Frei Betto: intolerância diminuiu, mas é reforçada pelo neoliberalismo - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA

Frei Betto: intolerância diminuiu, mas é reforçada pelo neoliberalismo

por Luís Brasilino
8 de junho de 2015
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Autor de A mosca azul: reflexão sobre o poder e Calendário do poder, Frei Betto conversou com o Le Monde Diplomatique Brasil sobre o nível de intolerância no país. Em sua opinião, apesar de avanços recentes, a cultura consumista propagada pelo neoliberalismo subverte a lógica, anula o bom senso e reforça a intolerânciaLuís Brasilino

DIPLOMATIQUE– Em sua opinião, o que é a intolerância e o que a alimenta?

FREI BETTO – Intolerância, como friso no livro Reinventar a vida(Vozes), é a incapacidade de enxergar o outro, acatar a sua opinião, entender que todo ponto de vista é a vista a partir de um ponto. Alimentam-na a arrogância, a convicção de que se é dono da verdade, o fundamentalismo, o egocentrismo.

 

No artigo “Arte da tolerância”, o senhor diz que a mais repugnante das intolerâncias é a religiosa. Por quê?

Porque Deus não tem religião. E transcende todas as doutrinas religiosas. Religião deriva do verbo “re-ligar”, religar-se a si mesmo, ao próximo, à natureza e a Deus. Portanto, nada mais contraditório do que, em nome de minha fé, querer me impor aos demais, pois a fé, em princípio, induz ao amor, irmão siamês da tolerância.

Todo ato de intolerância é uma atitude de desamor. O amor, como diz o apóstolo Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, “é paciente e prestativo, não é invejoso nem ostenta, não se incha de orgulho e nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita nem guarda rancor. Não se alegra com a injustiça e se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

 

O nível de intolerância religiosa no Brasil tem melhorado nos últimos anos?

Sim, porque já se pratica o ecumenismo, entre as Igrejas cristãs, e o diálogo inter-religioso. Católicos já não perseguem protestantes nem discriminam espíritas. Crentes não segregam ateus. Judeus e muçulmanos convivem tão bem no Brasil que isso provoca espanto no exterior. No entanto, ainda há muita intolerância a ser erradicada.

 

O senhor enxerga o crescimento do poder das Igrejas neopentecostais como mais um fator que alimenta a intolerância, especialmente a religiosa, ou esses grupos também são vítimas de preconceito?

Fujo do preconceito contra as Igrejas neopentecostais. Há tolerância e intolerância no interior de todas as instituições religiosas. A Igreja Católica, por exemplo, no auge de sua intolerância criou a Inquisição.

O problema é que, como assinala La Boétie em seu clássico Discurso sobre a servidão voluntária, muitas pessoas abdicam de sua autonomia e preferem ser conduzidas como cadelas na coleira… Abrigam-se à sombra de um pastor, um padre, um político, um líder, e se submetem à sua vontade como um devoto ao oráculo divino… E muitas religiões exploram esse lado vulnerável do ser humano tão bem analisado por Freud.

 

Para além da intolerância entre as religiões, existe a intolerância de religiosos com relação a determinadas práticas e grupos, especialmente, hoje em dia, contra os homossexuais. Qual é sua avaliação sobre isso?

A Igreja Católica, à qual me vinculo, ainda é oficialmente intolerante em relação às mulheres, embora sejam elas, entre os católicos, as principais apóstolas da fé cristã. Considera a mulher ontologicamente inferior ao homem, o que impede que possam ser sacerdotes.

Felizmente o papa Francisco, exemplo de tolerância, se empenha em mudar essa postura da instituição. Ao longo da história, houve intolerância de todo tipo: dos libertos contra os escravos, dos ricos contra os pobres, dos nazistas contra os judeus, dos judeus contra os palestinos islâmicos, dos brancos contra os negros etc.

Todo preconceito reforça a intolerância e provoca a discriminação. Hoje em dia isso é evidente em muitos países ricos em relação aos muçulmanos, considerados potenciais terroristas; em homofóbicos, em relação aos homossexuais; em policiais, em relação a negros pobres etc. Na Igreja Católica, o papa Francisco se esforça para erradicar o preconceito contra a homossexualidade, que já não é considerada doença nem desvio. Falta ainda dar o passo principal: aceitar que, se Deus é amor, toda relação amorosa é uma experiência de Deus.

 

Com as redes sociais e a possibilidade de comentar o conteúdo jornalístico na internet, as manifestações de intolerância ganharam maior visibilidade. Isso passa do mundo virtual para o real ou fica confinado nesses espaços?

As redes sociais apenas quebram as paredes da intimidade e revelam as pessoas como elas são de fato. Houve uma inversão do processo: o delito de invasão de privacidade cedeu lugar ao cinismo da hiperexposição da evasão de privacidade. As pessoas se expõem com seus preconceitos, taras, neuras e loucuras. É o mundo real que apenas usa a virtualidade para reforçar a realidade tal como ela é. Isso demonstra que temos um longo caminho a percorrer para criar um projeto civilizatório livre de preconceitos e discriminações, em suma, de intolerâncias.

 

Na medida em que a crise econômica reduz as oportunidades e deprime a qualidade de vida, a intolerância tende a inflar?

Não é a crise econômica que reforça a intolerância, é a cultura consumista propagada pelo neoliberalismo que, ao declarar que “a história acabou”, procura confinar todos nós em um presente cíclico sem perspectiva histórica e horizonte utópico.

A meu ver, o principal problema filosófico da pós-modernidade, que trato em A mosca azul(Rocco), é a desistorização do tempo produzida pelo neoliberalismo, o que explica por que o debate político desce sempre mais do racional para o emocional. Isso reforça a intolerância, que subverte a lógica e anula o bom senso.

 

O Congresso atual é apontado por muitos especialistas como o mais conservador desde a redemocratização. Isso é expressão de um aumento da intolerância ou é apenas reflexo de distorções do sistema político brasileiro?

Fico com a segunda hipótese. Nosso sistema político, malgrado a Constituição de 1988, ainda é muito tributário do longo período de ditadura militar. E não acredito em reforma política positiva com o atual Congresso. Daí a importância de uma assembleia soberana e exclusiva para a reforma política.

 

As manifestações de insatisfação em relação ao governo federal e ao PT frequentemente ultrapassam a barreira do ódio. Como o senhor analisa esse fenômeno?

O PT, embora tenha sido o melhor governo de nossa história republicana, sobretudo ao promover a inclusão econômica de amplos setores pobres da população brasileira, cometeu o erro de não promover também a inclusão política. Agora paga a sua grave omissão. E ao abraçar um projeto neodesenvolvimentista, de estímulo ao consumo de bens pessoais (linha branca, celular, carro etc.), sem a contrapartida dos bens sociais (saúde, educação, moradia, transporte coletivo etc.), fomentou uma cultura consumista neoliberal que, diante do ajuste fiscal, o qual castiga apenas os mais pobres, agora se volta contra o governo. Fora dos movimentos sociais, o PT não tem salvação.
Por fim, quais são os caminhos para fomentar a tolerância na sociedade?

Educação, educação, educação, incluindo nos currículos ética e espiritualidade (não confundir com religião, conforme distingo em meu livro O que a vida me ensinou, Saraiva). E uma legislação severamente punitiva para quem pratica a intolerância lesiva ao próximo e à coletividade. A lei tem de ser intolerante com os intolerantes. Não vejo outro caminho

 

Luís Brasilino é jornalista. Editor do Le Monde Diplomatique Brasil.



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