Guerras e persistências históricas no Oriente Médio contemporâneo
A algoritmização da morte encontrou no Irã um limite político: a capacidade de Teerã de retaliar retirou da superioridade tecnológica israelense o privilégio da unilateralidade
Em outubro de 1979, poucos meses depois da Revolução Iraniana, um estudo preparado pela Analytical Assessments Corporation sob contrato com o governo dos Estados Unidos procurou reconstruir a crise que destruiu um dos pilares da presença norte-americana no Oriente Médio. O aparato de inteligência dos Estados Unidos foi severamente criticado por não ter antecipado adequadamente os acontecimentos antes mesmo da partida de Mohammad Reza Pahlavi. Contudo, o problema não residia na carência de informações, mas na dificuldade de reconhecer o significado dos acontecimentos à medida que se desenrolavam.
A cronologia torna o contraste eloquente: em 12 de dezembro de 1978, Jimmy Carter reiterou publicamente apoio e confiança no Xá; em 16 de janeiro de 1979, Pahlavi deixava o país. Quase meio século depois, a questão retorna: Estados Unidos e Israel voltam a conhecer muito sobre as capacidades materiais iranianas e pouco sobre a natureza de seu poder?
Osvaldo Coggiola restitui à Revolução de 1979 uma historicidade que remonta à questão petrolífera, ao nacionalismo de Mohammad Mossadegh, à intervenção de 1953, à modernização autoritária dos Pahlavi e às contradições sociais que acompanharam a transformação do país. O Estado imperial possuía petróleo, forças armadas poderosas, polícia política (Savak) e proteção de Washington; tamanho aparato coexistia com a erosão da autoridade política. A ruptura de 1979 tampouco eliminou questões persistentes da história iraniana: soberania, autonomia diante das grandes potências e reivindicação de um lugar próprio na ordem regional sobreviveram à monarquia, ainda que profundamente ressignificadas pela República Islâmica. Edward Said permite compreender uma dimensão mais profunda desse paradoxo. O orientalismo articula representação, conhecimento e poder, tornando o Oriente inteligível por categorias constituídas também na experiência histórica daqueles que o observam e dominam. Aplicada ao Irã, a crítica saidiana suscita uma questão perturbadora: até que ponto determinadas concepções de racionalidade, modernidade e força tornaram invisíveis formas de agência que escapavam às categorias pelas quais o poder ocidental reconhecia a si próprio? O problema talvez resida precisamente na distância entre conhecer o Irã como objeto estratégico e reconhecê-lo como sujeito histórico.
A Guerra dos Doze Dias, em junho de 2025, deveria ter abalado essa gramática. Israel demonstrou extraordinária capacidade de inteligência, infiltração e ataque, alcançando instalações estratégicas e integrantes centrais dos aparatos militar e científico iranianos. A lógica da guerra permanente encontrava, contudo, uma configuração distinta daquela constituída em Gaza. No território palestino, a integração entre vigilância massiva, inteligência artificial e produção acelerada de alvos, por meio de sistemas como Habsora, Lavender e Where’s Daddy?, aprofundou aquilo que denominei algoritmização da morte: a conversão da decisão letal em gestão estatística de populações submetidas a uma colonialidade algorítmica, na qual dados e inferências probabilísticas participam da produção tecnológica de vidas classificadas como elimináveis.
Contra o Irã, inteligência, tecnologia e poder aéreo encontraram a Guarda Revolucionária, as forças armadas regulares, a capacidade missilística e meios de retaliação. A algoritmização da morte encontrava, assim, uma nova condição política: o sujeito convertido em alvo conservava meios para retaliar. A tecnologia israelense preservou enorme capacidade destrutiva, mas perdeu o privilégio da unilateralidade. Teerã podia devolver a guerra e fazê-la chegar a Tel Aviv, Ben Gurion e Jerusalém.

A guerra de 2026, tornou essa capacidade materialmente incontornável. A força missilística iraniana atingiu instalações norte-americanas espalhadas pelo Golfo e demonstrou alcance suficiente para transformar bases, radares, hangares, tropas e infraestrutura logística em superfícies de vulnerabilidade. Desde os primeiros dias do conflito, Teerã manteve ataques contra países que abrigam forças dos Estados Unidos; meses depois, mísseis iranianos continuavam sendo empregados contra instalações norte-americanas no Kuwait, Bahrein e Jordânia. Em abril, a própria Força Aérea dos Estados Unidos confirmou que um F-15E fora abatido durante missão de combate sobre território iraniano, com posterior resgate de seus dois tripulantes. A relevância estratégica ultrapassa a contabilidade de perdas. A missilística iraniana demonstrou capacidade de atingir materialmente a infraestrutura sobre a qual repousa a presença militar adversária na região: a geografia construída durante décadas para projetar poder sobre o Irã converteu-se na geografia da vulnerabilidade norte-americana.
A sobrevivência iraniana possui uma história própria. Desde a guerra Irã-Iraque, a República Islâmica desenvolveu instituições, doutrinas militares e uma cultura política atravessadas pela experiência de enfrentar adversários poderosos. A reflexão de Gopal Balakrishnan sobre a guerra como elemento de coesão nacional oferece uma chave particularmente fecunda quando aplicada à experiência iraniana: a agressão externa pode reorganizar antagonismos internos e produzir solidariedades em torno da defesa da soberania. A guerra concebida para fragilizar o regime pode oferecer também mecanismos para sua reprodução política. A capacidade de sobreviver deixa, assim, de representar mera resistência passiva e transforma-se em componente do próprio poder.
A profundidade regional construída por Teerã amplia esse poder. Hezbollah, Houthis e organizações armadas iraquianas possuem histórias, interesses e bases sociais próprias, enquanto décadas de relações com a República Islâmica criaram uma arquitetura capaz de deslocar a confrontação para diferentes teatros. O Líbano tornou-se particularmente revelador: quando Israel ampliou seus ataques ao território libanês em abril, Teerã ameaçou retaliar e vinculou a escalada à continuidade das negociações com Washington. A segurança do Hezbollah passou, assim, a integrar o cálculo político de uma confrontação muito mais ampla. A capacidade de barganha iraniana adquire aqui uma dimensão qualitativamente nova: a liberdade de ação israelense passa a encontrar limites produzidos também pela possibilidade de respostas iranianas e pela necessidade norte-americana de administrar uma guerra regional. Hormuz acrescenta uma geografia política a esse dispositivo. Mísseis, alianças e corredores estratégicos convergem numa mesma capacidade: impedir que uma guerra contra o Irã permaneça confinada ao Irã. Mesmo após meses de ataques norte-americanos, Teerã continuava ameaçando passar a uma postura plenamente ofensiva caso as negociações fracassassem e mantendo sua capacidade de atingir bases dos Estados Unidos na região.
A recorrência histórica torna-se difícil de ignorar. Em 1979, os atributos visíveis do poder esconderam a fragilidade política do Xá. Em 2025, a eficácia da inteligência e da ofensiva israelense alimentou interpretações que confundiam penetração militar com derrota estratégica. Em 2026, a capacidade missilística, a sobrevivência estatal e a profundidade regional iranianas voltaram a desafiar prognósticos construídos predominantemente a partir das capacidades de seus adversários. Os episódios pertencem a conjunturas distintas, mas revelam uma dificuldade persistente de reconhecer formas de poder que escapam aos critérios utilizados para medi-lo.
A convergência dessas lentes analíticas é reveladora. Se a historicidade da revolução explica a crise do Xá, a relação entre guerra e coesão, aplicada à experiência iraniana, ajuda a compreender a capacidade de sobrevivência da República Islâmica. A crítica ao orientalismo, por sua vez, explicita por que certas formas de poder só adquirem inteligibilidade plena após produzirem seus efeitos. O contraste histórico é eloquente: o Xá parecia sólido e ruiu; a República Islâmica foi descrita como vulnerável e sobreviveu. Enquanto Israel demonstrou capacidade de infiltrar-se no território iraniano, Teerã provou ser capaz de projetar a guerra nos espaços de poder de seus adversários. A algoritmização da morte encontrou no Irã os limites políticos impostos por um sujeito capaz de devolver a violência; a superioridade tecnológica perdeu, assim, o privilégio da unilateralidade. Quase meio século depois do erro de cálculo registrado pela documentação norte-americana de 1979, permanece uma pergunta desconfortável: quantas vezes será preciso subestimar o Irã antes de reconhecer que o problema talvez resida também nas categorias utilizadas para medir seu poder?
Juan Magalhães é doutor em História pela UFRJ e atualmente leciona História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense (UFF). Dedica-se à História Política Contemporânea, às Relações Internacionais e aos estudos sobre o Oriente Médio.
Referências
BALAKRISHNAN, Gopal (org.). Um mapa da questão nacional. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000. COGGIOLA, Osvaldo. A Revolução Iraniana. São Paulo: Xamã, 2007.
COHEN, Nicki J.; JONES, M. Page; TERRILL, W. Andrew. Chronology of the Iranian Crisis: 1 January 1978–15 February 1979. Marina del Rey: Analytical Assessments Corporation, 1979. Documento desclassificado, CIA-RDP83M00171R001500200002-8.
FRANÇA, Isadora Gonçalves; MAGALHÃES, Juan. O colonialismo, dicotomia e subalternização: a escalada dos conflitos no Oriente Médio contemporâneo e a construção política do palestino como outro no campo internacional. Revista Estudos Libertários, v. 7, n. 1, p. 1–23, 2025. DOI: 10.59488/re2.
MAGALHÃES, Juan Filipe Loureiro. A algoritmização da morte: a militarização da inteligência artificial e a colonialidade algorítmica. Revista Estudos Libertários, v. 7, n. 2, 2025. DOI: 10.59488/1246.
MORAES, Wallace de; MAGALHÃES, Juan Filipe Loureiro. A política externa de Israel e o paradigma da guerra permanente. Le Monde Diplomatique Brasil, 22 ago. 2025. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-politica-externa-de-israel-e-o-paradigma-da-guerra-permanente/.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

