Internet abre espaço para a diversidade de perfis, mas impulsiona velhas práticas

Eleições 2022: a mídia como palanque

Internet abre espaço para a diversidade de perfis, mas impulsiona velhas práticas

por Tâmara Terso
30 de setembro de 2022
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Em campanhas nas redes sociais, influenciadores estimulam o debate de gênero e de juventude, mas outros se utilizam de estratégias de desinformação e defendem políticas punitivistas para a segurança pública

Entre os candidatos e candidatas influenciadores digitais nas eleições de 2022, os perfis são diversificados. Há humoristas, cantora gospel, Miss Brasil, DJ, dançarina, ex-BBB, atleta, microempreendedores dos ramos da moda, alimentação e estética, agentes públicos, religiosos e políticos tradicionais.

O levantamento Donos da Mídia, projeto permanente do Intervozes, identificou em 12 estados (BA, PB, PE, CE, AM, PA, MT, MG, ES, SP, RJ e PR) e no Distrito Federal 40 candidaturas de influenciadores digitais. Desses, 25 são candidatos a deputado federal, 11 a deputado estadual, 3 ao Senado e 1 a suplente do Senado. Entre eles existe uma candidatura coletiva, outra indeferida e um terceiro candidato que não é classificado diretamente como influenciador, mas que possui parentesco com representante do segmento.

O projeto, que mapeia candidatos apresentadores de programas policialescos e donos de mídia, incorporou o seguimento dos influenciadores digitais com o objetivo de acompanhar essa atividade que cresce em ritmo acelerado e interfere diretamente na promoção do direito à comunicação. A metodologia de coleta dos dados buscou os principais influenciadores, em número de seguidores e estratégias de monetização, de 14 estados e do Distrito Federal que estão pleiteando um cargo político nas eleições de 2022.

Apresentando um evidente desequilíbrio racial e de gênero já visto nos outros levantamentos, a proporção de homens (25) é maior que a de mulheres (15), e de brancos (24) maior que a de candidatos pardos (13) e pretos (3). Boa parte das candidaturas já têm experiencia eleitoral (24) e chama atenção o número de candidatos com patrimônio declarado acima de 1 milhão de reais (14), sendo que em dois casos esse valor chega a mais de 20 milhões de reais.

À primeira vista, a impressão é que as redes sociais ampliaram a participação popular nas eleições, porém observando em detalhes os perfis sócio-raciais e de gênero, o fenômeno da hipervisibilidade da atividade de influência digital e a sua participação nas eleições é bem mais complexo.

Parece haver um jogo de limites e tensões entre novas e velhas práticas políticas. Por um lado, existe um conjunto maior de candidaturas de “primeira viagem”, se compararmos com os mapeamentos dos candidatos policialescos e donos de mídia. Por outro lado, podemos identificar a existência de influenciadores vindos de famílias de políticos, como os donos de mídia, e a defesa de pautas punitivistas na segurança pública que se assemelham às dos candidatos policialescos.

A forma com que os influenciadores apresentam suas campanhas para o eleitorado se destaca na linguagem conectada com as redes, pelo uso de expressões curtas, memes, e pelo recurso de passar a sensação de estarem sempre “ao vivo”.

A tese da midiatização profunda da política se fortalece e tensiona o modelo tradicional de eleições. O tempo determinado de propaganda no rádio e na TV passa a competir com as plataformas digitais, cuja dinâmica permite o surgimento de monopólios de fala ao mesmo tempo em que abre espaço para quem tradicionalmente não participaria da disputa eleitoral.

O ambiente da influência digital nas eleições abarca espectros da direita e da esquerda fazendo emergir pautas disputadas discursivamente por ambos os lados como o empoderamento feminino e a acessibilidade.

No entanto, o fenômeno dos influenciadores requer atenção, uma vez que os mecanismos de visibilidade das plataformas digitais combinados com as especificidades do sistema eleitoral podem atualizar distorções na representatividade política. Em alguns casos os influenciadores performam uma atualização da estratégia dos “puxadores de votos” nas eleições proporcionais – candidatos que têm o potencial de obter muitos votos e contribuem para que seus partidos e federações alcancem o quociente eleitoral[1], garantindo vagas nas casas legislativas, bem como acesso ao tempo de rádio e TV na propaganda eleitoral e ao fundo partidário.

Além disso, os conflitos de interesse entre agentes públicos que são destaque no ambiente digital e o serviço que eles prestam à população se ampliam, adicionando ao tema a questão da monetização das plataformas. Em paralelo, cresce o conjunto de influenciadores e influenciadoras que fazem campanha nas redes sociais apostando na desinformação e na violação de direitos. Ou seja, é possível ver uma miríade de estratégias relacionadas a participação política no ambiente digital e uma grande tarefa para o sistema eleitoral e midiático em convergência equilibrar esses poderes nos próximos anos.

Ilustração: Thyago Nogueira/Oficina Sal

Novos nomes e a expectativa de “puxar votos”

Entre os influenciadores que pleiteiam um cargo legislativo nessas eleições, nomes famosos prometem “renovar a pauta política” e quem sabe puxar votos para suas legendas e federações.

Nessa lista está um dos maiores recordistas de Artes Marciais Mistas (MMA) do Brasil. O atleta Wanderlei Silva (PP) é candidato a deputado federal pelo Paraná. Wanderlei já tinha disputado as eleições em 2018 pelo PSD e ficou como suplente.

Nas redes sociais o candidato fala bastante do incentivo ao esporte, ao patriotismo e a defesa pessoal para mulheres vítimas de violência. Wanderlei está alinhado com a plataforma política do presidente Bolsonaro, mas prefere compartilhar conteúdos relacionados a prática esportiva como um direito. Entre os influenciadores, o candidato foi o que declarou o maior patrimônio, de R$22.342.526,14.

De acordo com as pesquisas do IPEC, um dos candidatos ao Senado por Minas Gerais com chances reais de ganhar é Cleitinho Azevedo (PSC). Cleitinho é influenciador digital com mais de 1 milhão de seguidores. Ele é deputado estadual e tem um histórico familiar de participação na política com dois irmão ocupando cargos públicos, Gleidson Azevedo, prefeito de Divinópolis (MG) e Eduardo Azevedo, vereador na mesma cidade. Com o lema “empregado do povo”, o influenciador não apresenta nitidez nas suas propostas políticas, apostando no debate anticorrupção, nas cores verde e amarela e no apoio a reeleição do presidente Bolsonaro.

Outro destaque com o perfil de influência nas redes digitais é a candidatura coletiva dos youtubers Charlles Rekson e Tiringa (PRTB) a um mandato coletivo de deputado federal por Pernambuco. Os humoristas acumulam cerca de 9 milhões de inscritos no canal Comédia Selvagem. O tipo de humor de Charlles e Tiringa mistura uma preocupação com os animais e piadas escrachadas sobre o cotidiano das pessoas do campo. O sotaque e o perfil grosseiro de Tiringa, no estilo do repentista nordestino Seu Lunga, conhecido pelo mau humor, aparentemente foi demarcando espaço e conquistando seguidores. Eles viraram uma marca e a campanha política tem seguido o mesmo padrão e estética: vídeos de escracho social, indignação com a política e muito senso comum.

No campo da esquerda, o destaque é Leonardo de Souza Xavier (PSOL), candidato a deputado estadual pelo Ceará, também conhecido como Leo Suricate, responsável pela administração do perfil de humor no Instagram Suricate Seboso. Com memes despojados protagonizados pela imagem do suricate, o perfil compartilha frases e cenas do cotidianos com gírias e trejeitos nordestinos para mais de 1 milhão de seguidores.

O candidato é jovem, ligado ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), músico, produtor audiovisual e articulador cultural. Sua plataforma de campanha explora temas que convergem com a pauta dos direitos para a juventude, como educação, democratização da mídia, acesso à cultura e moradia. O conteúdo que divulga suas propostas segue a mesma linha bem-humorada da página Suricate Seboso como forma de identificar o candidato ao perfil de humor que ele administra.

Outros candidatos influenciadores digitais com alguma entrada no mundo dos famosos são destaque como a Miss Brasil 2018, Mayra Dias (Avante), candidata a deputada estadual pelo Amazonas e esposa do prefeito de Parintins, Bi Garcia (União Brasil); Gordinho da Maniçoba (MDB), youtuber e candidato a deputado federal pelo Pará e apoiador da família Barbalho; e Dr. Marcos Harter (Podemos), ex-BBB e candidato a deputado federal pelo Mato Grosso.

 

Influenciadores e agentes da polícia e do sistema de justiça

No projeto de lei 2.630/2020, conhecido como PL das Fake News, que está sendo discutido no Congresso Nacional, a monetização de contas de atores institucionais por plataformas de redes sociais é vedada por se tratar de remuneração pessoal decorrente de um investimento de recursos públicos – informações privilegiadas, tempo e ambiente trabalho, entre outros.

Segundo documento da Coalizão Direitos na Rede em defesa da permanência da seção que trata sobre a proibição da monetização dos agentes públicos nas redes sociais no PL 2630, as contas enquadradas como de interesse público precisam equilibrar garantias, como a restituição das mesmas ou dos conteúdos indevidamente suspensos, retirados ou restritos por provedores de internet, e obrigações, como a não monetização de conteúdos pagos por dinheiro público ou em função de uma atividade pública.

Na Câmara Federal existe outro projeto em tramitação que versa sobre o mesmo objeto, o PL 1674/2022 de autoria do deputado Aureo Ribeiro (Solidariedade/RJ). O projeto visa proibir que agentes públicos recebam vantagens econômicas com publicidade de conteúdo na internet. O texto prevê modificação da lei de improbidade ao enquadrar a conduta de monetização dos agentes públicos por plataformas em atos de improbidade administrativa, uma vez que o agente público estará obtendo vantagens pessoais através da condição do cargo que exerce.

Mesmo com a tramitação dessas leis agendando o debate público sobre o tema dos conflitos de interesse na atividade dos agentes públicos nas plataformas digitais, nessas eleições é expressivo o número de influenciadores policiais e agentes de justiça disputando cargos.

O estado do Mato Grosso é referência na incidência de candidaturas que usam as plataformas digitais como palanque eleitoral e monetizam sua prática de promoção da segurança. Dos nove candidatos influenciadores no estado, quatro se enquadram nesse perfil.

Com o lema #juntosnessaguerra, o Coronel Assis (União Brasil) disputa sua primeira eleição, candidato a deputado federal pelo Mato Grosso. O coronel é ex-Comandante Geral da Polícia Militar do Mato Grosso, ex-comandante do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e ex-comandante do Gefron (Grupo Especial de Fronteira).

Em 2021, Assis foi notificado sobre atos antidemocráticos contra o Supremo Tribunal Federal (STF). Nas redes sociais ele faz a campanha defendendo o porte de armas como política de empoderamento das mulheres e o policiamento ostensivo. O candidato também faz intensa campanha para Jair Bolsonaro.

Outro agente de justiça e influenciador digital do estado é o Tenente Coronel Paccola (PL), candidato a deputado estadual. Paccola se autodeclara cristão, defensor da família e policial do Bope. Ele é líder do movimento Pró-Armas em Cuiabá.

Figura controversa, Paccola é vereador de Cuiabá e ficou conhecido nacionalmente pelo projeto de criação do Dia do Orgulho Heterossexual. Ele é envolvido em escândalos policias e já foi investigado pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão do Crime Organizado) por organização criminosa, falsidade ideológica e fraude processual. Recentemente, matou um homem com tiro pelas costas em rua de bairro movimentado da cidade, alegando ser em legítima defesa.

Como influenciador em campanha, o Tenente Coronel usa as suas redes para propagar o que ele chama de “direito ao exercício da legitima defesa”, que nada mais é que a liberação de armas para a população exercer uma espécie de segurança paralela.

Em São Paulo, o destaque das candidaturas de influenciadores policiais é o delegado Da Cunha (PP), candidato a deputado federal. Da Cunha tem mais de 2 milhões de seguidores e faz do uso das suas redes uma experiencia de “ao vivo” das delegacias e operações policiais que acompanha.

O lema da campanha do delegado é “operação 1122: #pracimadeles”, e diz muito sobre a exploração da atividade policial e do punitivismo em que o candidato baseia a ocupação nas redes sociais e sobre suas propostas políticas que incluem a ampliação de penas judiciais para os crimes de furto e roubo.

O candidato foi indiciado pela Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, em julho de 2021, acusado por crime de peculato – quando um funcionário público se apropria ou desvia de bem público em benefício próprio ou de terceiros.

O crime tem relação com a utilização do seu canal no Youtube. No ano anterior, em 2020, o candidato admitiu ter encenado uma operação em que libertou um refém de um cativeiro e prendeu um suposto sequestrador e chefe do PCC. No entanto, alguns meses depois a justiça, acatando um pedido do Ministério Público de SP, determinou o arquivamento do processo.

Em 2022, o Conselho da Polícia Civil de São Paulo aprovou a segunda proposta de demissão do delegado. Fontes da polícia afirmam que a razão do novo pedido são declarações contra integrantes da cúpula da instituição, entre eles, o ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes.

Outro perfil na mesma linha é o de Amanda CSI (MDB), candidata a deputada federal pela Paraíba. Ela é perita criminal e em seu canal do Youtube vende métodos de estudos para realização dos exames de seleção no sistema de justiça.

Em seus vídeos a candidata também faz críticas à situação de desvalorização do trabalho policial, reivindicando equipamentos e aumento de salários. Amanda se apresenta como representante do empoderamento feminino e é uma forte crítica das lacunas judiciais que violam os direitos das mulheres em situação de violência doméstica.

O caso da candidata Amanda CSI nos faz refletir sobre os limites do público e do privado na relação que ela estabelece com seus seguidores, uma vez que a perita vende as experiências da academia de polícia ao mesmo tempo que parece utilizar as redes para pressionar o sistema de justiça. Tudo isso realizando uma forte campanha publicitária para os seus métodos e sua candidatura nas eleições.

 

Perfil desinformante

Para muitos influenciadores candidatos a desinformação é uma estratégia de captação de seguidores antes e durante o período eleitoral.

“Terrivelmente cristão”, como são chamados os candidatos evangélicos da base de Jair Bolsonaro, o Pastor Junior Tercio (PP), candidato a deputado estadual por Pernambuco, é um velho conhecido por espalhar desinformação na radiodifusão e nas redes sociais.

Junto com a sua esposa, a deputada estadual Clarissa Tercio (PP), candidata a deputada federal, o pastor compartilha em suas redes discursos de ódio contra religiões de matriz africana, a população LGBTQIA+ e sustenta, desde o início da pandemia de Covid-19, um discurso contrário às medidas de prevenção adotadas pelos governos estaduais.

Em 2020, o candidato foi alvo de uma representação no Ministério Público de Pernambuco, encabeçada por Ivan Moraes e assinada pelo Intervozes, por uso da Rádio Novas de Paz para disseminar desinformação sobre vacina, uso de máscara e isolamento durante a pandemia. Nessas eleições, esses são os principais temas abordados na rede do casal de influenciadores com mais de 1 milhão de seguidores.

No Distrito Federal, a deputada Beatriz Kicis Torrents de Sordi, mais conhecida como Bia Kicis (PL), é candidata a reeleição e uma velha conhecida por espalhar notícias falsas nas redes. Ela foi acusada por cometer crime de racismo, tem uma representação na Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) por vazamento de dados pessoais e a plataforma Youtube chegou a suspender por sete dias o canal da deputada, por compartilhar conteúdos de desinformação sobre a vacinação infantil.

No período de campanha Bia não arrefeceu a prática de disseminação de conteúdos desinformativos e ataca, toda a vez que pode, as poucas medidas de moderação que as plataformas digitais incorporaram para identificar notícias falsas com o argumento da liberdade de expressão, comportamento apresentado em outras candidaturas bolsonaristas.

 

Tâmara Terso é jornalista e pesquisadora amefricana, integrante do coletivo Intervozes.

Os dados foram coletados a partir de um trabalho coletivo que envolveu a colaboração de Jonaire Mendonça, Iago Vernek, Iury Batistta, Mabel Dias, Nataly Queiroz, Paulo Victor Melo, Raquel Baster e Sheley Gomes. A pesquisa foi coordenada por Tâmara Terso e Olívia Bandeira.

 

[1] Quociente eleitoral é um cálculo feito com base no número total de votos em cada estado dividido pela quantidade de vagas que esse estado tem nas casas legislativas.

 

Este artigo faz parte da série Eleições 2022: a mídia como palanque. Leia outros textos da série aqui:
Apresentadores de programas policialescos apostam na reeleição
Políticos Donos da Mídia violam a Constituição e fragilizam a democracia

 



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