Mulheres e a mudança norte-coreana - Le Monde Diplomatique

NASCIMENTO DE UMA ECONOMIA DE MERCADO FEMININA

Mulheres e a mudança norte-coreana

por Philippe Pons
5 de março de 2015
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Ao contrário do que se imagina, pouco a pouco os cabelos brancos desaparecem das ruas de Pyongyang, com as mulheres da capital tendendo a seguir a moda vinda da China. Para além da aparência, elas conquistaram uma nova força, promovendo mercados paralelos, mais ou menos tolerados pelo poderPhilippe Pons

 

O aparecimento, em 2012, de uma elegante mulher ao lado do líder norte-coreano Kim Jong-un – a qual, mais tarde, soubemos chamar-se Ri Sol-ju e ser sua esposa – tinha o objetivo de dar uma imagem mais moderna ao regime do país. A presença feminina contrastava com o mistério que cercou a vida privada de seu pai, Kim Jong-il (morto em dezembro de 2011), raramente visto com suas companheiras. Mas a elegância discreta de Ri Sol-ju não é nada de extraordinário: é o que revelam muitas jovens mulheres vistas nos locais frequentados pelas novas classes privilegiadas de Pyongyang.

Na rua, as roupas femininas ficaram mais variadas e coloridas. Os sapatos de salto alto ou plataforma são comuns, inclusive nos pés de jovens soldadas durante a folga. A influência da moda chinesa se vê nas prateleiras das lojas estatais: o maior fabricante de calçados, Potonggang, passou a oferecer modelos voltados a uma clientela mais exigente. Cabelos curtos, como os das artistas da popular banda pop Moranbong, ou ligeiramente clareados estão muito em voga. A República Popular Democrática da Coreia, ou Coreia do Norte, tenta forjar uma imagem mais agradável de si e manda esquadrões de jovens e belas mulheres a restaurantes no exterior (China, Camboja), assim como líderes de torcida a eventos esportivos. A televisão não se cansa de exibir shows de bandas femininas de música pop; a Air Koryo, companhia nacional de aviação, faz o mesmo em suas aeronaves.

Seria uma miragem de Pyongyang, vitrine de um país em cujo interior se vive à beira da miséria e onde a aparência feminina não mudou nada? Não apenas. Com o fechamento das fronteiras, a pouca informação e a falta de contato direto dos visitantes com a população, compreender a realidade norte-coreana é enfrentar um quebra-cabeça: a cada contato, a cada visita, desenha-se uma sociedade em transformação, sob o manto de um regime intocado. As roupas, os acessórios e o comportamento das mulheres na capital, bem como suas atividades em todo o país, são um reflexo disso.

A “nova mulher” norte-coreana surgida após a libertação, em 1945, devia, claro, ser revolucionária, mas também “continuar feminina”, como dizia ainda em 1989 o pai da pátria, Kim Il-sung, na revista Choson Nyosong (“Mulheres da Coreia do Norte”). De acordo com Helen Louise-Hunter, que trabalhava como analista da CIA, as norte-coreanas “conservaram seu charme feminino, mais que as chinesas ou as soviéticas”.1 Suas roupas sempre foram mais variadas que as da China maoista, onde as figuras femininas dos cartazes eram “super-homens” de formas apagadas e cabelos curtos. Na Coreia do Norte, às vezes elas são vistas de vestidos tradicionais, revelando os tornozelos para facilitar a mobilidade. Desde o final da década de 1960, o regime incentiva o uso desse traje em ocasiões especiais, pois ele simboliza a continuidade entre passado e presente. Na vida cotidiana, a maioria das trabalhadoras, agricultoras e donas de casa veste-se ao estilo ocidental, usando cabelo preso, com permanente ou coberto com lenço.2

“A Coreia do Norte nunca foi um ‘reino eremita’ em matéria de vestuário”, observa Andrei Lankov, da Universidade Kookmin, em Seul, que visitou Pyongyang na década de 1980. Mas manteve-se pudica. A tímida chegada da moda contemporânea chinesa na virada do século causou um endurecimento da propaganda, que acabou suavizando-se nos últimos anos. Desde 2002, a cada outono um desfile de moda é realizado em Pyongyang; no mais recente, em setembro de 2014, foram apresentados vaporosos vestidos tradicionais nas cores mais vibrantes, ao lado de terninhos que lembram o clássico “estilo Chanel” da década de 1960.

Para além das roupas, as norte-coreanas tornaram-se uma força viva da sociedade, desenvolvendo uma economia de mercado de fato, nascida das atividades de sobrevivência durante a fome (1995-1998). No entanto, continuam pouco presentes na cúpula do poder. Ali se encontram Kim Kyung-hui, irmã de Kim Jong-il (saída de cena após a execução de seu marido, Jang Song-taek, em dezembro de 2013), e a irmã caçula de Kim Jong-un, Kim Yo-jong, promovida em novembro, aos 27 anos, para o cargo de diretora adjunta do Departamento de Direção e Organização do Partido dos Trabalhadores. Em 2002 (segundo as estatísticas mais recentes conhecidas), as mulheres ocupavam pouco menos de um quarto dos assentos na Assembleia Popular Suprema e apenas 4,5% no Comitê Central do Partido dos Trabalhadores.

 

Instigadoras de uma economia paralela

“O novo capitalismo norte-coreano tem, sem dúvida, um rosto feminino”, comentava Lankov já em 2004. Uma década depois, o fenômeno se afirma. As mulheres foram as grandes vítimas da fome – à miséria e à fome somaram-se a violência sexual, os abortos forçados e muitos outros abusos.3 Diante dessas provações, elas conquistaram mais independência, mais peso na família e uma maior consciência de seus direitos, avalia o pesquisador Park Kyung-ae.4

Inconstantes e embrenhadas na moribunda economia estatal, as atividades paralelas nasceram de uma pressão sobre a base. Primeiro, o regime tentou conter essa efervescência mercantil; agora, ciente da impossibilidade de retorno, mostra-se mais flexível e tenta, com altos e baixos, combinar os rigores do planejamento ao dinamismo da economia de mercado.5 A esfera das atividades autônomas (comércio, serviços, produção) representa uma parte grande, embora difícil de quantificar, do produto nacional.6

Essa economia paralela fragmentou os interesses de uma sociedade outrora relativamente igualitária, fazendo surgir uma nova camada “privilegiada” que veio engrossar as fileiras da elite tradicional (quadros do partido, oficiais superiores). Qual é sua dimensão? Na ausência de dados, temos de nos contentar com indicações fragmentadas, como o número de telefones celulares: 2,5 milhões em 2014. Em outras palavras, um em cada dez habitantes dispõe de US$ 200 a US$ 300 para comprar um aparelho.

As lojas de Pyongyang revelam novas estratificações sociais: aos estabelecimentos do Estado, mais bem abastecidos que antes, soma-se uma dúzia de mercados que transbordam de produtos alimentícios e artigos importados (da China, Cingapura, Coreia do Sul), onde se acotovela uma multidão de compradores (aqueles que podem pagar) e curiosos. Nas lojas de alto padrão, a oferta de bebidas, cosméticos e roupas importados põe em dúvida a eficácia das sanções internacionais sobre a exportação para a Coreia do Norte de produtos considerados “de luxo”. Os preços são astronômicos para a maioria da população, mas não impedem que o comércio exista. Em todos os níveis dessa economia paralela, encontram-se mulheres.

No que concerne às disposições legais, a Coreia do Norte foi pioneira na Ásia: em termos de direitos civis e políticos, as norte-coreanas desfrutam igualdade em relação aos homens (educação gratuita, escolha do cônjuge, direito ao divórcio e à herança). Com a reforma agrária, em março de 1946, as terras foram redistribuídas às famílias camponesas, fossem ou não chefiadas por um homem, o que começou a romper as bases materiais do patriarcado. A mulher foi libertada dos deveres tradicionais de uma sociedade marcada pelo confucionismo, em benefício do partido: o casamento deixou de ser um arranjo entre famílias; o partido assumiu o papel de arranjar casamentos “entre camaradas”.

Progressista em seus princípios, o regime é conservador quanto à concepção do papel de cada gênero. A emancipação subordinou-se à construção do socialismo. Revolucionária, a “nova mulher” também devia ser “boa esposa e boa mãe” – esse seria o “modelo da cidadã revolucionária”.7

Após a Guerra da Coreia (1950-1953), a participação das mulheres na reconstrução do país não ficou na teoria: era necessário remediar a escassez de mão de obra provocada pela falta de homens, já que muitos tinham morrido em combate. Nos anos 1950 e 1960, as mulheres tiveram de colaborar na produção, acompanhar as sessões de doutrinação ideológica, assumir serviços públicos de bairro, cuidar da casa e ter filhos… Em seguida, a ênfase na indústria pesada diminuiu a oferta de emprego, e elas ficaram limitadas a trabalhos subalternos.

Com a estagnação econômica da década de 1980, muitas desistiram de trabalhar depois do casamento para dedicar-se à educação das crianças e às tarefas domésticas. E a propaganda começou a defender uma concepção mais tradicionalista da mulher, incentivada a procriar. A imagem da mãe encarnando virtudes como bondade, simplicidade e carinho foi associada ao Partido dos Trabalhadores, e a família tornou-se uma metáfora do Estado.

Antes da fome, as mulheres representavam quase metade da população ativa. No meio do caos, elas se tornaram uma engrenagem de sobrevivência do país. Enquanto os homens pensavam que a escassez de alimentos seria temporária, as mulheres tomaram a iniciativa, a ponto de fazer os maridos, chefes de família impotentes, passar vergonha. As donas de casa abraçaram o pequeno comércio de bairro, e as que trabalhavam fora viram-se diante de um dilema: assumir as responsabilidades de mãe ou as obrigações profissionais, um dilaceramento que se reflete nos romances da década de 2000.8

Os mercados camponeses, tornados grandes mercados negros, foram seu primeiro campo de ação. Ali, elas começaram a vender ou trocar por comida o pouco que a família possuía de equipamentos, louças, móveis e roupas. Depois, nas ruas afastadas, entre os blocos de casas ou ao longo das estradas, vendiam em barracas, e até no chão, lenha, ervas medicinais, legumes de hortas privadas, bolinhos feitos em casa etc. Outras ofereciam serviços: corte de cabelo, conserto de sapatos, costura… Desde o amanhecer, longas filas de camponesas, encurvadas sob o peso de suas cargas, rumavam para as cidades. Algumas percorriam longas distâncias a pé ou apertadas em carrocerias de caminhões. Elas mantiveram o controle sobre o varejo (ou o comércio ambulante), a restauração e os serviços.9

A herança confucionista também enfrenta dificuldades: “no Norte, o patriarcado continua enraizado”, diz uma refugiada de 40 anos que chegou a Seul em 2011. “Mesmo aqui, continuamos marcadas por essa atitude.” Isso faz a fortuna das agências matrimoniais especializadas nas uniões entre norte-coreanas e sul-coreanos. Seguindo o velho ditado “homem do sul, mulher do norte” (nam nam buk nyo), que considera essa a união perfeita, os sul-coreanos que julgam suas compatriotas “agressivas” preferem casar-se com refugiadas.

Embora a maioria das norte-coreanas não conteste essa posição, acreditando que é a melhor maneira de manter a paz em casa, muitas vezes são elas que fornecem a principal fonte de renda da família; seu peso aumentou.10 A maioria das jovens já não vê o casamento como obrigação e o adiam tanto quanto possível, dizem as refugiadas.

O caos do fim da década de 1990 e início de 2000 também se traduziu em uma relativa liberalização das relações de gênero. Pode-se apreender sua medida por meio dos romances. No passado, os escritores enfatizavam a aliança ideológica do casal. Depois, começaram a falar em romance, emoção e até, nas entrelinhas, desejo. Por fim, apareceram mulheres apaixonadas determinadas a casar com o homem que escolhessem.11

 

Emancipação dos corpos e dos espíritos

O divórcio, praticamente inexistente até os anos 1970, começou a aparecer, e seu número está aumentando. Como o consentimento mútuo não é reconhecido, o motivo mais simples a invocar é “comportamento reacionário” do cônjuge. Mas a mulher separada ainda se expõe a uma censura latente: o divórcio continua sendo uma questão social, e não um ato privado, destaca Patrick Maurus no prefácio de sua tradução do romance de Baek Nam-ryong, Des amis [Amigos] (Actes Sud, 2011). As refugiadas também relataram separações causadas pelo aumento da violência doméstica.

Além disso, as mulheres se expõem, em seus deslocamentos, a policiais e militares que exigem favores sexuais para ignorar pequenas infrações. As agressões e os assédios sexuais no trabalho e no Exército – normalmente não declarados pelas vítimas – aumentaram, segundo as refugiadas no sul. Após a sangria da fome, as autoridades empreenderam campanhas sobre a necessidade de procriar, o que resultou em maior dificuldade para obter contraceptivos. Como os hospitais relutam em realizar abortos (oficialmente autorizados por lei), as interrupções clandestinas de gravidez aumentaram, com todos os seus riscos. As doenças venéreas também parecem ter se propagado com a prostituição ocasional.

As norte-coreanas souberam aproveitar o caos do final da década de 1990 e suas consequências para construir espaços de autonomia.12 Elas resistiram quando o regime fixou em cinquenta anos o limite de idade dos comerciantes, com manifestações em outubro de 2007 em Hoeryong e março de 2008 em Chongjin. Essa dissidência civil, embora limitada, é reveladora de uma solidariedade entre mulheres dispostas a se envolver numa ação coletiva embrionária. Cativas da tradição, que as escraviza, e da revolução, que as libertou para serem guardiãs da família, lentamente as norte-coreanas soltam-se de suas amarras.

 

Philippe Pons é jornalista, autor particularmente de Misère et crime au Japon, du XVII e siècle à nos jours, 1999, e D’Edo à Tokyo, 1998, ambos pela Gallimard, Paris.



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