Mais inteligência para matar - Le Monde Diplomatique

ARMAMENTOS

Mais inteligência para matar

por Jean Paul Hébert
1 de outubro de 2010
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Se por um lado a tecnologia abre novas perspectivas para matar com mais precisão, por outro, não consegue superar os desafios delidar com insurreições populares nem reduzir a morte de civisJean Paul Hébert

O século XX conheceu cerca de 140 conflitos: dois deles foram “mundiais” e 15 resultaram em mais de um milhão de mortos. Contam-se 25 antes de 1939 e 115 a partir de 1945. Até o fim da Guerra Fria, o ritmo se acelerava de acordo com os “progressos” na invenção de novos armamentos, cada vez mais caros e sofisticados. Depois de 1991 e da queda da União Soviética, os conflitos entre Estados passaram a dar lugar a guerras civis. 

  

Em torno da Primeira Guerra Mundial forjaram-se características que se desenvolveram nas décadas seguintes. A produção de armamento adquiriu seu caráter industrial de massa: por exemplo, entre 1914 e 1918, a França fabricou 51.700 aviões, envolvendo 1, 8 milhão de pessoas na produção de guerra. 

Esse momento marcou a entrada na terceira dimensão, ao mesmo tempo no ar, com os aviões, e na água, com os submarinos. A mecanização, por meio dos tanques, revolucionou a cavalaria. As comunicações, essenciais para conduzir os tiros de artilharia, não se faziam mais por estafetas e cornetas, mas por telefone – 30 mil deles estavam em uso no fim de 1918. 

  

Ele também definiu a largada da corrida pelo gigantismo (calibres, tonelagens, ritmos de tiro das metralhadoras) e pelas “novas” armas (químicas). Todas essas características foram levadas ao apogeu no conflito seguinte: a Segunda Guerra Mundial. 

  

A derrota russa para o Japão em 1905 já havia marcado um primeiro questionamento das potências tradicionais e a primeira derrota do “homem branco”. Nas guerras de resistência colonial entre 1918 e 1939, os revoltosos, por vezes, conseguiam garantir batalhas, mas não a vitória total (Guerra do Rif1). As guerras civis distinguiam-se por sua rudeza (na Rússia, na China), enquanto a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) prefigurava o grande enfrentamento de 1939-1945. 

  

As armas químicas foram usadas maciçamente durante a Primeira Guerra Mundial e, desde então, já faziam vítimas civis. Seu uso foi estendido durante as guerras coloniais – pelos britânicos no Iraque, e pela Itália na Líbia. Guernica2 inaugurou os bombardeios aéreos em grande escala sobre o Velho Continente, prática que foi generalizada ao longo do segundo conflito mundial, levando ao limite o desenvolvimento das armas clássicas. 

  

Os armamentos inventados a partir de então aceleraram a mudança: radar, foguete antitanque, pistola metralhadora, metralhadora pesada, lança-chamas, bomba incendiária, bomba superperfurante de 10 toneladas, primeiros aparelhos teleguiados, mísseis (V1 e V2), sonar, dispositivo infravermelho, sistemas de detecção eletromagnética etc. A dimensão industrial continuava mudando de escala. A Alemanha, o Reino Unido e a URSS produziram cerca de 100 mil aviões cada. Só os Estados Unidos fabricaram 320 mil. Das linhas de montagem estadunidenses saiam também dois milhões de caminhões, a mesma quantidade de jipes e 220 mil blindados. Os bombardeios em massa sobre as cidades assumiam uma amplitude inédita – lembremo-nos de Londres e Dresden. E, por fim, as duas bombas atômicas lançadas sobre o Japão colocaram o mundo na era nuclear e sob a marca do terror. 

  

Após a Segunda Guerra Mundial, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e o Pacto de Varsóvia se viram sob ameaça nuclear. Washington e Moscou acumulavam 30 mil ogivas estratégicas e 20 mil ogivas táticas, suficientes para destruir diversas vezes o planeta. Isso congelou os conflitos na zona europeia, que separava os dois rivais, mas o deslocou para a periferia, regiões que seriam chamadas de Terceiro Mundo. O enfrentamento ideológico atravessava as guerras de libertação nacional, sobretudo na Indochina. 

  

Esses conflitos constituíram campos de testes para as novas armas e suas doutrinas de uso: na Argélia, a França utilizou helicópteros e os princípios da guerra “contrarrevolucionária”, tentando responder aos estrategistas chineses ou vietnamitas da guerra “revolucionária”. No Vietnã, a força aérea estadunidense utilizou pela primeira vez as bombas “inteligentes” (guiadas com precisão) e organizou o uso em grande escala de armas químicas (agente laranja3). A guerra de junho de 1967 no Oriente Médio inaugurou os primeiros mísseis antinavio. 

  

A queda da União Soviética deu início a um período de desordem. A partir desse momento, os conflitos escaparam a qualquer controle e, cada vez mais, as guerras civis substituíram as disputas entre Estados. Paralelamente, com a Guerra do Golfo (1991) e as “guerras humanitárias”, foram aperfeiçoados os mísseis antimíssil, os mísseis de cruzeiro e generalizaram-se as munições guiadas com precisão, os famosos “ataques cirúrgicos” – que nem por isso poupavam civis. Seja contra a Sérvia (1999), o Afeganistão (2001) ou o Iraque (2003), a desproporção das forças era tal que o resultado foi evidente, mesmo que os exércitos vitoriosos não fossem necessariamente capazes de garantir o controle dos “vencidos”. 

  

No Oriente Médio, experimentavam-se continuamente as técnicas de guerra urbana: armas de terror contra populações não combatentes (bombas de fósforo, bombas de dardos, explosivos Dime etc.), o uso de escudos humanos, escavadeiras gigantes, passagem pelas paredes das casas, utilização de drones de vigilância e ataque4, mapeamento social por satélite, controle da informação, assassinatos de alvos específicos etc. Essas técnicas tornaram-se indispensáveis nas guerras conduzidas pelas tropas ocidentais no Afeganistão e no Iraque, já que os materiais ultrassofisticados inventados para enfrentar o Exército Vermelho revelaram-se frequentemente inoperantes. Em compensação, os rebeldes utilizavam técnicas rudimentares, mas eficazes, como os Improvised Explosive Device (IED, dispositivo explosivo improvisado), enterrados ao longo das estradas ou, claro, os atentados suicidas. Para responder a isso, os Estados Unidos se serviam cada vez mais dos drones e do assassinato de alvos “terroristas”, sempre sob o risco de, por engano, matar civis. 

  

O preço das armas explodiu: o custo do bombardeiro B2 ultrapassou o orçamento militar anual de 122 países. Com isso, também aumentou a concentração das despesas militares: os Estados Unidos representam metade de todas as despesas mundiais e somente dez Estados demandam três quartos delas. A vigilância espacial generalizada, as armas de energia dirigida e os veículos não tripulados abrem novas perspectivas para matar mais longe, mais rápido e com custo maior. 

Jean Paul Hébert era pesquisador do Centro Interdisciplinar de Pesquisa da Paz e dos Estudos Estratégicos, faleceu em 21 de julho de 2010.



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