GOVERNO LULA 3

Melhor momento de Lula revela o que a esquerda pode ser hoje

Lula se mostra à altura da tarefa de mostrar o que a esquerda pode ser e como ela pode recuperar vigor através de pautas populares

Depois de meses na defensiva, sem agenda clara, sem grande capacidade de mobilizar sentimentos, valores e grupos da sociedade, o governo Lula parece ter saído finalmente das cordas. Ainda que a avaliação do governo permaneça negativa e até pior em alguns indicadores do que no início da gestão, este é, paradoxalmente, o seu melhor momento político. Há poucos meses, o governo voltou a pautar o debate público, a engajar aliados e até a despertar a simpatia de setores que estavam distantes. É natural que Lula tenha passado um longo período acuado. Essa é a primeira vez que o presidente enfrenta, na oposição, um movimento político de massas, com programa, lideranças, apelo popular e base social consolidada. Nos mandatos anteriores, havia resistência das elites política e econômica, mas não uma força estruturada como a extrema-direita se tornou. Isso muda as condições do jogo e ajuda a explicar por que retomar a iniciativa e a combatividade da esquerda nesse momento tem tanta importância. 

Os motivos desse novo fôlego não são triviais. Eles apontam para um caminho possível para uma esquerda que, em praticamente todo o mundo, pena para recuperar o vigor perdido e reconstruir uma relação prioritária com as classes populares. Dois movimentos recentes do governo Lula são emblemáticos de uma estratégia que parece acertada nesse sentido. Primeiro, a disputa distributiva em torno das mudanças no IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), da reforma do Imposto de Renda, da imposição sobre fundos e das isenções tributárias para grandes empresas. Segundo, a reação assertiva em relação ao tarifaço aplicado por Donald Trump às exportações brasileiras. 

Em ambos os casos, o governo soube aproveitar oportunidades que caíram praticamente no seu colo. Ao explorar a disputa acerca de mudanças na alíquota do IOF no Congresso, Lula promoveu, no fundo, um debate sobre quem deve pagar as contas do Estado, se essa carga deve recair sobre os mais pobres ou sobre os mais ricos. Ao fazer isso, o governo recuperou um terreno fundamental para a esquerda: o da defesa de um modelo de sociedade em que os privilegiados contribuem mais do que os trabalhadores e as classes médias para os gastos públicos. Esse nunca foi o caso no Brasil, em que historicamente a conta sempre recaiu sobre os mais pobres, seja pelo peso do consumo tributado, seja pela baixa ou inexistente taxação sobre grandes fortunas, lucros e dividendos. Enquanto isso, empresas bilionárias, fundos de investimento e os super-ricos se beneficiam de inúmeras renúncias fiscais e isenções de impostos. Quando o conflito é apresentado de forma clara, como deve ser, não é difícil contar com o apoio de amplas parcelas da sociedade. 

Já o tarifaço tem outra natureza, mas não menos relevante. O aumento de tarifas foi, em parte, consequência das manobras do núcleo duro do bolsonarismo para tentar livrar Jair Bolsonaro da prisão por tentativa de golpe de Estado. Para isso, contaram com a vaidade de Donald Trump, ávido por qualquer demonstração de força, e com o desespero norte-americano diante da ascensão da China e de outros atores que desafiam a ordem internacional forjada sob a hegemonia econômica e geopolítica dos Estados Unidos. 

Lula poderia ter recuado, alterando as alíquotas por receio dos efeitos econômicos e das pressões do mercado e do setor produtivo. Mas fez a escolha contrária. Transformou a medida em oportunidade não apenas de responsabilizar os Bolsonaro por um ataque aos interesses econômicos brasileiros, mas também de reabrir o importante campo simbólico do patriotismo e da proteção nacional. 

Ao criticar frontalmente o arroubo imperialista de Trump e assumir a defesa do povo brasileiro contra a covardia da família Bolsonaro e os interesses estrangeiros, a esquerda conseguiu se reapropriar de uma narrativa que a direita vinha monopolizando há algum tempo. O tarifaço, que poderia significar um golpe à autonomia nacional e à economia do país, foi ressignificado como um embate capaz de mobilizar sentimentos de soberania e pertencimento. O Estado, novamente governado por uma liderança de esquerda, reaparece como protetor do povo diante de interesses externos e de uma elite a eles associada. 

a esquerda
Crédito: Isaac Ribeiro/Flickr

Temas como esses ficaram, em grande medida, fora das prioridades de uma parcela importante da esquerda que, ao longo das últimas décadas e em diferentes partes do mundo, foi adquirindo contornos cada vez mais “societais” – ou pós-materiais. Dois termos que designam um deslocamento: a perda da centralidade que antes tiveram, para movimentos e organizações de esquerda, as pautas econômicas – como trabalho e distribuição de renda – em favor de uma ênfase crescente em agendas de ordem cultural e comportamental. 

São pautas absolutamente legítimas e urgentes, mas que, quando tratadas de forma isolada, dificultam a sustentação de um projeto popular capaz de mobilizar amplas maiorias. Além disso, estimulam um societalismo de viés individualista, no qual os apoiadores se movem mais pela expressão de si mesmos do que pela transformação da realidade coletiva. 

É evidente que o problema da esquerda não está na defesa dos direitos de grupos historicamente oprimidos – que deve continuar a orientar programas e preocupações progressistas. O ponto é que a centralidade assumida por certas pautas societais tem favorecido uma direita que, ao priorizar a relação com setores populares, empenha-se em empurrar para a margem do debate público justamente os temas econômicos e de proteção social, tão caros a esses mesmos grupos. 

À medida que a parte mais dinâmica da base social de esquerda foi se deslocando para setores médios, urbanos e ilustrados, as próprias organizações de esquerda foram se transformando. Especialmente nos países ricos, mas não só, a força hegemônica na esquerda ganhou contornos de uma tecnocracia liberal que privilegia soluções técnicas e de mercado, de um lado, e tira do centro do seu discurso e do seu programa o conflito distributivo, de outro. Com referência às ideias de eficiência, ajuste e inovação, perde relevância na identidade de esquerda aquilo que tem condições de mover as maiorias no longo prazo: a vida material, o emprego, a renda, o preço dos alimentos, a estabilidade e a segurança. Como alternativa a esse movimento de partidos tradicionais de esquerda rumo ao centro, convergindo com a agenda econômica neoliberal, viu-se muitas vezes um radicalismo sectário que tampouco oferece respostas para que o campo progressista se reconcilie com as classes populares. A retórica de pureza e intransigência, muitas vezes descolada da realidade concreta da população, é incapaz de criar qualquer tipo de laço entre um programa, uma organização, um líder e os trabalhadores. Seu horizonte é idealizado, mas vazio. Fala apenas a convertidos, é incapaz de atrair aqueles que vivem em condições precárias e não se deixam contagiar por slogans pretensamente radicais nas redes sociais. Esse dilema – entre uma tecnocracia liberal sem apelo popular e um radicalismo estéril – fragilizou a esquerda mundo afora nos últimos anos e a afastou de boa parte de sua histórica base popular. 

Como ilustra o bom momento vivido pelo governo Lula, a saída possível para uma esquerda que seja “pós-societal” e diretamente vinculada a camadas populares parece residir na combinação entre economia e proteção. Com efeito, não se vê mais entre as classes médias e conservadoras o consenso econômico neoliberal que avançou a partir das décadas de 80 e 90. Pelo contrário, no plano internacional, líderes como Donald Trump têm mostrado que a extrema direita não se apega à ortodoxia neoliberal e cresce justamente atacando o livre mercado. Em diferentes países, populistas de direita abandonaram o discurso liberal ortodoxo e passaram a defender intervenção estatal, medidas de proteção ao trabalhador nacional e uso do Estado como ferramenta de competição geopolítica. Ou seja, a extrema-direita, protagonista no cenário político global, descolou a agenda conservadora nos costumes do liberalismo político e econômico por tanto tempo defendido pela direita tradicional. 

Fora do mercado financeiro e dos grandes veículos de comunicação que reproduzem o dogma neoliberal, é difícil encontrar hoje amplo apoio a um capitalismo selvagem, desregulado e que aprofunda desigualdades. A opinião pública tem evoluído em relação ao debate econômico e a justiça de mercado, em que cada um vive de acordo com seu próprio esforço, tem perdido espaço para ideias de justiça social, que justificam mecanismos coletivos de redistribuição de oportunidades e condições materiais e simbólicas. Muitas vezes confundimos a adaptação às novas relações de trabalho – como a adesão subjetiva de trabalhadores de aplicativos a um modo de trabalho que privilegia a flexibilidade, a autonomia e isenta o capital e o Estado de assegurarem direitos – com adesão ao neoliberalismo.  

É importante registrar, porém, que a valorização de outros tipos de relação de trabalho que não o tradicional não significa necessariamente uma opção ideológica. Trata-se muito mais de escolhas pragmáticas para a ampliação das condições de sobrevivência. Quando a alternativa ao trabalho por aplicativo é o desemprego ou um trabalho com carteira assinada precarizado e mal remunerado, a escolha pelo “autônomo” está diretamente ligada às vantagens percebidas em relação à renda e ao uso do tempo. Isso não significa que a ideia de desproteção esteja consolidada como consenso social. Hoje, o que divide as classes populares e médias ideologicamente não é o debate econômico, mas temas de ordem social e cultural, explorados a todo momento pela extrema-direita. 

Diferente do Norte, em que o deslocamento de programa e de base social da esquerda avançou a passos largos desde a década de 70 do século passado, no Sul global, em economias mais pobres, esse movimento sempre esbarrou em uma sociedade cuja maioria da população espera do Estado um nível importante de proteção e um compromisso com o combate às desigualdades. Seria difícil para a esquerda se manter competitiva em pleitos majoritários se aderisse a uma versão societal sem restrições. O próprio lulismo, entendido como fenômeno político que ofereceu aos primeiros governos Lula o seu apogeu em popularidade, sempre esteve associado a uma economia pujante e a um Estado que promove o desenvolvimento ao mesmo tempo em que protege os mais vulneráveis e garante estabilidade social. Uma fórmula que teve grande sucesso, mas foi corroída por denúncias de corrupção e, especialmente, por uma crise econômica que abriu espaço para uma contestação que viesse das margens do poder e da sociedade. Com efeito, a ascensão do bolsonarismo, depois de um momento de importante turbulência política e social, deslocou a disputa política para o campo dos costumes e da segurança. Ao empurrar parte da esquerda para esse terreno, aflita em responder aos absurdos que vinham do crescente movimento reacionário, Bolsonaro e o bloco que ele arregimentou conseguiram enfraquecer a conexão de setores populares com uma esquerda que parecia alheia à agenda distributiva e nacional. 

Aproveitando a comparação entre o Brasil e os países do centro do capitalismo, cabe aqui mais um paralelo. No Norte, seja nos Estados Unidos ou na Europa Ocidental, a imigração se tornou, nos últimos anos, o tema central do debate público. Basta ver a última campanha de Donald Trump e as medidas que tem tomado desde o início de seu governo para expulsar imigrantes do país ou a evolução da xenofobia em toda a Europa. A esquerda que sobreviveu e cresceu em meio a esse cenário foi aquela que soube revisar posições mais intransigentes quanto à entrada ilimitada de imigrantes no território nacional, aceitando algum grau de regulação dos fluxos migratórios para reconectar-se com o senso comum contrário à vinda massiva de novos habitantes. Aqui, a mesma centralidade no debate político pode ser encontrada no tema da violência e da segurança pública. Se lá a extrema-direita avança explorando a suposta condescendência da esquerda com a chegada expressiva de pessoas vindas de outros países, aqui o populismo reacionário não cansa de chamar a atenção para o compromisso da esquerda com os direitos humanos e a dificuldade do campo progressista de defender medidas mais rígidas de punição a crimes mais ou menos violentos. Não se trata, evidentemente, de defender o fechamento completo das fronteiras dos países a trabalhadores que buscam melhores condições de vida em países ricos. Tampouco de defender uma política de segurança pública pautada na violência dos agentes do Estado e no recrudescimento da legislação penal. Contudo, enquanto a esquerda evitar enfrentar esse tema, assim como parte da esquerda europeia e americana faz com a imigração, ela continuará vulnerável a ataques de forte apelo vindos do campo adversário.  

Afinal, se para setores das classes alta e média com tendência racista e discriminatória a violência é um recurso ideológico que reforça preconceitos, para os setores populares ela é uma questão muito objetiva. A insegurança está em todas as partes, tira bens materiais adquiridos com enorme esforço, assim como o bem-estar e às vezes a vida de trabalhadores em todo o país. 

Experiências internacionais ajudam a ilustrar o ponto central da provocação que dá sentido a este texto. Na Dinamarca, a esquerda mudou de tom em relação à imigração, ganhou eleições e hoje governa com ampla popularidade. No Reino Unido, a estratégia do governo trabalhista é concentrar os esforços e a atenção na política econômica, envolvendo os setores público e privado para promover o crescimento, melhores empregos e salários, de um lado, e na eficiência dos serviços públicos universais, de outro. No México, Andrés Manuel López Obrador, que combinou um discurso moderado no plano dos costumes com um projeto popular de Estado e liderança fortes, reuniu um enorme apoio na sociedade mexicana, promoveu mudanças estruturais importantes e elegeu uma sucessora com larga vantagem e que hoje governa o país enaltecendo os valores e a cultura dos povos originários. Na Espanha, um governo socialista que tinha tudo para sucumbir isolado em meio a governos de direita em toda a região, o crescimento contínuo do salário mínimo e a expansão de direitos trabalhistas sustentam uma gestão capaz de enfrentar fortes grupos conservadores. São esses apenas alguns casos emblemáticos de tentativas de superação do caráter pós-societal da esquerda e que têm sido bem-sucedidos. Experiências que ajudam a recuperar a confiança de grupos que vinham se distanciando da identidade progressista, de um lado, e a evitar a ascensão de programas completamente regressivos em temas tão sensíveis, de outro. 

No Brasil, a oportunidade é semelhante: consolidar uma esquerda pós-societal que devolva centralidade aos temas que importam para os setores populares, notadamente, economia e proteção. A soberania nacional, nesse contexto, é um grande ativo. Falar de soberania significa articular desenvolvimento econômico, defesa do país, inclusão social e transformação da vida concreta das pessoas. É nesse cruzamento que a esquerda pode se fortalecer, mostrando-se capaz de proteger a população contra ameaças externas e internas, enquanto constrói um projeto de redução das desigualdades. Diante dessa oportunidade, Lula tem se mostrado à altura da tarefa de mostrar o que a esquerda pode ser e como ela pode recuperar o vigor que vem da conexão prioritária com as classes populares. George Orwell, depois de viver com mineiros do norte da Inglaterra e com trabalhadores da Paris do começo do século 20, dizia que, para ganhar hegemonia na sociedade, a esquerda deveria reunir dois ingredientes: reunir o interesse de todos os explorados e fazer com que o socialismo não fira a decência ordinária. Uma boa lição para os nossos tempos. 

 

Philippe Scerb é mestre pela Sciences Po Paris, doutor em Ciência Política pela USP e coordenador do movimento Povo Pelo Povo. 

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