Gaza, caldeirão do nacionalismo palestino - Le Monde Diplomatique

A HISTÓRIA CONTURBADA DE UM TERRITÓRIO ESTRATÉGICO

Gaza, caldeirão do nacionalismo palestino

por Alain Gresh
4 de agosto de 2014
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Lançada em 8 de julho, a ofensiva (aérea e depois terrestre) israelense contra Gaza provocou a morte de mais de oitocentas pessoas (até 25 de julho). É pouco provável, contudo, que os sitiados capitulem. A história desse território confirma a sólida tradição de resistência da população que jamais se resignouAlain Gresh

Privado de sua força pela pérfida Dalila, que lhe havia cortado os cabelos, Sansão, o Hebreu, caiu nas mãos dos filisteus – cujo nome daria origem ao termo “Palestina” –, que arrancaram seus olhos. Um dia, chamam Sansão para diverti-los e recebem uma surpresa: “Sansão apoiou-se nas duas colunas do meio, sobre as quais o templo se sustentava: de um lado, posicionou o braço direito e, do outro, o esquerdo. E disse: ‘Que eu morra com os filisteus’, forçando as duas colunas até se romperem e o templo cair sobre a cabeça dos tiranos e das pessoas que ali estavam. Aqueles a quem matou com a própria morte eram mais numerosos que os que matou durante sua vida”. Registrado na Bíblia, o conhecido episódio aconteceu em Gaza, capital dos filisteus, povo inimigo dos hebreus.

Desde sempre, Gaza esteve no caminho das rotas comerciais entre Europa e Ásia, e entre Oriente Médio e África. A cidade e o território localizam-se, desde a Antiguidade, no coração das rivalidades entre as potências da época, do Egito faraônico ao Império Bizantino, passando por Roma. Foi lá que, no ano 634, ocorreu a primeira vitória de que se tem notícia sobre o Império Bizantino, por parte de adeptos de uma religião então ainda desconhecida, o islamismo – cujo profeta, Maomé, desaparecera dois anos antes. Gaza permaneceu sob autoridade muçulmana até a Primeira Guerra Mundial, com alguns intervalos mais ou menos longos: reinos cruzados; invasão mongol; expedição de Bonaparte. “Fácil de tomar e fácil de perder”, observa Jean-Pierre Filiu em seu livro, considerado o mais aprofundado sobre esse território.1 Porta da Palestina, Gaza foi conquistada do Império Otomano pelo general britânico Edmund Allenby em 9 de novembro de 1917 – e passou a servir como acesso a Jerusalém, onde ele entrou no dia 11 de dezembro.

Para Londres, não se tratava apenas de derrubar o sultão, aliado da Alemanha e do Império Austro-Húngaro, mas também de assegurar o controle de um território estratégico e garantir a proteção da parte leste do Canal de Suez, veia jugular do império, via de comunicação vital entre o Vice-Reino das Índias e a metrópole. Em 1922, eles obtiveram o mandato da Liga das Nações para administrar o território que ganharia o nome de “Palestina” e do qual Gaza faz parte. Os ingleses também ocuparam o território com a missão de aplicar a “promessa Balfour”2 – que projetava a criação de uma nação judaica e estimulava a imigração sionista, o que fariam de forma diligente até 1939.

Gaza e sua região fizeram parte de todos os combates palestinos, muçulmanos e cristãos, e também contra a colonização sionista e a presença britânica. Esses territórios estiveram ainda implicados na grande revolta palestina de 1936 a 1939, finalmente interrompida pelos britânicos. Essa derrota privou os palestinos de qualquer direção política durante muito tempo, deixando aos governantes árabes a responsabilidade – se é possível usar o termo – de defender sua causa.

Em 15 de maio de 1948, no dia seguinte à proclamação do Estado de Israel, os exércitos árabes entraram na Palestina. Primeira guerra, primeira derrota árabe. O território previsto para o Estado da Palestina segundo o plano de divisão votado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 29 de novembro de 1947 foi desrespeitado: Israel anexou uma parte (notadamente a Galileia), e a Jordânia absorveu a margem oeste do Rio Jordão, conhecida hoje pelo nome de Cisjordânia. A Faixa de Gaza, um território de 360 km² que compreende as cidades de Gaza, Khan Yunes e Rafah, passou à administração militar egípcia – e permaneceu o único território palestino sobre o qual não se exerceria nenhuma soberania estrangeira. Aos 80 mil habitantes autóctones, somaram-se mais de 200 mil refugiados expulsos de seus territórios pelo Exército israelense e que vivem em condições miseráveis, com a esperança de poder voltar aos seus locais de origem. Essa presença em massa de refugiados e a condição particular do território fizeram de Gaza um dos centros do renascimento político palestino.

 

O oficial Ariel Sharon

Apesar do controle do Cairo – exercido pelo rei, depois por Gamal Abdel Nasser e em seguida pelos “oficiais livres” que o tiraram do poder em 23 de julho de 1952 –, os palestinos organizaram-se de maneira autônoma, levaram adiante ações de guerrilha contra Israel e manifestaram-se contra toda tentativa de instalar definitivamente os refugiados em Gaza. Israel respondeu, já naquela época, com duras represálias durante as quais um jovem oficial então desconhecido se destacava pela brutalidade: Ariel Sharon.

Em 28 de fevereiro de 1955, Sharon dirigiu um ataque contra Gaza que matou 36 militares egípcios, dois civis e oito israelenses. No dia 1o de março, grandes manifestações eclodiram no território para denunciar a passividade egípcia e levaram o novo homem forte do Egito, Nasser, a mudar sua política externa. Até então considerado por muitos cidadãos como próximo aos Estados Unidos, ele decidiu, em plena Guerra Fria, aproximar-se de Moscou. No caminho para a conferência de Bandung, que em abril de 1955 marcaria o nascimento do não alinhamento,3 o chefe de Estado egípcio encontrou o ministro das Relações Internacionais chinês, Chu En-Lai, também a caminho do mesmo encontro, e perguntou-lhe se os soviéticos aceitariam entregar armas a seu país. A resposta tardaria, mas finalmente o acordo para a entrega de materiais tchecoslovacos foi anunciado no dia 30 de setembro. A União Soviética quebrou, assim, o monopólio ocidental da venda de armas ao Oriente Médio e fez uma entrada fracassada no cenário regional.4

No entanto, Nasser também foi induzido a deixar os palestinos de Gaza um pouco mais livres para se organizarem em grupos combatentes. Em 26 de julho de 1956, o líder egípcio nacionalizou a companhia do Canal de Suez, e em seguida veio a agressão tripartite de Israel, França e Reino Unido contra o Egito, que terminou com a conquista do Sinai e da Faixa de Gaza, que ficaria sob controle israelense até março de 1957. A resistência clandestina começou a organizar-se. O balanço humano da ocupação foi particularmente pesado, com diversos massacres de civis cometidos pelo “exército menos moral do mundo”. Assim, em Khan Yunes, dezenas de pessoas alinhadas diante de um muro foram executadas por metralhadoras; outras foram abatidas com revólver. Entre 275 e 515 pessoas foram mortas.5

Quando Israel, sob pressão principalmente dos Estados Unidos, evacuou o Sinai e Gaza, a popularidade de Nasser chegou ao apogeu, assim como o nacionalismo árabe revolucionário. Nos acampamentos, a nova geração palestina no exílio enxergou a resposta à derrota de 1948-1949 e foi militar em organizações como o Movimento dos Nacionalistas Árabes, criado por Georges Habache, no partido Baas e em diversos movimentos nasseristas. Para essa geração, a unidade árabe era a via de libertação da Palestina.

Da experiência em Gaza, uma parte dos jovens tirou a lição oposta. Eles enfrentaram Israel diretamente e concluíram que o apoio árabe, mesmo o de Nasser, não era fundamental – muitos deles, aliás, conheceriam as prisões egípcias. Para esses jovens, a libertação da Palestina se daria apenas pelas mãos dos próprios palestinos. Em 1959, eles se juntaram a Yasser Arafat – refugiado em Gaza desde 1948 – para criar o Fatah, acrônimo invertido de “Movimento Nacional Palestino”. Entre os militantes de Gaza do início da organização que tiveram um papel central nos anos 1970-1980 estavam Salah Khalaf (Abu Iyad); Khalil el-Wazir, conhecido como Abu Jihad, que se tornou o número dois do Fatah e foi assassinado por israelenses em Túnis, em 1988; e Kamal Adwan, assassinado por um comando israelense em Beirute, em 1973.

O jornal da organização, Falistinua (“Nossa Palestina”), publicado em Beirute entre 1959 e 1964, declarava: “Tudo o que pedimos é que vocês [os regimes árabes] contornem a Palestina com um cordão defensivo e observem a batalha entre nós e os sionistas”. Ou ainda: “Tudo o que queremos é que vocês [os regimes árabes] tirem as mãos da Palestina”.6 Era preciso coragem, no apogeu da influência de Nasser, para ousar formular heresias como essas.

Contudo, em meados dos anos 1960, com o fracasso da tentativa de união entre o Egito e a Síria (1958-1961), que revelou a impotência dos países árabes em influenciar o curso das coisas, o vento começou a mudar de direção. A luta de libertação da Argélia, vitoriosa em 1962, serviu de modelo. Em janeiro de 1965, o Fatah lançou suas primeiras ações militares contra Israel e viu afluir militantes de outras organizações que deixavam de esperar uma unidade árabe cada vez mais improvável. A derrota de junho de 1967, na Guerra dos Seis Dias, permitiu ao Fatah tornar-se a força maior da política regional, e Gaza contribuiu amplamente para essa renovação.

O que ocorria com o território nesse período? Estava ocupado por Israel, e internamente se organizava uma resistência militar que reagrupava uma miríade de organizações, com exceção da Irmandade Muçulmana, que se refugiou na ação social. O primeiro ataque contra o Exército de ocupação aconteceu em 11 de junho de 1967, ou seja, no dia seguinte ao cessar-fogo com Israel assinado pelo Egito e países árabes. Com altos e baixos, o ataque continuaria até 1971, quando a brutalidade dos tanques do general Ariel Sharon e as inúmeras execuções extrajudiciárias sob seu comando forçaram o fim do conflito. No entanto, se a resistência militar estava reduzida, as iniciativas políticas multiplicavam-se, em particular os contatos com a Cisjordânia, muito limitados antes de 1967. Desde então, as elites alinharam-se à OLP, reconhecida por eles como “única representante do povo palestino”.

Apenas a Irmandade Muçulmana se recusou a participar e se consolidou por outras vias graças às suas redes sociais e à tolerância das autoridades de ocupação, que enxergaram a organização como um contrapeso ao inimigo principal, a OLP. Fundada em 1973 pelo xeque Ahmed Yassine, a Mujama’ al-Islami(“Centro Islâmico”) foi legalizada pelo ocupante. Essa espera – a ideia de que a hora da resistência ainda não havia chegado –, contudo, suscitou agitação no seio da Irmandade, e uma cisão interna levou à criação, no início dos anos 1980, da Jihad Islâmica.

Em dezembro de 1987, eclodiu a Primeira Intifada em Gaza, a “revolta das pedras”, que trouxe duas consequências importantes. De um lado, a Irmandade transformou sua estratégia ao criar o Movimento da Resistência Islâmica (Hamas), que participou da Intifada, mas recusou a frente única com as outras organizações. De outro lado, a OLP utilizou essa revolta para reforçar sua credibilidade e para negociar os acordos de Oslo, ratificados por Arafat e pelo primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin, no dia 13 de setembro de 1993 em Washington. Foi em Gaza, em 1o de julho de 1994, que Arafat instaurou a Autoridade Palestina.

O que se segue é conhecido: o fracasso desses acordos; o desenvolvimento da colonização; a Segunda Intifada (a partir de setembro de 2000); a vitória do Hamas nas primeiras eleições democráticas na Palestina em 2006; a recusa dos países ocidentais em reconhecer o novo governo e a aliança entre uma facção do Fatah e os Estados Unidos para derrubá-lo; a tomada do poder em Gaza pelo Hamas em 2007; o bloqueio imposto desde essa data ao 1,5 milhão de habitantes da região.

Mesmo tendo sido evacuada pelo Exército israelense em 2005 – sem qualquer coordenação com a Autoridade Palestina –, a Faixa de Gaza permanece ocupada. Todos os seus acessos terrestres, marítimos e aéreos são controlados por Israel, que interdita aos palestinos áreas importantes do território (30% das terras agrícolas), assim como o mar a partir das 6 milhas náuticas (reduzidas a 3 milhas a partir do início da operação de julho). Os israelenses continuam a gerir o Estado civil. O bloqueio imposto desde 2007 estrangula a população, apesar da condenação unânime da “comunidade internacional”, até dos Estados Unidos.

Desde sua retirada em 2005, Israel empreendeu três operações de grande envergadura contra o território: em dezembro de 2008 e janeiro de 2009; novembro de 2012; e agora, em julho de 2014. Enquanto o bloqueio não for retirado e os palestinos não dispuserem de seu Estado independente, o cessar-fogo será apenas uma trégua. O general De Gaulle previu em uma célebre coletiva de imprensa de 27 de novembro de 1967, em relação aos desdobramentos da guerra árabe-israelense: “A ocupação não pode se dar sem opressão, repressão, expulsão”; ela engendra “a resistência [que Israel] qualifica como terrorismo”.

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).



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