Israel, um país dominado por seu exército - Le Monde Diplomatique

Universo Político

Israel, um país dominado por seu exército

4 de julho de 2012
compartilhar
visualização

Em guerra quase permanente desde sua criação em 1948, o Estado israelense confere um espaço desmedido a seu exército. A influência militar excede a questão da segurança nacional para penetrar nos campos econômico, político e científico

O setor militar exerce em Israel uma influência que excede de longe os problemas de segurança. Tudo que se refere à vida cotidiana – distribuição de água, eletricidade, combustível, utilização de potencial humano, comunicação, transportes terrestres, aéreos e marítimos, assim como todos os serviços de um país desenvolvido – é planejado em estreita coordenação com os responsáveis pela defesa nacional, a fim de preparar constantemente o país para um eventual estado de urgência ou uma guerra.

Após cumprirem o serviço militar obrigatório (três anos para os homens, dois anos para as mulheres), todos os israelenses pertencem às forças de reservistas e, até os 55 anos, devem servir um mês por ano.

O exército estimula também a atividade industrial militar, por meio da qual se busca a independência em relação a países estrangeiros para evitar riscos de embargos. Além disso, está presente na indústria farmacêutica, de alimentação, de embalagens etc. e desempenha um papel primordial na pesquisa científica.1

Apesar da crise da economia israelense, a produção militar progride de forma espetacular. A venda de armas assegura um fluxo de divisas mais importante que o gerado pelos cítricos ou o diamante. Em 1981, alcançava um quarto das exportações, o que representa US$ 1,5 bilhão. Israel é, hoje, um dos grandes exportadores de armas. Seus principais clientes foram as ditaduras militares da América Latina (Chile, El Salvador, Guatemala, Argentina, Uruguai), a África do Sul e alguns países do Sudeste Asiático. A indústria aeronáutica tornou-se o setor que mais emprega no país, com 20 mil assalariados.

Orçamento militar

No que se refere às despesas militares por habitante, Israel está em terceiro lugar na lista mundial; mas, em relação aos gastos com educação, está na 19ª posição. Este ano,2o orçamento militar direto foi de 75 bilhões de shekels. Se a esse valor for somado o reembolso da dívida externa (essencialmente ligada às despesas militares) do ano fiscal em curso – 40 bilhões de shekels–, o capital destinado ao exército ultrapassa a metade do orçamento total do Estado (200 bilhões de shekels). Sem mencionar o auxílio militar norte-americano, que agrega a tudo isso cerca de US$ 3 bilhões por ano.

O setor militar exerce sua influência diretamente por meio do exército e do Ministério da Defesa ou indiretamente pelos milhares de oficiais da reserva que ocupam postos importantes em todos os setores. O exército autoriza o baixo escalão a se aposentar aos 40 anos, após quinze anos de serviço ativo. Essa medida evita a esclerose da instituição ao estimular o fluxo de sangue novo em todos os escalões da hierarquia. Muitos militares se tornam diretores de empresas governamentais ou privadas – industriais ou financeiras –, são eleitos prefeitos ou membros da Knesset [Parlamento israelense], nomeados ministros ou professores em universidades.

Os exemplos são muitos. Quatro deles são ex-chefes de aviação. O general Ezer Weizmann, ex-ministro da Defesa, hoje dirige a empresa de importação e exportação que trabalha para a aeronáutica; o general Mordechaï Hod administra a empresa KAL, especializada em transporte aéreo de mercadorias; o general Benyamin Peled, a grande empresa eletrônica Albit; o general Dan Tolkovsky, a empresa de investimentos que pertence ao grupo Discount, um dos três maiores bancos do país.

Relações com a política

Gavish e Gour, ambos generais, estão no topo do complexo industrial Kour da Histadrout. Eles substituíram o general Meïr Amit, ex-chefe de informações gerais, depois do Mossad.3Este último havia cedido seu posto antes de ser nomeado ministro no primeiro governo de Menahem Begin. Os métodos utilizados por esses militares em âmbitos civis não correspondem muitas vezes aos costumes complexos que regem as relações entre patrões e assalariados.

Os partidos políticos dão aos oficiais reservistas a opção de ocupar instâncias supremas em função do prestígio que possuem em Israel.4Às vésperas de eleições, eles tendem a apoiar os oficiais superiores reservistas. Não é tão comum, mas às vezes estes últimos se somam aos partidos do movimento trabalhista. Com o deslocamento à direita da sociedade após a guerra de 1967, essa tradição foi interrompida, e os generais – como Weizmann, Ariel Sharon e Shlomo Lahat, o prefeito de Tel-Aviv – passaram a pactuar com os partidos de direita (Herout e Partido Liberal), que hoje constituem o Likud. Quanto aos trabalhistas, o general Itzhak Rabin ascendeu ao posto de primeiro-ministro, enquanto a direção do partido foi confiada ao general Haïm Bar-Lev.

O exército e o setor militar pesam tanto sobre a vida da nação que os israelenses terminam ironicamente por se perguntar se Israel é um país que possui um exército ou se é o exército que possui um país.



Artigos Relacionados

O AGRO NÃO PRODUZ COMIDA, PRODUZ FOME

Por que podemos dizer que agro é fome?

por Yamila Goldfarb
O agro não produz comida, produz fome

As doenças do capitalismo e a luta contra o agronegócio

por Allan Rodrigo de Campos Silva
OPINIÃO

Por que Lula? Nem caserna, nem casa-grande

Online | Brasil
por Berenice Bento
AMAZÔNIA OCUPADA #3

Madeira da Amazônia: normas avançam, mas só 10% da extração é regular

Online | Brasil
por Felipe Betim
CHILE – LIÇÕES DE UMA DERROTA

Jogar o jogo: nove parágrafos para uma nova força transformadora

por Jorge Arrate
O RETUMBANTE TRIUNFO DO REJEITO NO PROJETO CONSTITUCIONAL

No Chile, o futuro que nos escapou

por Álvaro Ramis
QUAL É O PLANO?

Programa de Bolsonaro quase assume a responsabilidade pela tragédia na educação

por Antonio Carlos Souza de Carvalho
GUILHOTINA

Guilhotina #184 - Jorge Chaloub