Impostos e cidadania - Le Monde Diplomatique

POLÍTICA TRIBUTÁRIA

Impostos e cidadania

por Carlos André|Ítalo Aragão
1 de outubro de 2010
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A política tributária brasileira tem sido historicamente perversa com os cidadãos de baixa renda que, em última análise, são expropriados às escuras, no maior programa de transferência de recursos para financiar a luxúria dos juros altos pagos aos rentistasCarlos André|Ítalo Aragão

Na sociedade republicana e democrática, é o povo que determina, por meio da Carta Constitucional, quais os fundamentos e objetivos do Estado. Esta afirmativa, num país como o Brasil, de tradição política autoritária, pode soar abstrata, como se tivesse sido extraída de um curso de teoria do Direito. Mas, desde a promulgação da atual Constituição, em 1988, pouco a pouco percebemos que o espírito republicano e democrático se vem inserindo de forma concreta nas relações sociais, políticas e econômicas.  

  

Um dos aspectos mais sensíveis da relação entre o povo e o Estado dá-se no campo tributário. É o povo que financia o Estado ao pagar os tributos que suprem os cofres da União, estados, municípios e Distrito Federal. Neste sentido, pagar tributos é um ato de cidadania que transforma cada um, do povo, em patrocinador das políticas públicas do Estado. 

  

No Brasil, a função primordial do Estado é cumprir as determinações do artigo 3o da Constituição. O Estado tem como objetivos fundamentais a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, o desenvolvimento com erradicação da pobreza e da marginalização, a redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos, sem preconceitos. Somente a busca destes objetivos dá ao Estado a legitimidade necessária para arrecadar tributos do povo. Contudo, grande parte dos brasileiros, especialmente a classe trabalhadora de menor renda, não tem consciência de quem efetivamente suporta a carga tributária e, menos ainda, da destinação desses recursos públicos.  

  

O peso dos tributos é distribuído de forma desigual pela sociedade. Em recente estudo, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – Ipea1 demonstrou que a carga tributária suportada pelo décimo mais pobre da população chega a 32,8% da sua renda. No outro extremo, o décimo mais rico tem um ônus equivalente a 22,7%. A carga tributária da população mais pobre é proporcionalmente mais alta que a da população mais rica, em relação à renda.  

  

Em outras palavras, o segmento mais pobre da população é o que sofre o maior peso do financiamento do Estado. Desta forma, a tributação no Brasil tem como efeito o aumento da concentração de renda, pois tira mais de quem tem menos. A este fenômeno dá-se o nome de regressividade. 

 

A tributação regressiva resulta da opção de sucessivos governos de aumentar a arrecadação pela via mais prática, que é o incremento da tributação indireta sobre o consumo.  

  

Tributação invisível 

Dois são os principais efeitos da tributação sobre o consumo. Primeiro, eleva fortemente os custos de produção e comercialização de bens e serviços, que são repassados nos preços pagos pela população. Segundo, a população que arca com a carga tributária embutida no preço de mercadorias e serviços não consegue percebê-la claramente, uma vez que a tributação indireta é invisível.  

  

Pode-se ter uma medida clara no estudo do Ipea, citado acima, que demonstra que, da carga tributária de 32,8%, suportada pelo décimo mais pobre, 29,1% é indireta. A desigualdade na distribuição da carga tributária carece de legitimidade constitucional e deveria ser o ponto central de qualquer debate sério acerca da reforma tributária. Mas, lamentavelmente, o foco do debate tem sido desvirtuado. Como a bandeira política da reforma tributária foi assumida pela elite econômica, centrou-se a discussão na simples redução da carga, com vistas à redução do Estado e do Alcance das políticas públicas. 

No discurso elitista, a desigualdade é mascarada com manobras como o famoso “impostômetro” que, presumidamente, diz quantos dias, em média, o brasileiro trabalha por ano para pagar tributos. Ao basear sua informação na média, o “impostômetro” passa a ideia de que a carga tributária seria suportada igualmente pelas pessoas, o que não é verdade, como bem demonstra o estudo do Ipea. 

Outro mito criado para contornar o debate sobre a regressividade na distribuição da carga tributária é que o governo, ao aplicar os recursos arrecadados, atingiria o objetivo de promover o crescimento econômico com redução das desigualdades. 

  

Todavia, a mesma desigualdade ocorre com a aplicação dos recursos estatais. O governo federal, por exemplo, destina muito mais recursos para o pagamento de juros da dívida pública do que para o financiamento do Programa Bolsa Família, que mantém 11,6 milhões de famílias livres da condição de miséria. O mesmo ocorre nas áreas de saúde e educação, as quais vêm recebendo cada uma, sistematicamente, menos recursos que os destinados às aplicações financeiras. 

  

De fato, o Ipea2 aponta que, em relação ao Produto Interno Bruto, a carga tributária líquida, ou seja, a carga tributária menos o pagamento de juros variou de 10,7%, em 2000, para 12,1%, em 2005. Em 2003, chegou a cair para 9%. Estes números mostram que todo o aumento restante da carga tributária serviu tão somente para financiar o pagamento de juros da dívida pública. 

  

A manutenção deste modelo transfere renda do andar de baixo para a cobertura, em desavergonhada afronta aos ditames sociais preconizados pela Constituição Cidadã.  

  

Sem submissão 

A submissão da classe trabalhadora mais pobre às desigualdades e a marginalização de parcelas significativas da população mostram que ainda não há uma consciência plena da relação que deveria ser estabelecida entre o povo e o Estado. 

  

A relação do povo com o Estado republicano e democrático não pode ser de vassalagem ou de submissão, mas de cidadania, com dignidade, pautada por direitos e obrigações. A constatação de que a carga tributária brasileira é regressiva faz nascer a demanda pela sua urgente redistribuição. Já a verificação de que os gastos governamentais privilegiam a elite econômica faz surgir o legítimo anseio pelo seu redirecionamento para promover a redução das desigualdades. 

  

Os trabalhadores já deveriam estar nas ruas brandindo a Constituição e reivindicando uma reforma tributária. Uma reforma tributária que redirecione parte da carga indireta sobre o consumo para o patrimônio e a renda dos mais abastados. Uma reforma tributária que respeite a capacidade contributiva e cumpra o papel constitucional de distribuir renda, em vez de concentrar. 

  

A classe trabalhadora deve se organizar para debater como os recursos fornecidos ao Estado estão sendo gastos, com vistas a exigir as mudanças necessárias capazes de potencializar a erradicação da pobreza, reduzir a desigualdade e promover o desenvolvimento com dignidade para todos. 

Carlos André é ex-presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal.

Ítalo Aragão é auditor fiscal da Receita Federal, especialista em Tributação.


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