compreensão crítica do presente e a construção de futuros possíveis. As lições da história não se apresentam como receitas prontas, mas como advertências e inspirações: advertências sobre as consequências catastróficas de determinadas configurações políticas; inspirações a partir das experiências de luta e resistência que, mesmo derrotadas, demonstram que outras formas de organização social são possíveis. A tarefa do historiador, nesse sentido, é também tarefa política: contra a naturalização do existente, reafirmar que a história é feita por sujeitos concretos, em condições determinadas, e que seu curso não está predeterminado por nenhuma lei inexorável.
Erik Chiconelli Gomes é pós-Doutor pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP). Doutor e Mestre em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP). Bacharel e Licenciado em História (USP). Licenciado em Geografia (UnB). Bacharel em Ciências Sociais (USP) e em Direito (USP). Atualmente, é Coordenador Acadêmico e do Centro de Pesquisa e Estudos na Escola Superior de Advocacia (ESA/OABSP).
Referências
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