ABORDAGEM PASTORAL

Há riscos para o legado de Francisco?

Agora, com o trono de Pedro vago (sede vacante), a grande dúvida que se coloca para católicos e analistas do vaticano é a seguinte: o legado de Francisco corre o risco de ser abandonado ou poderá haver continuidade? 

No último dia 21 de abril de 2025, com a morte do Papa Francisco, encerrou-se um dos pontificados mais impactantes e polarizados da história recente da Igreja Católica. Diferente de seu antecessor, Bento XVI, cujo papado foi marcado na ênfase em questões doutrinárias, na temática da ordem e na disciplina interna, a liderança de Francisco ficou caracterizada por uma abordagem pastoral, inclusivista e voltada para as áreas mais periféricas do planeta. Esta característica do papado de Francisco provocou reações distintas e intensas, tanto de apoio quanto de oposição ao seu estilo menos cerimonioso e ritualístico. Agora, com o trono de Pedro vago (sede vacante), a grande dúvida que se coloca para católicos e analistas do vaticano é a seguinte: o legado de Francisco corre o risco de ser abandonado ou poderá haver continuidade? 

Desde sua eleição em 2013, Jorge Mario Bergoglio, o primeiro papa latino-americano e jesuíta, buscou reformar a Igreja Católica para torná-la mais próxima dos marginalizados, menos eurocêntrica e menos centrada em si mesma. Francisco sempre procurou enfatizar a necessidade de uma “Igreja misericordiosa e em saída”, ou seja, que vá ao encontro das pessoas, especialmente dos mais pobres e excluídos. O papa argentino também buscou promover uma maior participação das mulheres na estrutura da Igreja e nomeou cardeais de diferentes regiões periféricas, buscando assim, uma representação mais global e diversa no Colégio dos Cardeais.   

Sua atuação pastoral foi atestada pelos principais teólogos da América Latina.  Leonardo Boff afirmou que: “Francisco foi um papa que veio do fim do mundo e trouxe a primavera e o mundo dos pobres para o centro da Igreja”; nas palavras de Frei Betto, o Sumo Pontífice foi: “o primeiro papa com cheiro de Evangelho desde João XXIII”; também para o peruano Gustavo Gutierrez (considerado por muitos o “pai” da Teologia da Libertação): “O Papa Francisco foi um dom para a Igreja”.  Todavia, ainda que não tenha afirmado explicitamente sua filiação à Teologia da Libertação, seu governo à frente da Igreja teve a influência inequívoca dessa teologia. 

Suas reformas incluíram a reestruturação da Cúria Romana, a descentralização do poder e, ainda que timidamente para alguns, incluiu também uma abordagem mais pastoral em questões como a homossexualidade e o divórcio. Essas iniciativas do Papa Francisco, embora celebradas e aplaudidas por muitos, também geraram forte resistência e críticas ferozes de grupos da própria Igreja, que nunca se conformaram com a abertura e a leveza pastoral proposta pelo papa. 

Resistências internas  

A abordagem de Francisco encontrou, desde o início de seu pontificado, forte oposição de setores conservadores da Igreja, que viam suas reformas como uma ameaça à tradição secular e à ortodoxia. Inúmeros grupos tradicionalistas e conservadores se popularizaram nos últimos anos – impulsionados pelas redes sociais – com pesadas críticas ao papado de Francisco, inclusive questionando sua própria legitimidade à frente da Igreja, quase sempre o comparando a seus antecessores Bento XVI e João Paulo II.   

Obviamente, não restrita apenas ao Brasil, as críticas ao papa vieram de diferentes partes do mundo: dos EUA partiram intensas críticas de bispos e políticos do catolicismo conservador naquele país que, muitas vezes, tem se associado à proeminentes lideranças políticas da direita cristã americana. Por exemplo, figuras como o cardeal Raymond Burke tornaram-se críticos recorrentes do Papa Francisco, acusando-o de semear confusão doutrinária e de enfraquecer a autoridade da Igreja.   

Também na Europa, especialmente em países como Itália, Alemanha, França e Polônia, setores conservadores da Igreja não deixaram de expressar oposição às reformas de Francisco1: a título de exemplo, o debate sobre a possibilidade de reintegração de divorciados recasados, gerou controvérsias entre membros do clero e até mesmo entre os fiéis.2 Além disso, a decisão do Papa em restringir a celebração da missa em latim, incentivada pelo seu antecessor Bento XVI, também foi muito criticada por grupos conservadores e tradicionalistas.3 

Na África, uma das vozes mais críticas foi a do cardeal Robert Sarah, da República da Guiné e ex-prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos.  Este cardeal tem sido uma das vozes mais proeminentes do conservadorismo africano, cujos discursos sempre apontam para uma Igreja centrada na doutrina, na liturgia tradicional e na disciplina. O cardeal Sarah criticou abertamente as reformas de Francisco, especialmente em relação à liturgia e à moral sexual, sobretudo, quando Francisco se manifestou em relação à possibilidade de bênçãos para casais do mesmo sexo.4 

Na Ásia também houve críticas a algumas decisões do Papa Francisco. Naquela região, nos últimos anos, a Igreja procurou adotar uma posição intermediária no conflito entre China e Taiwan, recebendo, contudo, críticas de ambos os lados.  A despeito disso, a Igreja conseguiu assinar um acordo provisório, em 2018, entre o Vaticano e a China, que provocou reações contrárias de católicos conservadores naquele país. Segundo os críticos, o fato de o acordo permitir que o governo chinês tivesse alguma influência na nomeação de bispos na região, foi interpretado como uma concessão indevida ao Partido Comunista Chinês, segundo a opinião do cardeal Joseph Zen, de Hong Kong.  Para este prelado, tal acordo poderia significar um risco de “aniquilação” da verdadeira Igreja na China.​ 

Como se percebe, a unanimidade no pontificado de Francisco esteve longe de ser alcançada. Ademais, a tensão entre progressistas e conservadores não se limitou ao debate teológico, mas também se manifestou em estratégias políticas e midiáticas. De fato, movimentos tradicionalistas em diversos países criticaram o Papa por seu estilo pastoral e por suas posições sobre temas sociais e morais que, segundo esses grupos, sinalizavam um afastamento da doutrina tradicional da Igreja, o que, como resultado, levou-os a fomentar o discurso contra a legitimidade do Sumo Pontífice. 

O Conclave e os papáveis 

Com a morte do Papa, o Colégio Cardinalício, composto por 135 cardeais eleitores (muitos dos quais nomeados pelo próprio Francisco), já se prepara para o conclave que elegerá o novo papa. Alguns jornais e sites, como fazem a cada conclave, apresentam os nomes de cardeais “papáveis”, ou seja, aqueles que observadores do Vaticano acreditam ter chances de assumir o trono de Pedro.5 Todavia, tais listas são apenas exercício de especulação, pois não há consenso nem mesmo entre os mais experientes vaticanistas. O que se divulga, na verdade, é uma constelação de nomes conhecidos em suas áreas de atuação, com uma relativa rede de conhecimentos e de contatos e que, em função disso, são apontados como nomes plausíveis que, na verdade, refletem as linhas diferentes que existem na Igreja expressando, no fundo, profundas as tensões intraeclesiásticas.  

Cardeais Cotados ao Papado – Lista Consolidada 

Nome  Idade  País de Origem 
Matteo Zuppi  69 anos  Itália 
Pietro Parolin  70 anos  Itália 
Luis Antonio Tagle  67 anos  Filipinas 
Peter Erdö  72 anos  Hungria 
Robert Sarah  79 anos  Guiné 
Jean-Claude Hollerich  65 anos  Luxemburgo 
Christoph Schönborn  79 anos  Áustria 
Blase Cupich  75 anos  Estados Unidos 
Wilton Gregory  76 anos  Estados Unidos 
Marc Ouellet  79 anos  Canadá 
Fridolin Ambongo  64 anos  Rep. Dem. do Congo 
Óscar Rodríguez Maradiaga  81 anos  Honduras 

 

Ao observar a diversidade de candidatos papábiles, divulgada por alguns sites e jornais, podemos inferir a divisão interna da Igreja e a complexidade do momento atual dessa instituição cujas ações têm alcance mundial. Dentre os citados acima, três deles já foram apontados como favoritos no último Conclave de 2013 que elegeu o Cardeal Bergolio: Marc Ouellet (Canadá), Christoph Schönborn (Áustria) e Óscar Rodriguez Maradiaga (Honduras).  Embora muitos cardeais tenham sido nomeados por Francisco, 108 dos 135 cardeais eleitores, não há nenhuma garantia de que seu sucessor seguirá seus passos e sua linha pastoral.   

A análise de alguns vaticanistas (Gerard O’Connell da América magazine e John L. Allen Jr. da Crux Now, respectivamente) sugere que o número de cardeais próximos à Francisco (Zuppi, Tagle, Hollerich, Cupich, Ambongo) é maior do que aqueles considerados moderados (Parolin, Schönborn) e maior do que o número dos conservadores e contrários de Francisco (Sarah, Erdő e Ouellet), no entanto isto não significa muita coisa pois, às vezes, os eleitores do conclave surpreendem: na eleição do Cardeal Wojtyła (João Paulo II) em 1978 e do Cardeal Bergoglio (Francisco) em 2013, estes eram considerados “outsiders” e se tornaram papas por consenso de última hora. O fato é que forças contrárias estarão em disputa pelo trono de Pedro pois, para alguns, o legado de Francisco é um caminho sem volta, para outros, a instituição deve retomar à tradição católica de sempre. 

Crédito: Ighenderson2/Pixabay

A Influência da Política Global 

A eleição do próximo papa ocorre em um contexto global que tem sido marcado pelo recuo da democracia e o avanço de movimentos populistas e autoritários.6 A onda conservadora que se espalhou por diversos países nos últimos anos influenciou não apenas as instituições políticas seculares, mas também as instituições religiosas. A Igreja Católica, como instituição global, não passou ilesa por esse processo. 

A ascensão de lideranças políticas populistas e autoritárias que se auto promovem a partir de valores religiosos conservadores e nacionalistas teve reflexos dentro da Igreja, pois fortaleceram e vocalizaram discursos contrários aos ideais e às propostas do Papa Francisco ao incentivarem uma visão mais tradicionalista do catolicismo. Tais líderes e movimentos políticos encontraram dentro da Igreja aliados importantes na sua busca por legitimação simbólico-religiosa, afinal, para estes sempre será importante ter a Igreja como aliada em seu projeto político. Esse cenário extra eclesial aumenta a pressão sobre o conclave e pode influenciar a escolha de um papa mais alinhado com essas tendências.  Afinal, após dois papados considerados conservadores, como foram os governos de João Paulo II e de Bento XVI, o pontificado de Francisco foi um ponto fora da curva. 

O Futuro da Igreja Católica 

O futuro da Igreja Católica no século XXI será o reflexo da eleição do novo papa, o que também será decisiva para os próximos anos, pois a escolha entre continuar o legado de Francisco ou retornar a uma abordagem pastoral mais conservadora resultará implicações profundas para a missão, a estrutura, o papel e a relevância da Igreja no mundo contemporâneo.   

Se os cardeais eleitores no conclave optarem por escolher um sucessor à imagem de Francisco e que dê continuidade às suas reformas, a Igreja poderá consolidar uma identidade mais inclusiva, mais dialogal e mais comprometida com as questões sociais e com as dores dos mais excluídos. Por outro lado, a eleição de um papa conservador (tal qual foram seus dois antecessores) pode sinalizar um retorno a uma Igreja mais centrada na doutrina, na disciplina e na tradição, com menor abertura para mudanças e adaptações inevitáveis ao mundo moderno.   

Independentemente do resultado, há uma fratura interna na Igreja Católica7 que demandará esforços para manter sua unidade e relevância em um mundo cada vez mais plural e complexo. Será fundamental estabelecer um equilíbrio entre a tradição e a inovação, entre a doutrina e a pastoral e, consequentemente, será fundamental para que a Igreja continue a ser uma voz significativa na sociedade global denunciando aquilo que Francisco chamou de “globalização da indiferença”. 

Enfim, a morte do Papa Francisco marca o fim de um curto período e o início de um outro marcado por incertezas e expectativas. O legado do papa argentino, com sua ênfase na misericórdia, na inclusão e na justiça social, está agora nas mãos dos prelados que escolherão seu sucessor, o próximo a ocupar o trono de Pedro e o governo da Igreja Católica. A decisão que os cardeais tomarem definirá não apenas o rumo da Igreja, mas também seu papel e a sua relevância no mundo contemporâneo.   

 

Paulo César Batista é doutor em Sociologia pela UFRJ e mestre em Ciências Sociais pela UERJ. Email: [email protected] 

1 Cf. Muere el papa Francisco, un vendaval social y reformador en la Iglesia (Morre o Papa Francisco, um vendaval social e reformador na Igreja) https://elpais.com/internacional/2025-04-21/muere-el-papa-francisco-un-vendaval-social-y-reformador-en-la-iglesia.html

2 Cf. Exortação apostólica Amoris Laetitia (2016).

3 Cf. Carta apostólica Traditionis custodes (2021).

4 Cf. Quién es Robert Sarah, el polémico cardenal africano que está en la carrera para suceder al papa Francisco (Quem é Robert Sarah, o polêmico cardeal africano que está na disputa para suceder o papa Francisco) https://as.com/actualidad/sociedad/quien-es-robert-sarah-el-polemico-cardenal-africano-que-esta-en-la-carrera-para-suceder-al-papa-francisco-n

5 Cf. Who will be the next pope? Some potential candidates to succeed Francis (Quem será o próximo papa? Alguns candidatos potenciais para suceder Francisco) https://www.theguardian.com/world/2025/apr/21/who-next-pope-francis-potential-candidates-succeed; Cf. Conheça quem são os cotados para ser o próximo Papa. https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/conheca-quem-sao-os-cotados-para-ser-o-proximo-papa/

6 Confira relatório sobre o recuo da democracia no mundo contemporâneo disponível em https://freedomhouse.org/report/freedom-world/2017/populists-and-autocrats-dual-threat-global-democracy e confira também em https://www.v-dem.net/

7 Cf. TEIXEIRA, Faustino. A ruptura interna no tecido católico brasileiro. Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 15 abr. 2024. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/624521-a-ruptura-interna-no-tecido-catolico-brasileiro. Acesso em: 21 abr. 2025.

Leia mais sobre o tema: