Lições de Clausewitz para Trump
Em um cenário internacional marcado por tensões constantes, a guerra segue ocupando lugar central nas manchetes e nas disputas geopolíticas do século XXI. Longe de ser um fenômeno puramente militar, os conflitos armados revelam, sobretudo, decisões políticas, interesses estratégicos e leituras – muitas vezes equivocadas – da realidade
Abrir o jornal e se deparar com mais uma notícia de guerra é algo a que o cidadão do século XXI já se habituou. Este ano, o conflito entre Estados Unidos e Irã ocupou as manchetes. A investida militar contra o Irã e as dificuldades enfrentadas pelo país norte-americano em seu novo feito, mostra a importância de se refletir sobre os conflitos armados.
A guerra é a continuação da política por outros meios. A frase é de Carl von Clausewitz, general prussiano e um dos mais importantes teóricos militares da história, e apresenta uma de suas principais contribuições para o campo. Na guerra, substitui-se a pena das notas diplomáticas pela espada – mas a guerra permanece sempre subordinada à política. Um resultado importante dessa lógica é que erros de análise política dificilmente se corrigem no campo de batalha.
Uma forma de entender a ação dos EUA é saber que viam no país persa um cenário semelhante ao da Venezuela, de instabilidade social e econômica, com protestos recorrentes no país. O sucesso da operação que sequestrou o então presidente Nicolás Maduro pode ter encorajado novas ações semelhantes. Instalou-se uma liderança subserviente aos interesses geopolíticos dos EUA na região, viabilizando a exploração de recursos como o petróleo, citado repetidamente por Trump nos dias seguintes à operação na Venezuela. Um resultado favorável.
Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel lançaram uma nova ofensiva contra o Irã. A operação teve como alvos estruturas militares, autoridades nacionais e comandantes militares, com o objetivo de uma mudança de regime no país. No dia do ataque, Donald Trump apareceu em um pronunciamento dirigido à nação iraniana, encorajando a população que acabara de bombardear a “tomar o governo”, confiante em que a instabilidade social e econômica pela qual o Irã vinha passando poderia abrir espaço para um novo projeto nacional e que só era preciso derrubar a primeira peça de dominó: o assassinato do líder supremo Ali Khamenei.
A operação foi batizada por Israel de “Rugido do Leão” e teve esse nome como um desdobramento da operação “Leão Ascendente”, empreendida durante a Guerra dos Doze Dias, em junho de 2025. No período, Israel lançou uma ofensiva militar contra o Irã, que teve como alvo principal o programa nuclear do país e atacou sistemas de defesa, instalações de enriquecimento de urânio e cientistas do programa.
Nesta guerra, o Irã demonstrou suas capacidades militares – de um país que transformou décadas de embargos em formas próprias de autonomia industrial e tecnológica – e os contornos de uma doutrina militar cujo princípio de resistência ativa contra agressões vem se tornando cada vez mais notório. Os armamentos iranianos demonstraram capacidade para burlar o sistema de defesa aérea de Israel, concebido majoritariamente para interceptar foguetes de curto alcance disparados do território palestino, como os Qassam, mas menos eficaz contra mísseis balísticos e de cruzeiro iranianos, e menos eficiente ainda diante de mísseis hipersônicos como o Fattah-1, produzido pelo Irã.
Ainda em 2025, os custos do envolvimento no conflito se apresentaram. Os armamentos israelenses são dispendiosos e o país alertava os EUA sobre seus estoques, tornando inevitável o envolvimento dos EUA no envio de armas e apoio militar. No campo social, os alarmes de guerra ressoando cotidianamente em Israel e os ataques que conseguiam atingir cidades como Tel-Aviv, com bairros inteiros correndo para abrigos antiaéreos, sinalizavam um desgaste crescente para Netanyahu. Com um Donald Trump relutante em garantir apoio incondicional a Israel, os países negociaram um cessar-fogo que permitiu uma pausa para que ambos os lados se recompusessem. Mas o Irã se viu atingido por uma nova onda de violência, desta vez interna, com protestos que irromperam em janeiro de 2026 e foram violentamente reprimidos, deixando milhares de mortos em uma escalada de violência.
Novos ataques militares em fevereiro contra os líderes iranianos poderiam parecer, para um olhar mais desavisado, o cenário perfeito para uma mudança de regime.
Contudo, mesmo com o assassinato de Ali Khamenei e outros tantos comandantes militares, o que parece ter ocorrido é uma resposta firme do país contra intervenções estrangeiras e uma onda de demonstrações de resistência da população iraniana.

Outra falha dos EUA foi apostar no alinhamento automático de países europeus – em especial numa resposta via OTAN – o que nunca ocorreu. O que se viu foram chefes de Estado em declarações titubeantes, receosos de se envolverem diretamente na ofensiva. As relações vinham estremecidas pelas políticas tarifárias de Trump contra a União Europeia e por sua postura agressiva nas relações com esses países.
A reação política e militar do Irã confirma os preceitos de Clausewitz. Uma guerra não pode ser medida apenas pelas capacidades técnicas das partes envolvidas (os arsenais), senão também pelas diferentes formas estratégicas que o emprego do aparato militar pode assumir. A resposta iraniana à ofensiva dos EUA em 2026 foi descentralizada, descrita como “Defesa Mosaico”, fragmentando o comando e lançando-se contra bases e alvos militares pela região – como Iraque, Emirados Árabes e Kuwait –, além de desafiar os EUA a seguirem arcando os esforços de guerra, assunto sensível para os eleitores de Trump. A estratégia utilizou os pontos fortes do poder militar norte-americano contra ele mesmo: seus custos, exaurindo seus recursos enquanto atacava infraestruturas críticas. Essa dinâmica tem a capacidade de impor uma derrota tanto no campo militar quanto no político, ou ao menos forçar uma mesa de negociações mais equilibrada.
O comandante geral dos EUA reafirmou a conquista dos objetivos militares do país: a destruição da marinha iraniana, de estruturas do sistema de defesa aérea e o enfraquecimento da base industrial bélica. Mas o maior objetivo desta ofensiva, que é um golpe definitivo contra o regime dos aiatolás e uma mudança de liderança favorável ao projeto dos EUA para a região, segue fora de alcance. Na prática, mesmo com o enfraquecimento de sua capacidade militar, o Irã reforçou sua posição estratégica no controle do Estreito de Ormuz, forçando os EUA à mesa de negociações, e não o contrário.
A crença de que a superioridade tecnológica permitiria controlar os resultados da guerra ignora exatamente aquilo que Clausewitz enfatizava: a guerra é um campo de incerteza, de alta fricção e submetida à arena política – não um sistema passível de otimização técnica. Foi o general prussiano quem melhor apontou as dimensões subjetivas que devem ser consideradas por comandantes e estrategistas na arte da guerra. A moral e a resiliência de um adversário são aspectos difíceis de integrar nos algoritmos decisórios e nas estatísticas usadas para avaliar as chances de vitória.
Segundo Clausewitz, a guerra é a continuação da política por outros meios. A primeira está sempre subordinada aos interesses da segunda, pois a política é sempre o fim e a guerra é o meio. Os objetivos dos EUA ao lançarem-se no conflito se mostraram difusos: não está claro qual interesse direto americano estava em jogo ou como o país iraniano representava uma ameaça imediata. As declarações sobre o programa nuclear iraniano tampouco foram suficientes para convencer uma comunidade internacional a se aliar à ofensiva ou declarar apoio irrestrito. A primeira decisão estratégica nunca é militar, mas política: compreender com profundidade e dimensão o contexto em que se lança.
A iniciativa Trump de ataque ao Irã demonstra fragilidades de sua análise da conjuntura que não podem ser corrigidas no campo de batalha, tal qual atestava Clausewitz. Para o prussiano, a guerra é menos parecida com um jogo de tabuleiro e mais como um jogo de baralho. Aqui, não era apenas Trump dando as cartas. Um ator fundamental foi Israel, que pressionava a ação dos EUA a partir de ataques contra o Líbano, minando as chances de uma negociação proveitosa com o Irã. Foi apenas com o recuo de Netanyahu que foi possível acordar sobre o que virou o ponto-chave da guerra: a reabertura do Estreito de Ormuz.
Essa paisagem militar do século XXI sugere que iremos seguir nos deparando com situações de conflito armado e disputas geopolíticas. Por isso, cabe resistir à tentação de olhar para o meio militar como um problema técnico, de superioridade tecnológica. As dimensões históricas e sociais são também fatais. Para pensar os cenários de guerra, importa perseguir a política.
Marianna Deus Deu é doutora em Relações Internacionais e pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES).


Excelente análise.