Mergulhar no submundo para transformá-lo
Israel quer que nos habituemos tanto à escuridão e ao submundo que percamos a capacidade de ver o que está diante de nós
Não se destrói aquilo que não se conhece. O “submundo” – seja ele crime, corrupção, guerra ou mesmo o inconsciente humano – só pode ser desmontado quando alguém se dispõe a entrar nele, decifrar seus códigos, compreender seus fluxos de poder e desejo. O subterrâneo não é apenas ausência de luz: é território de murmúrios, restos e forças invisíveis. Para atravessá-lo é preciso coragem de mergulho, disposição de arqueólogo e paciência de quem caminha por labirintos sem mapa.
Na mitologia, há a catábase: a descida ao mundo dos mortos (como fez Orfeu, ou Enéias, ou mesmo Cristo no cristianismo). Essa jornada simboliza que, para alcançar um estado de libertação ou renovação, é necessário atravessar o subterrâneo, o escuro e o inferno. Descer é condição para poder retornar.
Michel Foucault mostrou que o poder não se limita à esfera do Estado ou da lei explícita, mas se infiltra em práticas e dispositivos aparentemente banais. Em Vigiar e punir (1975), ele observa: “O poder está em toda parte; não porque englobe tudo, mas porque vem de toda parte” (p. 93). O subterrâneo do poder, portanto, não é apenas clandestino: é difuso, microscópico, inscrito nos corpos e nos gestos cotidianos. A tarefa crítica é expor esses fluxos invisíveis, cartografar a materialidade do que parecia natural. O mergulho foucaultiano é cartográfico: desenhar o mapa secreto das engrenagens que produzem corpos dóceis e subjetividades obedientes. O subterrâneo aqui é rede – uma trama que só se revela quando alguém ousa segui-la até seus interstícios.
Na clínica, essa descida ecoa o gesto analítico. Freud falava do analista como um arqueólogo, que explorava camadas psíquicas soterradas. O inconsciente é esse submundo povoado por fantasmas, desejos recalcados, restos de linguagem. O paciente, ao lado do analista, precisa suportar a escuridão para que algo novo possa nascer. Não se trata de expulsar o subterrâneo, mas de habitá-lo: dar palavras ao que era silêncio, forma ao que estava disperso. Em O inconsciente (1915), Freud afirma: “O inconsciente é o verdadeiro psíquico; em sua natureza íntima, é tão desconhecido para nós quanto a realidade do mundo exterior” (p. 171). O sintoma, como retorno do recalcado, é um vestígio desse subterrâneo que insiste em se manifestar. O trabalho analítico consiste em dar linguagem a esse não sabido, permitindo que o sujeito transforme aquilo que, na escuridão, o governava. Os sintomas são rachaduras nesse solo: pequenas erupções do que ficou enterrado. O analista é um arqueólogo de ruínas íntimas, alguém que escava camadas de silêncio até encontrar fragmentos de linguagem. Descer ao inconsciente é como adentrar um labirinto: cada corredor leva a outro, e só se avança quando se aceita não dominar o trajeto, mas escutá-lo.
No campo político e histórico, a descida significa confrontar os infernos de nossa época: guerras, genocídios, catástrofes. Aqui, a catábase não é metáfora, mas experiência concreta de povos que vivem sob ruínas. Georges Didi-Huberman fala da necessidade de olhar para as imagens do horror “apesar de tudo”, porque é nesse mergulho que se resgata a dignidade da memória. Resistir é descer às profundezas do que o poder tenta ocultar – campos de concentração, favelas invisibilizadas, fronteiras onde vidas são descartadas. O subterrâneo da história não é só ausência, mas excesso de restos, de fragmentos que insistem em aparecer. Olhar para essas imagens é um gesto ético: recusar a cegueira e o esquecimento. A tarefa, aqui, é manter aberta a ferida, sem domesticar o indizível. Para Didi-Huberman, suportar essas imagens é caminhar no labirinto da história com os olhos abertos, mesmo que a dor nos cegue por instantes.
Foucault, Freud e Didi-Huberman se encontram, então, nessa ética do mergulho. Não basta denunciar a superfície: é preciso atravessar suas fissuras. O subterrâneo – seja o das instituições, o da psique ou o da memória – exige de nós não a pressa de quem quer dominar, mas a delicadeza de quem sabe escutar pedras, restos, silêncios. Escavar, mergulhar, perder-se: eis os gestos necessários para que algo oculto possa enfim se transformar.
Não há libertação sem confronto com a escuridão. Descer não é derrota.

O Estado genocida de Israel quer que nos habituemos tanto à escuridão que percamos a capacidade de ver o que está diante de nós ou de perceber o apagamento do passado. Busca transformar a escuridão em destino. É por isso que precisamos caminhar pelas cavernas com uma lanterna na mão: para que possamos andar sobre o subterrâneo sem sermos esmagados por ele.
A lanterna não vence a escuridão, mas a atravessa em pequenos passos. Georges Didi-Huberman fala do “fósforo aceso” diante do horror: uma luz mínima, mas que impede a noite absoluta. A lanterna não elimina as trevas, mas permite que avancemos sem sermos devorados.
Caminhar com lanterna é o que fazem testemunhas, sobreviventes, poetas, clínicos, educadores; todos que recusam o apagamento e insistem em dar forma ao indizível. É afirmar que a memória, a palavra e o olhar ainda pertencem a nós, e não ao poder que tenta confiscá-los.
Rima awada Zahra é libanesa brasileira, psicóloga, escritora, e coordenadora da pós-graduação do curso de Psicologia e Migração da PUC MG. Organizou e traduziu o livro Sumud em tempos de genocídio da psiquiatra palestina Drª Samah Jabr e traduziu os Diários de Gaza, ambos pela editora Tabla.

