Memória, imprensa e o cerco à democracia
Cinquenta anos depois, a homenagem que lotou novamente a Catedral da Sé em 25 de outubro é o reconhecimento de que a democracia não sobrevive sem memória
Cinquenta anos depois do assassinato de Vladimir Herzog, a Catedral da Sé volta a ser palco de resistência. No mesmo espaço onde, em 1975, a sociedade civil ousou desafiar o silêncio imposto pela ditadura, familiares, jornalistas, ativistas e lideranças políticas se reuniram em 25 de outubro para reafirmar um compromisso: o de não permitir que a memória se dissolva na conveniência do esquecimento.
A lembrança de Herzog, jornalista morto sob tortura nas dependências do Doi-Codi, é mais do que uma evocação de um passado trágico. É uma advertência sobre o presente. Em tempos de revisionismo histórico e ataques sistemáticos à imprensa, o nome de Vladimir Herzog reaparece como símbolo da luta pela verdade e da resistência ética diante da barbárie.
Nos anos 1970, o jornalismo era uma das últimas trincheiras da liberdade possível. Denunciar a censura, investigar o poder e insistir na pluralidade de vozes eram gestos de coragem que se pagavam com o risco da vida. Hoje, o campo de batalha mudou de forma, mas não de natureza. O autoritarismo de agora não veste fardas nem fecha jornais à força; infiltra-se nos algoritmos, nas redes de desinformação e nas narrativas que corroem, de dentro, os fundamentos do pacto democrático.

As ameaças à democracia contemporânea são mais sutis e, por isso mesmo, mais perigosas. Elas operam pelo esvaziamento simbólico: desacreditam a imprensa, distorcem a história, relativizam a violência, equiparam ciência a opinião. Alimentam o cinismo e o descrédito nas instituições, cultivando a sensação de que nada é verdadeiro, e, portanto, tudo é permitido. Nessa lógica, o jornalismo livre e responsável volta a ser um obstáculo incômodo.
A morte de Herzog, declarada como “suicídio” pelo regime militar, foi uma tentativa frustrada de transformar a mentira em verdade oficial. O que impediu esse sucesso foi justamente a força do coletivo, jornalistas, artistas, religiosos, juristas e cidadãos que, em um dos períodos mais sombrios da história brasileira, se recusaram a aceitar o silêncio. O ato ecumênico realizado na Sé, em 1975, foi o início da reconstrução do espaço público no país. Cinquenta anos depois, a homenagem que lotou novamente a catedral é o reconhecimento de que a democracia não sobrevive sem memória.
Hoje, quando vozes autoritárias voltam a reivindicar o esquecimento e a reabilitação simbólica da ditadura, lembrar Herzog é um gesto político. É afirmar que não há “dois lados” quando o assunto é tortura e censura. É lembrar que a neutralidade, em tempos de opressão, é cumplicidade.
O Brasil de 2025 vive um paradoxo. Nunca houve tanta informação disponível, e, paradoxalmente, nunca a verdade esteve tão fragmentada. A desinformação, amplificada pelas tecnologias digitais e pela lógica das bolhas, desafia o papel tradicional do jornalismo e expõe a fragilidade de nossas instituições democráticas. A cada ataque à imprensa, a cada tentativa de intimidar repórteres ou manipular fatos, renova-se o eco da pergunta que atravessa meio século: quem tem medo da verdade?
Defender o legado de Vladimir Herzog é compreender que o jornalismo não é apenas uma profissão; é um instrumento civilizatório, um dos pilares que sustentam o direito à crítica e à pluralidade. É reconhecer que a democracia depende menos de discursos solenes e mais de práticas cotidianas de escuta, transparência e compromisso com os fatos.
A Catedral da Sé, novamente cheia, é um símbolo de continuidade. O mesmo espaço que acolheu o luto, hoje abriga a reafirmação de uma promessa: que o país não repetirá o erro de confundir silêncio com paz, nem medo com ordem. Manter viva a memória de Vladimir Herzog é manter acesa a consciência de que a democracia brasileira, ainda frágil e inacabada, precisa ser defendida todos os dias, com palavras, com coragem e com verdade.
Fernanda Macedo é especialista em ciências criminais pela UERJ, advogada da Gestão Kairós e professora no MBA do IBMEC.

