UM FRUTO DA SOCIEDADE CAPITALISTA

Futebol: uma prática que nasceu na escola

De sua origem na escola adentra as fábricas para, em seguida, ser apropriado pelos governos autoritários e, finalmente, integrado à sociedade neoliberal do espetáculo, o futebol retorna à escola, com a mesma função das outras mercadorias produzidas pela indústria cultural

Há muitas histórias sobre as origens do futebol. Segundo uma lenda, entre 2000 e 1500 a. C., na China Antiga, guerreiros chutavam o crânio de um inimigo procurando fazê-lo ultrapassar duas estacas de bambu fincadas no chão. Sabe-se, também, que na América Central se jogava o tlachtli. O ritual exigia que o capitão do time perdedor fosse sacrificado. Na Grécia Antiga se jogava epyskiros, com uma bola recheada de ar e areia. E para aperfeiçoar os soldados romanos na sua capacidade atlética, era jogado o harpastrum. Já na Itália do século XVI, jogava-se o cálcio, que segundo o historiador Hilário Franco Jr., “um contemporâneo estimou em 40 mil o número de espectadores. Leonardo da Vinci, parece, fazia parte desses torcedores, enquanto Nicolau Maquiavel, dos jogadores”.[1]

Mas o futebol moderno começou, de fato, nas escolas de elite da Inglaterra. Eric Dunning afirma que no início dessa prática esportiva havia o “culto dos jogos nas escolas públicas”. Esse culto valorizava o espírito amador, o divertimento, e possuía a finalidade pedagógica de preparar os futuros dirigentes da nação. Um caminho para se promover distinção, não por critérios acadêmicos – não muito úteis para os filhos das elites -, mas por critérios desportivos.[2]

O futebol profissional, que atraía multidões e despertava o imaginário da classe trabalhadora ao alimentar o sonho do estrelato, era relegado a um plano secundário nos primeiros estágios de consolidação dessa modalidade esportiva. Para preservar a supremacia do amadorismo, evitava-se a participação em determinadas competições, de modo que as equipes da elite não corressem o risco de serem derrotadas por clubes profissionais.

Como observa Dunning, havia, contudo, algumas exceções, como o Corinthians, “uma equipe amadora, formada nos finais do século XIX, e recrutada nas escolas públicas e nas Universidades de Oxford e de Cambridge, que conseguiu manter-se, durante algum tempo, em competição com os profissionais”. Para o autor, essas equipes representavam a “exceção sintomática” à tendência geral de exclusividade da elite das escolas públicas, constituindo-se deliberadamente como uma resposta ao sucesso crescente das equipes profissionais e como um meio de celebrar e preservar o valorizado ideal amador”[3].

As primeiras regras do futebol começaram nas escolas públicas entre 1845 e 1862. Mas cabe lembrar que se tratava de uma prática excludente e tinha como padrão “disputas finais contra antagonistas considerados à altura em termos sociais”. Eric Hobsbawm mostra “que nos Estados Unidos as universidades de elite (a “Ivy League”) definiam-se, pelo menos no nordeste dominante, pela seleção de faculdades que preferiam disputar campeonatos de futebol, naquele país um esporte basicamente universitário à origem”.[4]

Alguns atribuem ao Duque de Wellington, ainda na primeira metade do século XIX, a seguinte frase: “A Batalha de Waterloo foi vencida nos campos de futebol de Eton”. De acordo com o historiador Gilberto Agostino, “Wellington sabia que jogar futebol em Eton, ou em qualquer outra escola inglesa da primeira metade do século XIX, era antes de tudo uma prova de arrojo e rudeza tipicamente masculina, quase que um rito de passagem”.[5]

O futebol chega às escolas brasileiras nos finais do século XIX. Alguns acreditam que em 1881 foi criado, em Petrópolis, o Foot Rink Clube, através de “uma iniciativa de alunos do Colégio Paixão”. Na Revista Brasileira, o dr. Márcio Nery escrevia o artigo A educação das crianças no ponto de vista médico, que sugeria o futebol como prática escolar. Enquanto José Veríssimo dizia que se fosse inserido nas escolas brasileiras “jogos estrangeiros como o cricket, o football, o lawntennis, a Cross, etc..”.[6]

“Aparecendo como os salvadores do vigor nacional, os esportes passavam, então, a contar com entusiástico apoio de higienistas e educadores interessados no desenvolvimento físico da nação”,[7] explica o professor Leonardo Affonso de Miranda Pereira acerca dos primeiros passos do futebol nos trópicos.

Sendo assim, o futebol, nessa primeira fase, era “praticado em escolas e vizinhanças, sem a presença ainda do componente mercantil”.[8]

Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil

O futebol sai da escola…

Mas “com a profissionalização”, destaca Eric Hobsbawm, “a maior parte das figuras filantrópicas e moralizadoras da elite nacional afastou-se, deixando a administração dos clubes nas mãos de negociantes e outros dignitários locais, que sustentaram uma curiosa caricatura das relações entre classes do capitalismo industrial, como empregadores de uma força de trabalho predominantemente operária, atraída para a indústria pelos altos salários, pela oportunidade de ganhos extras antes da aposentadoria (partidas beneficentes), mas, acima de tudo, pela oportunidade de prestígio”.[9]

Fátima Antunes afirma que a difusão do futebol “em meio operário levou empresários a incentivarem a organização de clubes no interior das fábricas não apenas como forma de diversão e lazer: essas agremiações, ao participarem de campeonatos oficiais, divulgavam o nome das empresas e seus produtos”[10], como aconteceu com a fábrica Bangu no Rio de Janeiro e com a Renner no Rio Grande do Sul.

Sendo fruto da sociedade capitalista, o futebol vai seguindo o ritmo de desenvolvimento de tal modo de produção. Acabou sendo apropriado pelos governos autoritários no período entre guerras e meados da década 1970, com o objetivo de forjar unidade e mobilizar as massas.

Em 1934, Getúlio Vargas colocava Luiz Aranha, irmão do ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, como presidente da Confederação Brasileira do Desporto (CBD). Simpático ao governo de Mussolini, dizia que o selecionado na copa da Itália deveria mostrar-se “orgulhoso de sua própria raça”.[11]

“Segundo uma história muito citada”, explica o historiador Gilberto Agostino, “um pouco antes do início do jogo [final da Copa de 38] um telegrama chegara à concentração italiana enviado pelo próprio Mussolini. Sua mensagem tornou-se bem conhecida: Vencer ou Morrer”.[12] Em 1968, Costa e Silva recebe uma comissão da Confederação Brasileira de Desportos, e manda um recado para a Copa que ocorreria em dois anos: “Temos que ganhar a Copa de qualquer forma”. “O Brasil não pode perder a Copa de 70. Temos de ganhá-la através da disciplina, de muito treinamento, hierarquia e patriotismo”.[13]

Mais tarde, com o aumento do consumo proporcionado pelo Estado de Bem Estar social, o futebol vai se transformando em um verdadeiro espetáculo. João Havelange, como presidente da FIFA, consagrou o futebol como uma vitrine para as marcas. Os valores – mais integrados ao neoliberalismo consolidado nos finais dos anos 1970 – disseminados pelo futebol passam a estar vinculados “cada vez mais ao individualismo, narcisismo, consumo de itens descartáveis e culto aos ídolos”.[14]

O futebol retorna à escola

No período de Copa as escolas se enfeitam em todo país. O título de uma reportagem do O Globo estampa: Se não dá para competir com a Copa… Escolas transformam febre das figurinhas em oportunidade para ensinar valores aos alunos.[15] Valores fundamentais no capitalismo tardio, como gestão de finanças e orçamentos, inteligência emocional etc. são trabalhados para formar o empreendedor de si.[16]

A espetacularização do esporte tem como objetivo formar consumidores prontos a comprar os produtos apresentados pelos seus agentes: os ídolos. Além disso, atualmente, as diversas atividades atreladas à Copa e ao mundo do futebol nas escolas, no fim das contas, servem para produzir imagens que serão postadas nas redes sociais das escolas e das prefeituras, úteis tanto para fomentar o trabalho docente alienado quanto para as campanhas eleitorais.[17] O objetivo não é conscientizar o oprimido da sua condição, até porque, na sociedade espetacular, “a alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo”.[18]

De sua origem na escola adentra as fábricas para, em seguida, ser apropriado pelos governos autoritários e, finalmente, integrado à sociedade neoliberal do espetáculo, o futebol retorna à escola, com a mesma função das outras mercadorias produzidas pela indústria cultural: a formação de um consumidor disciplinado que acredita estar realizando os seus desejos, mas, na verdade, está vivendo um mundo programado por outros que tem o intuito de manter a lógica que promove a exclusão e a desigualdade social.

É preciso sim trazer para a escola os elementos que a sociedade consome, porém, não para fortalecer a lógica espetacular do consumo. É preciso refletir sobre a função que esses objetos desempenham no cotidiano, fornecendo aos alunos ferramentas adequadas para irem além das ilusões que o espetáculo promove. Essa é a função da escola cidadã emancipadora.

 

Raphael Fagundes é professor e Doutor em História Política pela UERJ.

 

[1] FRANCO Jr. Hilário. A dança dos deuses. São Paulo: Cia das Letras, 2007, p. 15-17.

[2] DUNNING, E. A dinâmica do desporto moderno. In: ELIAS, N e _______. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992, p. 314.

[3] Id., p. 316.

[4] HOBSBAWM, E. A produção em massa de tradições: Europa, 1870 a 1914.______ e RANGER, T. (orgs.) A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 306.

[5] AGOSTINO, G. Vencer ou morrer. Rio de Janeiro: Mauad, 2002, p. 21.

[6] MELO, V. A. Entre a evidência e a especulação: a “origem” do futebol no Rio de Janeiro e em Niterói. GIGLIO, S. e PRONI, M. (orgs.). O futebol nas ciências humanas no Brasil. Campinas, SP: EdUnicamp, 2020, p. 158.

[7] PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 44.

[8] MOURA, D. Capital financeiro e espetáculo: o controle do futebol por corporações mediáticas. DANTAS, M et. al. O valor da informação. São Paulo: Boitempo, 2022, p. 217.

[9] HOBSBAWM, p. 297.

[10] ANTUNES, F. “O futebol na fábrica”, Revista USP, São Paulo, n. 22, jun-ago. 1994, p. 109.

[11] ALMEIDA, João Daniel Lima de. e SANTORO, Maurício. A diplomacia dos gramados. In: RHBN, ano 1, n. 7, jan. 2006. p. 36-40.

[12] AGOSTINO, p. 65.

[13] GIGLIO, S. “A minha preocupação era jogar futebol”: relações entre futebol e ditadura. GIGLIO, S. e PRONI, M. (orgs.), p. 69.

[14] MATIAS, W. B. Futebol de espetáculo. Curitiba, Appris, 2020, p. 97.

[15] https://www.google.com/amp/s/oglobo.globo.com/google/amp/rio/bairros/barra/noticia/2026/05/28/se-nao-da-para-competir-com-a-copa-escolas-transformam-febre-das-figurinhas-em-oportunidade-para-ensinar-valores-aos-alunos.ghtml

[16] https://revistaforum.com.br/opiniao/o-programa-pe-de-meia-e-a-formacao-do-empresario-de-si-por-raphael-fagundes/

[17] https://diplomatique.org.br/o-trabalho-docente-alienado-na-sociedade-do-espetaculo/

[18] DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. www. marxismo.org. p. 25-26. Acesso em: 21 de jun. 2026.

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