Karol Conká e a “nova esquerda”: um prato cheio para conservadores

Opinião

Karol Conká e a “nova esquerda”: um prato cheio para conservadores

por Gabriel Petter
15 de fevereiro de 2021
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O que Karol Conká e seus companheiros de mansão com câmeras parecem não compreender é que suas ações servem apenas para “provar”, sobretudo na cosmovisão dos reacionários, que a “esquerda” é um amontoado de grupos numa guerra fratricida entre si

Talvez uma das maiores controvérsias das forças políticas brasileiras desde a redemocratização seja a definição de uma agenda mínima, um pacto em prol de um país inegavelmente rico, mas ainda marcado por uma profunda desigualdade social. Uma agenda que vise, sobretudo, as populações historicamente marginalizadas, as quais compõem a ampla maioria do povo brasileiro.

Contudo, até hoje, tudo o que os mais poderosos grupos midiáticos do país ainda reverberam, em termos de “interesses nacionais”, não passa do velho abecedário do neoliberalismo, que fez a festa na América Latina especialmente entre as décadas de 1980 e 1990, destacando a necessidade de “reformas” que amiúde retiram direitos e benefícios, e de privatizações que têm por finalidade a diminuição do Estado – para os mais pobres, claro.

Até a pandemia do novo coronavírus, esse parecia ser o novo “consenso” das forças políticas no comando do país. Não esqueçamos que o empoderado Michel Temer pré-gravação de Joesley Batista nos legou a Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017) e a chamada PEC da Morte, que resultou na Emenda Constitucional 95, a qual determinou o congelamento de investimentos públicos em áreas como saúde e educação por duas décadas. E embora Jair Bolsonaro não fosse propriamente o candidato do establishment em 2018, a incorporação de Paulo Guedes a sua equipe ministerial serviu como uma espécie de carta de boas intenções ao mercado. A prisão de Lula – hoje, suspeita-se, com razão, fruto de ação parcial daqueles que o acusaram e julgaram – e a desmoralização das esquerdas tradicionais indicava que, sim, estávamos no rumo de uma “democracia liberal”, ainda abalada por um golpe, mas inquestionável nos seus fundamentos.

Todavia, os novos donos do poder esqueceram de combinar o nosso processo de liberalização com o novo coronavírus. É durante os momentos ruins que descobrimos de fato com quem podemos contar. E boa parte dos brasileiros percebeu, da maneira mais amarga, que não poderiam apelar para Bolsonaro, mais preocupado com a sua reeleição e em espalhar fake news. Para além das centenas de milhares de mortos, da retração do PIB e do relacionamento deliberadamente conflituoso com os Estados Unidos pós-Trump, a China, a Argentina e a União Europeia (basicamente, nossos maiores parceiros comerciais), os cidadãos, atônitos como estão, parecem ter perdido a capacidade de transformar a sua indignação numa ação politicamente organizada e efetiva, e não numa “militância” vazia de rede social que objetiva, antes de tudo, atrair a atenção para os “influenciadores” e não para aquilo que realmente importa. Eis o drama do que é identificado como esquerda contemporânea, marcado por um hiperidenditarismo que fragmenta qualquer proposta política unificada que não vise apenas reivindicações legítimas, mas pontuais, de negros, feministas, LGBT’s e outros grupos que são assimilados – às vezes por pura oposição à extrema-direita – à velha esquerda político-partidária, mas que, na verdade, se lança cada vez mais numa guerra fratricida que apenas fortalece conservadores e reacionários no outro lado do espectro político-partidário.

Cantora e participantes do Big Brother Brasil Karol Conká (Foto: Divulgação/Globo)
Big Brother Brasil

O caso de Karol Conká é emblemático, nesse sentido. Para quem achou que a popularização da internet enterraria os programas de TV, o Big Brother Brasil está na sua vigésima-primeira edição – com ótima audiência, diga-se de passagem. E ao longo desse tempo, continua a pautar a sociedade, especialmente sobre aquilo que realmente não importa. Sim, ela pode ter se comportado de forma, digamos, eticamente questionável em relação a alguns dos seus colegas de confinamento, mas seu exercício de “cancelamento” de outrem ou sua suposta xenofobia dizem pouquíssimo a respeito daquilo que vai (muito) além das bolhas das redes sociais, mas que interessam, diretamente aos patrocinadores do jogo.

Conforme Stanley Aronowitz (1989), dentre os elementos que constituem as identidades individuais e coletivas, o sensório tecnológico, que chamamos de cultura de massas, é um dos mais poderosos. Filmes e outros produtos audiovisuais são tão influentes porque suas narrativas nos fornecem, de certa forma, a possibilidade de transcendência, ainda que imaginária, das regras, as quais permanecem, no entanto, exatamente as mesmas, com algumas pequenas concessões. E essa relação há muito ultrapassou a pura catarse, transformando-se em elemento de manipulação política, algo tremendamente potencializado pela popularização da internet, dos smartphones e pelo advento das redes sociais. É sintomático, nesse sentido, que numa das discussões entre os “brothers”, Karol Conká tenha comentado que estava preocupada em manter seus milhões de seguidores – ela parece ignorar que seu comportamento a fez perder algumas centenas de milhares, assim como contratos para apresentações, numa retaliação de cunho moralista que faz a festa de uma juventude completamente alienada acerca do que orienta e inspira essas decisões – que, aliás, nada têm a ver com o apreço aos valores democráticos.

Ao mesmo tempo em que Karol cabe como uma luva para impingir à “nova esquerda” aquilo que ela parece ter de pior, um dos participantes do jogo desiste da disputa após ser questionado por ter beijado outro homem. E esse fato, banal por sua própria natureza – o que há de mal no beijo entre duas pessoas do mesmo sexo? –, traz toda uma onda de indignação cujo (falso) background político é a liberdade sexual. Obviamente que o direito de se ligar afetivamente a pessoas do mesmo sexo é legítimo e inalienável. Ainda mais num país no qual centenas de pessoas LGBTQIs são assassinadas todos os anos em função do preconceito contra sua orientação sexual. Mas não é exatamente as travestis e transexuais que são marginalizadas do mercado de trabalho – muitas delas vendo-se obrigadas à prostituição – o que se visa nessa falsa apologia à “toda forma de amor”. Trata-se apenas de movimentar os afetos, agitar as massas, “polemizar”, desvirtuando completamente o sentido do termo polemos, precursor da dialética. Falamos aqui apenas de discussão vazia, do acirramento de posições que engaja telespectadores contra um ou outro boy ou sister e faz a festa do conglomerado de empresas que investiram seus milhões no reality show.  

O que Karol Conká e seus contraditórios companheiros de mansão com câmeras parecem não compreender é que suas ações, longe de constituírem qualquer tipo de afirmação política, servem apenas para “provar”, sobretudo na cosmovisão dos reacionários, que a “esquerda” é isso: um amontoado de grupos numa guerra fratricida entre si, um bando de narcisistas e alienados preocupados em “lacrar”, sem qualquer plataforma política coesa a não ser a autopromoção. Para piorar, no terreno da maior inimiga do governo federal no campo das comunicações, ambos com um histórico não muito glorioso de apreço à democracia.

A verdade é que essa edição do Big Brother Brasil é excelente para o bolsonarismo. Mas não apenas para ele. Não esqueçamos que por trás de todo o “progressismo” das Organizações Globo, o que ainda é difundido e defendido nos seus editoriais vai de encontro aos reais interesses do povo brasileiro. Lembremos que o conglomerado da família Marinho foi um dos maiores entusiastas do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff e teceu elogios às medidas “impopulares” do governo Michel Temer. Oferecer o palco para o sacrifício do próprio performer é uma jogada de mestre, que não parece ter sido elaborada fortuitamente. O espetáculo deprimente apresentado por essa “nova esquerda” vai influenciar uma geração a rejeitar pessoas como Karol Conká ou Lumena, a psicóloga autodeclarada lésbica que se indignou com o beijo homossexual do seu colega de casa. Por outro lado, a levará a eleger apenas representantes “raiz” desse esquerdismo identitário e centrado no próprio umbigo, que parece não muito preocupado em transformar as estruturas sociais e econômicas que levam à desigualdade e à exclusão.

E se a juventude “engajada” entronizará essa esquerda como ingênua alternativa a um modelo socioeconômico essencialmente desigual e excludente, os conservadores e a extrema direita também não têm do que se queixar. Velhos protagonistas e aspirantes a novos atores políticos já se articulam há alguns anos para abraçar causas progressistas como a descriminalização do uso de algumas drogas ilícitas, o direito ao aborto e a união civil de casais do mesmo sexo, além de políticas de inclusão de negros e pardos nas universidades públicas e no mercado de trabalho. Esses “fados e fadas sensatos”, no entanto, não abrem mão dos fundamentos da “democracia liberal”. Se falam de distribuição de renda, isso deve vir do crescimento econômico. Se falam em modernização do Estado, isso corresponde à venda do patrimônio público à iniciativa privada. Para os reacionários, é quase um deleite assistir à presente edição do Big Brother Brasil. É quase como flagrar um probo senador cujo pai foi eleito na base do discurso anticorrupção ser pego num esquema de rachadinha. A guerra cultural promovida pelo bolsonarismo sairá completamente vitoriosa. Seu projeto de país, por incrível que pareça, ainda é mais coerente do que o dessa denominada esquerda que participa de reality shows e prefere gastar sua munição com seus próprios (supostos) companheiros de luta.

Claro, as contradições sempre acompanharam a esquerda brasileira. A respeito desse tema, é fundamental ler o extraordinário Revolucionário e Gay (2018), de James Green, biografia do heroico ativista brasileiro Herbert Daniel (1946-1992), homossexual que teve de esconder a sua orientação sexual dos seus companheiros de luta no Araguaia, por medo da discriminação. No seu eterno afã proselitista, os partidos de esquerda brasileiros sempre buscaram englobar diferentes grupos identificados como oprimidos, sem questionar, no entanto, a opressão que os mesmos amiúde exerciam uns contra os outros, suas contradições, e, sobretudo, a falta de um projeto político unificado, que contemplasse outras formas de discriminação e marginalização, sobretudo econômica.

Infelizmente, para os mais de duzentos milhões do outro lado da tela, a realidade se impõe como um desafio cotidiano. Não bastasse as centenas de milhares de óbitos provocados, principalmente, pela indiferença absurda do atual chefe do Executivo, a pobreza, o desemprego e a cada dia mais consistente ameaça à ordem democrática, as alternativas políticas que se desenham no horizonte não são nada animadoras. Entre um liberalismo que abraça algumas causas progressistas e um esquerdismo infantil, o discurso de ruptura é monopolizado pela extrema-direita, e Jair Bolsonaro, caso não caia antes, tende a repetir os passos do seu ídolo Donald Trump, que incentivou uma fracassada tentativa de golpe no apagar das luzes do seu mandato. As eventuais vitórias do público que milita nas redes com a saída do seu brother ou sister mais odiados não expurgarão nem um pouco os fantasmas que nos rondam e assediam diariamente. Estamos caindo lenta e perigosamente no fundo do poço.

Gabriel Petter, licenciado em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará e mestre em Educação Brasileira pela mesma universidade, tem formação em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual da Vila das Artes.



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