Independência de classe, democracia socialista e internacionalismo - Le Monde Diplomatique

O QUE É SER DE ESQUERDA HOJE NO BRASIL?

Independência de classe, democracia socialista e internacionalismo

por Henrique Carneiro
3 de junho de 2014
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A esquerda não é uma posição relativa, mas um programa histórico. O que é chamado hoje de esquerda oficial não é mais do que a social-democracia, o stalinismo e o nacionalismo burguês reciclados, e o polo programático desse referencial permanece quase vazioHenrique Carneiro

Na história moderna surgiu uma oposição entre os interesses das grandes monarquias associadas à Igreja e aos nobres proprietários de terras e as camadas plebeias da população tanto camponesas como urbanas.

As grandes revoluções modernas, especialmente a estadunidense e a francesa, inauguraram os conceitos de soberania popular, de cidadania nacional, de igualdade de direitos e, especialmente, consagraram o direito à rebelião diante da tirania como o primeiro direito inalienável dos povos.

Os interesses das camadas mais plebeias e dispostas à maior radicalização, identificadas com os jacobinos, se localizaram à esquerda no salão da Assembleia Nacional durante a revolução de 1789 na França.

A esquerda nasceu, assim, como a síntese entre o igualitarismo, a democracia e o direito a reivindicar direitos.

No outro polo, da direita, estavam os monarquistas, os defensores da aristocracia e do privilégio, da censura e do monopólio religioso sobre o pensamento.

O conteúdo político democrático, igualitário e plebeu da esquerda vai evoluir ao longo do século XIX com uma intensificação de seu conteúdo social, dada a recusa de direitos políticos aos pobres, e uma identificação com a classe produtora das riquezas em contraste com a classe proprietária e exploradora do trabalho assalariado.

Assim, esquerda é a posição do interesse dos trabalhadores, do poder dos salários contra o do capital. É a defesa da jornada de oito horas, dos direitos trabalhistas, da proteção social. O igualitarismo da esquerda é de classe, gênero e raça, defendendo a emancipação feminina e seu direito de voto, a independência dos países coloniais e a luta antirracista, além do socialismo como um modelo de propriedade coletiva da riqueza social.

Esquerda, assim, também é feminismo e antirracismo e contra todas as opressões, incluindo a defesa dos direitos homossexuais, cujo pioneiro foi o socialista alemão Magnus Hirschfeld, que, mesmo assim, só conseguiu que apenas uma minoria do Partido Socialista Alemão (SPD) apoiasse a revogação da lei anti-homossexualidade, em 1898.

A primeira legislação de igualdade de direitos políticos e familiares (com legalização do divórcio e do aborto) para as mulheres e descriminalização da homossexualidade foi a da União Soviética, a partir de 1917, enquanto na França, por exemplo, o voto feminino só ocorreu em 1945.

No século XX, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a esquerda se dividiu em torno do antimilitarismo, do anti-imperialismo, do anticolonialismo, da defesa internacionalista da federação dos povos acima das ideologias nacionalistas ou, ao contrário, como fez a maioria dos partidos socialistas, da adesão à guerra.

A Revolução Russa instaurou o primeiro governo de esquerda, após a efêmera e confusa Comuna de Paris. A divisão na esquerda, que já começara pelo apoio de sua maioria parlamentar em quase toda a Europa à defesa da guerra, aprofundou-se com o alinhamento dos sociais-democratas à luta imperialista contra a União Soviética.

Desde o apoio da social-democracia à guerra em 1914, a esquerda oficial sofreu uma reconversão, tornou-se um instrumento da preservação do Estado burguês e se perfilou patrioticamente na carnificina da Primeira Guerra Mundial. Antes disso, Alexandre Millerand, na França, já havia se tornado o primeiro socialista a ocupar cargos num gabinete dos partidos burgueses, como ministro do Comércio, em 1898, preparando sua carreira posterior como primeiro-ministro e presidente e prenunciando a transformação dos dirigentes da II Internacional em gestores do capitalismo nos momentos de crise por meio de algumas concessões para a manutenção do essencial da ordem.

O Welfare State representou, a partir dos anos 1930, uma série de concessões obtidas como resultado de ondas de greves e movimentos sociais poderosos, mas o destino final dos partidos socialistas no século XX foi a execução (especialmente na Espanha, na França, em Portugal e na Grécia) dos planos de austeridade e de cortes sociais, destruindo o modelo de previdência e assistência social que as grandes greves da década de 1930 haviam conquistado.

Os trabalhistas britânicos viram o juramento do marxista imigrado Ralph Milliband no túmulo de Marx, em Londres, transformar-se nos governos neoliberais de seus dois filhos, convertidos ao pensamento único do interesse financeiro e ao militarismo estadunidense ao ocuparem cargos ministeriais nos governos Blair e Brown no início do século XXI.

O processo de burocratização que os grandes partidos e sindicatos socialistas sofreram levou a que esquerda significasse, a partir dessa época inicial do século XX, uma oposição à aristocracia operária, à burocracia e ao reformismo dos partidos social-democratas, com a adoção da denominação de comunista e a adesão a uma nova Internacional, a Terceira.

O destino dos comunistas, nascidos da III Internacional e do partido bolchevique soviético, também não foi menos trágico e degenerado. A maior parte dos dirigentes originais foi assassinada por Stalin, cujos processos inquisitoriais de Moscou, a colaboração com Hitler e a ditadura sangrenta instalada no lugar da democracia conselhista dos sovietes fizeram uma caricatura grotesca do significado do comunismo e do pertencimento a uma “esquerda”.

Desde então, a “esquerda” oficial foi apresentada ao mundo como o modelo ou do reformismo colaboracionista dos socialistas europeus, ou da ditadura burocrática e de campos de concentração do stalinismo em seus modelos original ou copiados no Leste Europeu e na China.

Com a degeneração da Revolução Russa, a stalinização significou um retrocesso em vários ideais da esquerda, como a democracia socialista, a direção coletiva e não personalista, o respeito às minorias, o incentivo da crítica, a franqueza e a lealdade e, sobretudo, a recusa à violência e ao assassinato para destruir adversários políticos no interior do próprio movimento socialista.

Esquerda passou a significar a oposição não só ao capitalismo, mas à degeneração do socialismo autodeclarado vigente, surgindo assim uma “esquerda da esquerda”. A chamada “oposição de esquerda”, liderada por Trotsky, representou desde esse momento a sobrevivência do programa político da esquerda, que se organizou depois na articulação da IV Internacional, que se manteve, entretanto, reduzida à condição de pequenas agrupações em poucos países.

A esperança de uma “nova esquerda” animou também as rebeliões dos anos 1960, tanto nos movimentos juvenis, contraculturais e antiguerra nos países centrais como nas revoluções camponesas que ocorriam em Cuba e no Vietnã ou, anos mais tarde, na Nicarágua.

Esses países se submeteram inicialmente ao modelo burocrático soviético, mas, rapidamente, reconverteram-se de forma mais atenuada ao que recentemente o escritor cubano Leonardo Padura denominou de “neoliberalismo de Estado”, que se tornou também o modelo vigente na Rússia e na China, nesta última com a preservação do aparato simbólico do referencial “comunista” no nome do partido governante e numa maior presença do Estado na propriedade direta de diversos setores.

Na Rússia da última década do século XX, o plano Gaidar no governo Yeltsin privatizou as grandes empresas estatais, e houve uma ruptura simbólica com o comunismo do qual quase todos os atuais dirigentes e magnatas se originam. Um capitalismo com métodos KGB instaurou os regimes com menores liberdades democráticas na Europa na Rússia e na Bielorrússia.

O colapso seguido das esquerdas oficiais, tanto da social-democracia como do comunismo, levou a um horizonte de crise de representação e de crise ideológica da noção de um polo internacional ou de uma frente dos interesses sociais dos explorados e oprimidos que continua sendo o programa histórico da esquerda.

Os partidos da herança comunista e socialista, assim como novas organizações como o PT no Brasil e o CNA na África do Sul, tornaram-se gestores dos interesses do grande capital e dos seus próprios, com o aburguesamento de antigos quadros operários e sindicais.

O nacionalismo burguês latino-americano também adaptou as formas do populismo clássico para uma nova retórica, mas o conteúdo tornou-se ainda mais parceiro do parasitismo financeiro e do modelo exportador de commodities primárias, que continua regendo a espoliação de recursos minerais e energéticos e da sustentabilidade socioambiental com monoculturas de agroexportação e com uso irresponsável de sementes transgênicas, fertilizantes e agrotóxicos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A esquerda, assim, sofre de uma crise de identidade. Estar “à esquerda” não é o mesmo que ser de esquerda. A esquerda não é apenas uma posição relativa, mas um programa histórico. O que é chamado hoje de esquerda oficial de fato não é mais do que a social-democracia, o stalinismo e o nacionalismo burguês reciclados, e o polo programático desse referencial permanece quase vazio.

A esquerda programática real é estigmatizada como uma “extrema” esquerda, quando, na verdade, ela resiste como a única esquerda a merecer esse nome. Pequenos partidos da extradição trotskista ocupam parte desse espaço em países como a França, a Argentina e o Brasil. Em outros lugares, movimentos camponeses como o zapatismo, ou das classes médias precarizadas da crise europeia, como os indignados espanhóis ou a juventude dos Occupy, já despontaram como focos de esperança e de aglutinação, mas pouco se conseguiu até agora no sentido de forjar uma “nova esquerda” revolucionária.

O agravamento das condições objetivas da crise econômica, socioambiental e moral do capitalismo financeirizado e predatório contemporâneo e dos conflitos sociais crescentes que ele provoca aumenta o surgimento de movimentos antissistêmicos de caráter contestatório que vão ocupar na luta social concreta o lugar da esquerda como polo da frente única anticapitalista, mesmo que isso ocorra de forma confusa, inorgânica, empírica e até mesmo inconsciente.

O legado teórico do marxismo como teoria crítica subsiste nos esforços de análise do presente e de ruptura com as formas dogmáticas e pragmáticas do marxismo oficial stalinista e social-democrata, e somente sua capacidade de teorizar e intervir sobre as novas condições sociais objetivas da situação política e da forma presente do regime capitalista de acumulação, assim como sobre as condições subjetivas das ideologias e instituições presentes no mundo do trabalho, poderá contribuir para a construção prática de uma nova esquerda que retome os eixos programáticos que podem ser resumidos basicamente em três pontos: independência da classe trabalhadora, democracia socialista e internacionalismo.

 

Henrique Carneiro é historiador.



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