Imprensa, outra guerra marfinense - Le Monde Diplomatique

COSTA DO MARFIM

Imprensa, outra guerra marfinense

por Vladimir Cagnolari
2 de maio de 2011
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“A guerra terminou”, declarou o presidente Alassane Ouattara no momento da prisão de Laurent Gbagbo, no dia 11 de abril. Se o futuro da ainda dividida Costa do Marfim permanece incerto, o conflito aberto pela eleição também se desenvolve na mídia local, com os dois se enfrentando via imprensa e agências de comunicaçãoVladimir Cagnolari

Segunda-feira, 11 de abril de 2011: as televisões do mundo inteiro divulgam as imagens de um Laurent Gbagbo estupefato e de sua esposa, Simone, prostrada. O casal que deteve as rédeas da Costa do Marfim por dez anos foi preso no subsolo da residência presidencial bombardeada intensamente pela força francesa Licorne, parte do quadro da Operação das Nações Unidas da Costa do Marfim (Onuci). Essas curtas sequências, sem som – o que diz Gbagbo, cujos lábios se mexem? –, a princípio foram mostradas na Televisão Costa do Marfim (TCI), canal lançado no fim de dezembro de 2010 por Alassane Ouattara para fazer frente à superpoderosa Rádio Televisão Marfinense (RTI), órgão do Estado. O novo presidente quer provar ao país que a guerra chegou ao fim. Posto que as imagens, tanto quanto as metralhadoras, serviram de arma desde o dia 28 de novembro de 2010, data do segundo turno da controversa eleição presidencial.

A partir da independência do país, em 1960, e durante trinta anos, a RTI deteve o monopólio da informação, compartilhada com o diário oficial Fraternité Matin. Os jornal marfinense, todos os dias, apresentava na primeira página “o pensamento do dia”, do presidente Félix Houphouët-Boigny, cujo partido único reina sem restrição. Esses veículos, foram consagrados, essencialmente, a relatar as ações do governo e os deslocamentos do chefe de Estado, narrados com lirismo pelo repórter pessoal do presidente, Joseph Diomandé. Em um país predominantemente rural, essas mídias do Estado servem também para forjar uma identidade comum e para educar uma população ainda majoritariamente iletrada, com programas sobre higiene e saúde, concursos nacionais de embelezamento das cidades, “ensino por meio da televisão”…

Os jornalistas que trabalhavam na rádio e na TV eram tidos como representantes do poder. Mas a queda do muro de Berlim e a democratização que ela suscitou na África forçaram Houphouët-Boigny, então envelhecido, a promover uma abertura. Os títulos de imprensa – frequentemente efêmeros – multiplicaram-se, e uma vintena de jornais diários espalhou-se para um dos eleitorados mais importantes da África francófona. Apesar da crise econômica, a Costa do Marfim continua sendo o mais rico dentre os Estados da sub-região, onde os leitores dispõem de um poder de compra superior ao de seus vizinhos. Além disso, as formalidades administrativas necessárias à criação de um jornal foram simplificadas ao extremo.

 

JORNALISTAS OU GUERREIROS?

No entanto, a diversificação dos veículos infelizmente não resultou na melhoria da qualidade da informação. Os jornais, normalmente presos à opinião dos barões dos partidos políticos, reproduzem os defeitos das mídias estatais. Brilhantes jornalistas tentam escapar disso, mas a missão é ainda mais árdua com o aumento da tensão política provocada pela morte de Houphouët-Boigny, em 1993. Pouco a pouco, a liberalização da imprensa serviu de veículo para propaganda de uns e outros. Os boatos mais insanos, frequentemente divulgados nas “chamadas de capa”, animam os assuntos daqueles apelidados “titulólogos”: simples transeuntes que, aglomerados em frente às bancas, comentam a atualidade lendo apenas as manchetes.

Essa parcialidade acabou provocando uma queda nas vendas, tornando a profissão de jornalista ainda mais sensível aos “envelopes” distribuídos pelos mecenas. Encomendando matérias elogiosas, eles transformam alguns jornalistas em profissionais sem nenhum valor. Quanto à RTI, se elogia com menos ênfase o chefe de Estado, ela passa a ficar a serviço do sucessor de Houphouët-Boigny, Henri Konan-Bedié. As rádios internacionais – Rádio França Internacional (RFI), British Broadcasting Corporation (BBC), África no 1 –, que receberam autorização de transmissão em 1993, fazem seu trabalho, mas a lenta deriva de uma imprensa nacional cada vez mais exagerada promove o envenenamento do clima político. As matérias são cada vez mais rancorosas, e os jornalistas são equiparados a guerreiros no conflito aberto que mergulha o país em um abismo.

No dia 19 de setembro de 2002, quando explodiu a rebelião que tentou derrubar Gbagbo, no poder havia dois anos, as rádios estrangeiras foram logo cortadas, assim como foram destruídas as redações dos jornais ou das rádios privadas consideradas próximas a Ouattara (designado mandante da ação). A RTI tornou-se então a mais forte das ferramentas de propaganda a favor do regime. A direção do grupo audiovisual público tomou, aliás, o cuidado de afastar do canal todos os supostos simpatizantes da União dos Republicanos (RDR – Rassemblement des républicains), partido de Ouattara. Os jornalistas ocidentais, acusados de parcialidade, foram igualmente expostos à condenação pública, tendo o endereço revelado. As diatribes mais violentas dos “patriotas”, adeptos do presidente Gbagbo, foram transmitidas sem parar.

O envolvimento da vizinha Burkina Faso, base de retaguarda do movimento rebelde, desencadeou represálias contra seus cidadãos. O chefe de Estado pediu que as forças de segurança “esvaziassem” os bairros onde moravam estrangeiros, suspeitos de abrigar esconderijos de armas. A rádio nacional deu sua opinião, por meio de seus editorialistas, em 6 de outubro de 2002: “Bastaria expulsar os 500 mil burquinenses da Costa do Marfim para que o chefe da rebelião [subentendido Blaise Compaoré, presidente de Burkina Faso] compreenda o papel da Costa do Marfim na sub-região”. Alguns apelidaram a então rádio nacional de “Rádio Mil Lagunas”, em referência à sinistra Rádio Mil Colinas ruandesa, que, em 1994, transmitiu chamadas para o genocídio dos tútsis.

A violência verbal acompanha a violência física, facilitando o sentimento de impunidade. Um mês depois do início das hostilidades, a intervenção das forças francesas freou o crescimento do número de rebeldes, admitindo a divisão de fato do país. Nas zonas do Centro e do Norte, ocupadas pela rebelião, a RTI foi cortada; rádios e televisões locais se encarregavam de “informar” a população.

Em campo, as exigências continuaram de um lado e de outro, até os acordos de Ouagadougou (Burkina Faso), assinados em março de 2007, que abriram caminho para as eleições que ocorreramem novembro último, depois de seis adiamentos. A imprensa estrangeira, com a RFI regularmente suspensa, foi novamente autorizada. E o clima midiático, seguido do clima político, acalmou-se… até a campanha eleitoral de 2010.

Na noite do segundo turno, domingo, 28 de novembro de 2010, desde o jornal das 20 horas, a RTI está ativa. Ouattara e sua equipe desapareceram das telas. As reportagens que mostram as violências e as fraudes no Norte se sucedem. Nenhum direito de resposta, nenhuma menção às ocorrências na região Sul e Oeste. Na manhã de terça- -feira, 30 de novembro, quando o país inteiro esperava os primeiros resultados, a RTI desmontou suas instalações na sede da Comissão Eleitoral Independente (CEI).1 Ela “perde” a fala do porta-voz da CEI que tentava em vão anunciar os números, com seus documentos sendo rasgados sob os olhos da imprensa estrangeira por um membro da comissão, Damana Pickass, antigo dirigente da Federação Estudantil e Escolar da Costa do Marfim (Fesci), o sindicato que, desde 2000, serve de viveiro às milícias de Gbagbo.2

Quinta-feira, 2 de dezembro: para surpresa geral, é do Hotel do Golfo, queabriga o quartel-general de Ouattara, que os resultados que o apontam como vencedor foram divulgados por Youssouf Bakayoko, presidente da CEI. Essa cena não seria vista na RTI; a imprensa estrangeira que a divulga foi cortada, da mesma forma que as mensagens de celular. No dia seguinte, o Conselho Constitucional proclamou Gbagbo vencedor. A cena passa sem parar na televisão nacional (a única que está no ar desde a véspera), alternada com a casta de advogados justificando essa decisão. Curiosamente, ninguém fez referência ao artigo 64 do código eleitoral marfinense, que prevê, nessas circunstâncias, que a eleição seja anulada e que um novo escrutínio seja convocado. No dia 4 de dezembro, sempre ao vivo na televisão nacional, Gbagbo jurou: é esse presidente, e somente ele, que os marfinenses verão.

Durante as semanas seguintes, quando a vitória de Ouattara foi reconhecida, nesta ordem, pelas Nações Unidas, Estados Unidos, França e União Africana, estabeleceu-se no território um statu quobicéfalo, mas desigual. No plano interior, Gbagbo controla Abidjan, centro do poder. No que diz respeito a Ouattara, ele está recluso no Hotel do Golfo, protegido pelos capacetes azuis da Onuci. Seu apoio encontra-se no exterior. É então nessa frente que Gbagbo escolheu começar outra batalha de comunicação, a fim de quebrar a unanimidade que ele enfrentava.

 

Disputa em campo francês

O essencial dessa batalha se decide na França, antiga potência colonial que conserva ligações muito fortes com a Costa do Marfim. O presidente derrotado dispõe para isso de uma rede de comunicadores que arvora uma aparente heterogeneidade, mas reflete o estrategista pragmático que Gbagbo sempre foi. Para a campanha eleitoral de 2010, ele já tinha confiado sua comunicação a Stéphane Fouks, dirigente da Euro RSCG (filial de Havas).

Sua escolha de uma empresaque depende do grupo Bolloré é coerente com a concessão, de mútuo acordo, do porto de Abidjan ao mesmo grupo, em 2003, assim como a condecoração dada a seu presidente, Vincent Bolloré, em 2008. Ao longo das semanas seguintes às eleições, os jornais do homem de negócios lhe reservaram um tratamento especial. As demais boas relações construídas por Gbagbo se repartiram sobre o tabuleiro político, tais como os antigos companheiros do Partido Socialista (PS) francês, em cuja primeira fila está Guy Libertit, antigo “Senhor África” da legenda e que hospedou o mandatário marfinense durante seu exílio na França, nos anos 1980. Esse apoio nunca foi desmentido, mesmo quando a direção do PS pediu para Gbagbo deixar o poder. Por outro lado, apoios menos conhecidos revelaram-se na extrema direita: Bernard Houdin, antigo responsável pelo Grupo União de Defesa (GUD), e Marcel Ceccaldi, advogado e ex-conselheiro de Jean-Marie Le Pen. A filha deste, Marine Le Pen, que denuncia o intervencionismo de Nicolas Sarkozy, não fica atrás. Ela serve ao objetivo de Gbagbo: colocar a crise marfinense em conflito com Paris. Esse tema é mobilizador para a opinião pública francesa, mas também africana, seja ela no exílio ou no continente.

Todas essas personalidades desfilam sobre palcos da televisão ou nos estúdios de rádios francesas para defender o “resistente” Gbagbo e a primazia da Constituição marfinense sobre as ingerências internacionais. No fim de dezembro, a missão marfinense de Jacques Vergès e Roland Dumas abriu para a facção de Gbagbo uma janela suplementar na imprensa francesa. Os advogados anunciaram por meio dela a redação de um “livro branco”. A questão é semear a dúvida nas opiniões estrangeiras, colocando em oposição “os dois presidentes”. Essa tática acentua mecanicamente a impressão de que a decisão tomada pelos governantes ocidentais, assim como pela ONU, foi arbitrária. De fato, os dois homens assinam acusações, nas quais as “provas” são na maioria tiradas da RTI!

Nessa batalha, Ouattara concentra seus esforços sobre o frontinterno, onde se decide o controle das imagens vistas pelos marfinenses. Para a campanha eleitoral de 2010, ele foi igualmente apoiado por Patricia Balme (PB Com), uma das comunicadoras mais em voga do lucrativo mercado do conselho de imagens africano.3 No dia 16 de dezembro, a caminhada lançada por Guillaume Soro, recentemente nomeado primeiro-ministro de Ouattara, tentou em vão alcançar a sede da RTI.

Para fazer concorrência a ela, o presidente reconhecido pela ONU criou, no fim de dezembro, sua própria rádio e depois, no fim de janeiro, seu próprio canal, a TCI, que também não tem como ponto forte acredibilidade das informações. Mas a neutralização da RTI, que continua transmitindo a propaganda de Gbagbo, permanece uma questão prioritária. O “Comando Invisível”4 de Ouattara persegue as forças do presidente saindo nos bairros de Abobo, em Abidjan, onde se situa o centro emissor, igualmente visado por helicópteros franceses.

Na madrugada do domingo de 10 para 11 de abril, os bombardeios da força de Licorne colocaram um fim definitivo às emissões da RTI. Ao meio- -dia, a tela ficou escura, como o futuro de Gbagbo. Os jornalistas que o apoiaram são alvo de uma verdadeira caçada. A reconciliação dos marfinenses passará necessariamente pelo desarmamento das mídias e pela veiculação de imagens neutras.

Vladimir Cagnolari é Jornalista.



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