“O PACTO COM O DIABO”

Mussolini, Pio XI e a polêmica aliança

Mussolini procurou fazer o possível para identificar o Estado com a Igreja Católica, no intuito de crescer sua popularidade e encontrar apoio e legitimidade por parte da religião. Foram anos de negociações, que esquentavam e esfriavam – principalmente pelos casos de violência contra a Ação Católica praticados por grupos fascistas

Mussolini subiu ao Parlamento italiano poucos meses antes da eleição de Pio XI ao trono de São Pedro. O que mais surpreendeu foi: um discurso simpático ao catolicismo. O ex–militante socialista e atual líder fascista destacou, em seu discurso, a promoção dos valores cristãos na sociedade italiana, fora a promessa de que o fascismo não pouparia esforços na ajuda nessa promoção. Todavia, na prática, todos sabiam que Mussolini era um ateu ferrenho, defensor da expropriação de propriedades eclesiásticas, além de sua aversão natural à Ação Católica – conjunto de movimentos que visava a inclusão do laicado na sociedade pública, através da política, e que fora fundada oficialmente pelo próprio Pio XI em 1929 –, que o levou a perseguir tal grupo, de forma velada primeiramente. 

Segundo o historiador David Kertzer, autor do best–seller vencedor do Pulitzer O Papa e Mussolini, a decisão do papa de considerar a possibilidade de apoiar o ditador fascista pegou muitos de surpresa na Igreja. O mais notável constrangimento foi do Padre Enrico Rosa, editor de La Civiltà Cattolica, que havia advertido dias antes da Marcha sobre Roma, que o movimento fascista era “violento, anticristão, encabeçado por homens sinistros, políticos insignificantes, industriais ricos e militares ressentidos”. Uma conversa com o Padre Agostino Gemelli ofereceu um vislumbre da posição de Pio XI diante de Mussolini: “Não elogio, mas oposição abertamente organizada não é boa idéia, pois temos muitos interesses a proteger”. O Papa, assim, instruiu o Padre Enrico Rosa a descartar o artigo crítico sobre o fascismo que redigira, e recomendou publicar um editorial mais amistoso. Desse modo, embora o jornal católico continuasse a denunciar episódios de violência fascista contra organizações católicas, nunca mais denunciou Mussolini ou o fascismo, pelo contrário.  

Outro prelado insatisfeito com a aproximação da Igreja com o fascismo foi o Cardeal Basilio Pompili, pertencente a uma das famílias mais nobres de Roma. O cardeal via Mussolini como alguém tão indigno de confiança quanto todos os pertencentes do fascismo. O papa, assim, forçou o prelado a pedir renúncia de seus cargos na Cúria Romana, mas sem sucesso, visto que este gozava de enorme influência pelos seus anos de trabalho. Na verdade, Pio XI queria resolver a todo custo o que nomeava a “questão romana”, ou seja, a disputa territorial e política ocorrida desde 1861 que culminou na anexação dos Estados Pontifícios ao território italiano e na transformação de Roma em capital em 1870. O papa Pio IX, na época, que governava tais territórios e não aceitava as perdas, se tornou “prisioneiro” no Vaticano a partir da unificação italiana, recusando qualquer acordo com o governo. Esse era o grande objetivo de Pio XI: recuperar um pouco do que havia perdido. 

Em meio à crise ocasionada, em 1924, pela morte do deputado socialista Giacomo Matteotti, Mussolini buscou aproximação da Igreja criando uma comissão para examinar as leis que diziam respeito a ela. O líder fascista conseguiu o apoio de Padre Tacchi Venturi, que se tornou uma espécie de intermediário por parte da igreja, além de se utilizar de mensageiros fascistas, de sua confiança, para transmitir e intermediar as negociações. Com isso Mussolini procurou fazer o possível para identificar o Estado com a Igreja Católica, no intuito de crescer sua popularidade e encontrar apoio e legitimidade por parte da religião. Foram anos de negociações, que esquentavam e esfriavam – principalmente pelos casos de violência contra a Ação Católica praticados por grupos fascistas. Francesco Pacelli, proeminente advogado do Vaticano, oriundo de uma das famílias romanas mais tradicionais e que, curiosamente, era irmão mais velho de Eugênio Pacelli, futuro Papa Pio XII, culpou a Ação Católica de estar se metendo em encrencas e prejudicar as negociações, pois para o advogado, “como poderia o Vaticano permitir que uma organização da Igreja criticasse o governo fascista, tão favorável à religião católica?”. 

Francesco, assim, é incumbido pelo Papa Pio XI a retomar as negociações e representar a instituição junto ao jesuíta (e fascista declarado) Padre Tacchi Venturi, que se encontrava mensalmente às escondidas com Mussolini. O jesuíta, inclusive, intermediou outros encontros, como por exemplo, do cardeal espanhol Merry Del Val, antigo secretário de Pio X e influente purpurado, com Arnaldo Mussolini, irmão de Benito e católico fervoroso.  

Crédito: Vatican News

No fundo, ninguém queria ceder: Pio XI não abria mão de sua Ação Católica; Mussolini não queria interferência na criação e educação de novos fascistas. Todavia, a preocupação com a ameaça comunista unia as partes num ideal comum. Por fim, caiu na responsabilidade do cardeal Pietro Gasparri, Secretário de Estado do Vaticano, o “número dois”, levar adiante com absoluta confidencialidade as extenuantes tratativas com o regime fascista para consolidar o acordo entre Estado e Igreja. No dia 11 de fevereiro de 1929, diante do Palácio de Latrão, inúmeros fiéis perseveravam rezando o rosário, deixando de chuva, na torcida pela concordata. Antes, bem cedo, o cardeal Gasparri e seu subsecretário, Monsenhor Francesco Borgongini, se reúnem na biblioteca particular do papa, apresentam o texto do tratado e asseguram que estava tudo pronto. Depois de examinar com atenção, Pio XI aprova o texto com um aceno de cabeça. Gasparri e seu subsecretário saem emocionados do local e vão até Latrão. Na assinatura do Tratado de Latrão estavam presentes: o Monsenhor Francesco Borgongini, o Cardeal Pietro Gasparri, o advogado Francesco Pacelli, Dino Grandi, Ministro da Justiça, de Negócios Estrangeiros e Presidente do Parlamento italiano e o líder fascista Benito Mussolini.  

Segundo Antonio Scurati, em seu livro M., o Homem da Providência, com o Tratado de Latrão, em âmbito diplomático, o Estado italiano reconhece à Santa Sé a plena propriedade e o poder soberano sobre a Cidade do Vaticano, sobre as basílicas patriarcais, os diversos edifícios da Cidade Santa, adquirindo imunidade territorial, e sobre Castel Gandolfo, residência de verão do papa. Em contrapartida, o líder católico renuncia ao poder civil e temporal da cidade eterna, reconhecendo a soberania da Casa de Saboia no Reino da Itália. O Vaticano recebeu uma indenização de 750 milhões de liras e títulos de renda que representam um capital de um bilhão, com taxas de juros de 5%. Para além, o Estado italiano concede o valor civil do casamento religioso, a introdução do ensino confessional nas escolas, à critério da Igreja, reconhecendo a religião católica romana como a única do Estado. Por outro lado, a Igreja renunciava seu papel político, sendo proibido, perante juramento diante do rei, toda e qualquer atividade política. No final das contas, o sucesso de Mussolini é imenso. Pio XI, diante de estudantes e professores da Universidade Lateranense, repetira o jargão proferido pelo arcebispo de Praga: “Benito Mussolini é o homem da Providência!”.  

É evidente que Pio XI foi crucial para que Mussolini tivesse mais força para instaurar sua ditadura e ganhasse mais validação, principalmente com os católicos, para se manter no poder.  

A relação entre as partes estremeceu com o tempo. O Grande Conselho do Fascismo aprovou novas leis raciais, inspiradas nas que Hitler introduzira em solo alemão. La Civiltà Cattolica publica as leis, junto com a justificativa oficial, sem fazer muitos comentários. A Santa Sé não faria objeção, desde que as novas leis não tratassem católicos convertidos do judaísmo como se fossem judeus. Essa seria, portanto, o único ponto que a Igreja faria objeção. Aos poucos, Pio XI viu as novas leis raciais como parte de um quadro maior e mais perturbador, e Mussolini, cada vez mais empenhado em seu projeto de poder, parecia vislumbrar a criação de uma religião fascista separada. O Papa começou a se questionar se seria possível continuar apoiando o Duce e seu regime fascista, visto que a aproximação com o Führer era motivo de preocupação, tendo como referência a relação gradativamente repressiva por parte do governo nazista com Igreja Católica. Mesmo não desejando um conflito com as autoridades eclesiásticas, Mussolini fez o papa ter ciência que se não impedisse os padres de criticar o regime, como no recente Congresso Eucarístico por inúmeros padres, o governo seria obrigado a agir.  

O que mais espantou Pio XI foi que, em primeiro momento, acreditou–se que a Igreja controlaria o governo fascista à luz de um Mussolini “católico e temente a Deus”, e assim reconquistaria benesses e poderes temporais perdidos com a unificação da Itália, mas na prática nem perto disso passou. O Duce não buscava ficar nas mãos de autoridades religiosas, muito menos preso à promessa ou acordo, e fizeram da Igreja um trampolim para o crescimento de sua popularidade e influência naquele território, majoritariamente católico.  

As tensões aumentavam. Católicos convertidos do judaísmo eram tratados como judeus pelos fascistas (diferente do que Pio XI pedira), perseguidos e mortos; núcleos paramilitares fascistas cometiam violências contra padres pertencentes à Ação Católica e seus adeptos; na prática, Mussolini e seus tentáculos adotaram, com inspiração na Alemanha nazista, uma política sem limites e pautadas no terror, certos de que não haveria oposição capaz de frear seus avanços. A Igreja, que anteriormente viu em Benito Mussolini um aliado fiel no combate ao socialismo e comunismo, na restauração de sua influência na Itália e no apoio em barrar o crescimento dos protestantes no país, encontrou um inimigo sem escrúpulos, outrora aliado, que a via como um objeto facilmente manipulado. E foi.  

No décimo aniversário do Tratado de Latrão, o Papa Pio XI aproveitara a ocasião para denunciar a aliança entre o Duce e o Führer, além de expor uma possível existência de infiltrados fascistas na rotina burocrática do Vaticano. Entretanto, nunca proferiu tal discurso, visto que morreu antes de pronunciá-lo publicamente. Seu sucessor, o cardeal Eugenio Pacelli, futuro Papa Pio XII, ex-núncio apostólico na Alemanha e secretário de Estado do Vaticano, seguiu as ordens de Mussolini para que todas as cópias do sermão fossem queimadas e destruídas. Pacelli, inclusive, teve sua eleição ao papado comemorada por figuras importantes do governo fascista, tanto pela sua admirável diplomacia e escuta política, quanto pela amistosa relação que possuía com as autoridades nazistas, desde sua época como núncio em Berlim.  

 

A aliança católico-fascista ilustra a responsabilidade política de instituições tão influentes na sociedade, como a Igreja, diante do avanço do autoritarismo político. E isso é atemporal. Nascem “Mussolinis” a todo momento, prometendo salvação às massas sem esperança, no intuito de exercer uma hegemonia política e tirânica; existem muitos “Pios”, que acham que vão aproveitar da situação para obter vantagens para sua igreja, mas que no fim das contas são descartados quando não há mais serventia.  O arrependimento é louvável, mas os atos não podem ser desfeitos.  Quando surgem novas tentações autoritárias no mundo, os que estão preocupados com os assuntos da eternidade não podem se calar. A história cobra. 

 

 

Railson Barboza é bacharel em Filosofia (PUC-Rio). Doutorando e Mestre em Política Social (UFF). Imortal da Academia Fluminense de Letras. 

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