Imagens de um futuro em ruínas: entrevista com a poeta Alexia Carpilovsky
A obra JARDIM DE RUÍNAS é o primeiro livro da poeta carioca. Nela, são abordados temas como Inteligência Artificial e fim de mundo, em um diálogo referencial com outras artes
A relação entre poema e as outras artes é uma constante no trabalho de uma série de poetas. Para citar alguns exemplos contemporâneos, nomes como Marília Garcia, Leila Danzinger e Aline Motta estão entre as que trabalham essa espécie de escrita expandida. No rastro dessas referências, mas trazendo elementos e imagens singulares, está o trabalho da poeta carioca Alexia Carpilovsky.
A autora lançou em junho deste ano o seu primeiro livro, JARDIM DE RUÍNAS, publicado pela editora 7 Letras. A publicação se equilibra entre imagens de ruína, futuro, corporalidade e mecanização. Combina assuntos como Inteligência Artificial, nascimento, maternidade e a existência de deus. E, sob o mote da composição e da decomposição, cria uma espécie de sítio arqueológico de ruínas.
Alexia Carpilovsky compartilha algumas de suas principais referências, fala sobre sua relação com as artes visuais e comenta o que se pode criar ou pensar a partir de um poema: “misturas estranhas que façam algo novo nascer. E pensar, também, o que é possível cultivar entre os destroços. Seguindo os versos da Luiza Leite usados de epígrafe, ‘Trabalhar com / as lascas / os cacos / as sobras / os refugos / os resquícios’.”

Confira a entrevista na íntegra:
Alexia, por que precisamos de poetas e artistas?
Poetas e artistas afirmam um outro tempo, regido por outras regras, e praticam o hábito da atenção ao reparar e se debruçar, também, sobre o que é considerado sem valor. Além disso, criam fissuras, mostram a fragilidade (positiva) das coisas, das estruturas. Mila Teixeira tem um poema sobre como “poetas são pobres” – é triste pensar na desvalorização desse fazer, mas há uma grande força em continuar sentindo e seguindo “o rastro dos deuses que se foram”, como escreveu Godard, mesmo sabendo que não haverá grandes reconhecimentos ou retornos financeiros. Precisamos desses outros tempos abertos, de fazeres que ainda não são regidos por praticidade ou velocidade, e sim pela sensibilidade e pela delicadeza, que são modos de persistir.
Sei que Marília Garcia é uma forte influência para você. No último livro dela, Pensar com as mãos, um dos capítulos se chama “Inventário das destruições (arte poética)”. Ali, ela relata histórias de poetas que perderam textos prontos ou os deixaram por fazer. Assim, de certa forma, acaba trazendo textos desaparecidos de volta à vida. Me lembrou o título do seu livro, JARDIM DE RUÍNAS. O que você quis trazer de volta à vida com seus poemas?
Nos poemas do livro, acredito que há um movimento de vida e morte muito entrelaçado, assim como tempos sobrepostos, criando um presente de certo modo ilocalizável. A Julia Klien aborda isso lindamente no texto da orelha, destacando como: “Jardim mal evoca o florescimento, e logo o expulsam as destroçadas ruínas” — início e fim em ciclo, como o ouroboros e a fita de Möbius, mencionados no primeiro poema. Talvez mais do que trazer de volta à vida, eu queira, com os poemas, criar misturas estranhas que façam algo novo nascer. E pensar, também, o que é possível cultivar entre os destroços. Seguindo os versos da Luiza Leite usados de epígrafe, “Trabalhar com / as lascas / os cacos / as sobras / os refugos / os resquícios”.
Esse é seu primeiro livro. Se precisasse escolher um dos seus poemas como cartão de visita, para mostrar para quem não te conhece ainda, qual poema você escolheria?
O último do livro, “profecia”. Ali tem uma derrota esperançosa, um tom que gosto bastante de ter encontrado. E naqueles versos estão reunidos alguns elementos que se repetem na minha poesia, como a mistura de tempos, a fauna estranha, e uma ambientação nas ruínas. É uma carta de amor que parte de um fim, que também é um começo. Pode ser a destruição de uma civilização, ou apenas de uma relação, ou das duas coisas juntas, buscando caminhos para renascer.
Eis o poema:
profecia
meu amor,
arqueólogos vão dissecar
nossos tímidos ossos
antropólogos
vão estudar cuidadosamente
nossos modos antiquados
assistir a registros dos gestos
separar a esquina de um e dizer
com tom definitivo
que é evidente
este os levou à extinção
mas ainda será ouvida a reza
baixinha
cultivada em nossa ruína
qualquer bruxaria esperançosa
que vê no lodo
entre insetos & pragas
o sinal
de nossa recomposição
Primeiras vezes são marcantes. Lembra do primeiro poema que leu na vida, e que te emocionou?
Gostaria muito de lembrar do primeiro que me impactou, mas no momento o que me veio foi um poema que era o meu favorito aos 14 anos: “Não entre docemente naquela boa noite”, do Dylan Thomas. Na época, enxergava os versos quase como uma oração, um lembrete de me manter atenta e entusiasmada com a vida.
Qual é o seu top 3 de livros de cabeceira — aqueles aos quais você sempre retorna ou que te constituem de alguma maneira?
Primeiro, um dos livros que me constitui: Memórias póstumas de Brás Cubas, que li adolescente. Vivia uma fase muito focada em literatura estrangeira, mas quando conheci Machado de Assis percebi o quanto estava perdendo. Fiquei completamente encantada com o que ele era capaz de fazer com as palavras, e isso me fez pensar nas maravilhas que eram criadas na minha própria língua. Lembro de ler de boca aberta.
Plutônio-239, da Valeska Torres, é uma grande referência para mim pela forma incrível e cinematográfica de criar atmosferas e temporalidades, e por estabelecer uma distopia em poemas, um processo que muito me interessa. Parece um filme de ficção científica brasileira, filmado, produzido, atuado e roteirizado por uma poeta, que faz, ainda, todos os figurinos e a cenografia.
Casamata, da Raïssa de Góes, te joga em um ambiente que você tenta decifrar, enquanto é conduzido por uma narradora-criatura, algo entre mulher e cão. Há uma delicadeza estranha, e me fascina a forma de narrar e de ambientar marcada pelo corpo, pela gengiva, pelo sangue, pela berne. “Minha carcaça será corpo mais uma vez e não seremos extintos”. E a escrita no livro ainda é costurada às gravuras da autora – que também é artista visual –, estabelecendo um diálogo entre artes visuais e escrita que é um dos meus grandes interesses.
Você tem uma forte ligação com as artes visuais, inclusive trabalha em uma das maiores premiações de arte contemporânea do país, o Prêmio PIPA. Como as artes visuais entram no seu trabalho com a poesia? Acha que algo do seu processo de escrita remete ao processo de artistas visuais?

As artes visuais sempre foram uma paixão para mim e, na vida adulta, se tornaram também minha rotina, no sentido de que lido com essa linguagem quase todos os dias por conta do meu trabalho no PIPA. Assim, minhas referências, formas de leitura e interesses estão costurados a essa língua, o que resultou em diversos poemas a partir de obras de arte ou atravessados por artistas.
Para além da arte como disparador ou assunto em minha escrita, gosto de pensá-la também como forma. Ao observar uma pintura ou uma escultura, por exemplo, há uma espécie de eletricidade naquela presença, é um corpo existindo no mesmo espaço que meu corpo, com seu peso próprio: busco replicar essa sensação no texto, uma presença das palavras, como se fosse possível sentir sua materialidade. Escrever como quem esculpe, ou como quem faz uma instalação artística, criando outro ambiente dentro de um ambiente que já existe.
Fayga Ostrower, artista plástica e pensadora de processos criativos, escreveu que
criar não é descarregar uma tensão, mas poder renová-la: “Mais fundamental e gratificante, sobretudo para o indivíduo que está criando, é o sentimento concomitante de reestruturação, de enriquecimento da própria produtividade, de maior amplitude do ser, que se libera no ato de criar. Menos a potência descarregada, do que a potência renovada.” Você cria para descarregar ou para renovar a tensão?
Acredito que para renovar. No momento da escrita, parece que criar um poema é uma forma de descarregar essa energia que surge, essa coceira que demoramos a alcançar e que precisa ser sanada. Mas concordo com a citação: essa energia não é simplesmente empregada, e sim reinvestida, porque criar é sempre uma forma de nos reafirmarmos e de reafirmar, também, algum compromisso com a vida. A cada poema que concluo com certa satisfação ou orgulho, há a pequena morte daquele desejo – que se concretizou, então foi amenizado – ao mesmo tempo em que a possibilidade de conclusão é o que impulsiona as próximas buscas.
Fale dos seus planos para o futuro na literatura agora: já pensa em novas publicações ou ainda é cedo pra recomeçar um projeto de livro?
Sinto que preciso primeiro acompanhar os passos desse livro, ver essa criatura andando um pouco, segurar os braços. Dar atenção para os seus caminhos, antes de me voltar a outro ser. Mas estou aprendendo muito com todo o processo dessa publicação, e me anima pensar em aplicar isso em um novo projeto em breve, falhando melhor.
Ana Luiza Rigueto é jornalista, poeta e crítica de literatura.

