No Catar, seleção busca vitória paradoxal: conquistar o Brasil

COPA: FUTEBOL E POLÍTICA

No Catar, seleção busca vitória paradoxal: conquistar o Brasil

por Helcio Herbert Neto
11 de novembro de 2022
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Abismo entre torcedores e os símbolos da equipe que representa o país é bem anterior à goleada sofrida diante dos alemães, mas remete também a 2013. Novo artigo do especial Copa: futebol e política

Por sete vezes, os torcedores brasileiros choraram quando a bola foi para a rede no Mineirão, em 8 de julho de 2014 – ou riram, porque nem o drama era cativante. A derrota para a seleção alemã na semifinal da Copa do Mundo, como anfitriã, pode até servir de marco. Porém, o distanciamento com os principais símbolos do time que representa o país em Mundiais é anterior. O caráter privado e excludente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é uma das possíveis explicações.

Derivam disso as partidas em estádios distantes e ingressos com preços proibitivos. Ainda antes da redemocratização, a entidade que administra o futebol no Brasil foi deslocada: deixou de fazer parte do Estado e se tornou uma empresa privada. O movimento talvez ajude a explicar o processo de longa duração que apartou a seleção do público. Um instante decisivo, no entanto, colabora para a compreensão sobre o fosso entre camisa, ídolos e cores da seleção brasileira e parcelas significativas de torcedores.

Muitas das críticas aos aspectos discriminatórios da seleção ressoaram nas manifestações durante a Copa das Confederações de 2013, um ano antes do Mundial disputado no Brasil. Protestos de rua irromperam nas capitais do país com pautas difusas, quando a avaliação positiva do governo federal era recorde. Em campo, os jogadores mimetizaram o fervor cívico dos atos, principalmente durante a execução do hino. Quase uma década depois, impasses sobre os protestos permanecem.

Construído para a Copa de 1950, Maracanã é um dos símbolos do futebol brasileiro (Reprodução | estadiomaracana.com.br)

A história do esporte, da radiodifusão e das eleições no Brasil torna tudo isso um pouco menos enigmático. Episódios marcantes e processos decisivos para a comunicação aconteceram simultaneamente. Essa coincidência fez com que tendências permanecessem no ar e repercutissem na identidade nacional. Nesse sentido, o intervalo entre as décadas de 1940 e 1960 é definitivo por ser o instante em que o rádio alcança o apogeu e a televisão surge e se consolida para o público brasileiro.

O período condensa conquistas internacionais, como o tricampeonato mundial do futebol masculino. A paisagem das cidades também foi reformulada pelo esporte. O Pacaembu é um exemplo em São Paulo. Na então capital da República, um estádio à beira do rio Maracanã foi concebido no fim da primeira metade do século: curiosamente, a construção seria desfigurada em obras que antecederam o Mundial de 2014 e simbolizaram a elitização dos principais aparelhos esportivos do país.

Embora a Rádio Nacional fosse pública e tenha ditado os modismos para as demais estações, havia grande participação da iniciativa privada no apogeu desse meio de comunicação. Talvez o grande exemplo seja o conglomerado formado em torno dos Diários e Emissoras Associados. O grupo mantinha, por exemplo, as rádios Tamoio e Tupi. Já na televisão foram os recursos particulares que deram vida aos primeiros canais, com bem menos influência estatal. Essa força empresarial foi determinante.

Nesse mesmo intervalo, um partido despontou como o preferido dos empresários da mídia em campanhas eleitorais majoritárias: a União Democrática Nacional (UDN). A legenda foi apoiada reiteradamente por veículos de imprensa – inclusive por aqueles que se dedicavam aos esportes. Muitos dos principais nomes da cobertura do futebol concorreram a cargos eletivos ou exerceram mandatos pela sigla. As carreiras políticas de Ary Barroso, José Maria Scassa e Nicolau Tuma são exemplares.

Por conta dessa presença ostensiva de filiados e da simpatia que os empresários e, consequentemente, os veículos exalavam pela legenda, é natural supor que haja reverberações do udenismo. A densidade desse sentimento ao redor da UDN, em um contexto crucial para a comunicação de massa, fez com que seus valores tivessem efeitos duradouros. O caso mais eloquente é o moralismo: essa cruzada foi sua principal bandeira até a extinção, em 1965.

A fixação de bem e mal e sua defesa, hipócrita, têm desdobramentos para o falar sobre futebol, de maneira geral. É sensível a preocupação com a reputação do Brasil quando a seleção nacional está em campo. Nas transmissões, o que está em jogo é a dignidade do país. O grande risco é o vexame. Esses valores são um exemplo das continuidades udenistas. Outro, mais sutil, diz respeito à brasilidade: o nacionalismo americanófilo.

Mais delicada, a aproximação com os Estados Unidos remete à primeira Copa do Mundo realizada no Brasil. Em 1950, a delegação do hemisfério norte foi acolhida pela Rádio Nacional, quando as relações exteriores buscavam um alinhamento automático com o país. Depois da Segunda Guerra Mundial, havia sido criada uma relação estreita, à custa de recursos da Casa Branca para conter as denúncias contra o imperialismo.

Paralelamente, nesse mesmo momento o país viveu a sucessão de dois períodos ditatoriais. O primeiro é o Estado Novo. É verdade que o regime foi iniciado ainda nos anos 1930, mas perdurou até a metade da década seguinte. Depois de um breve e acidentado intervalo com mais liberdade, o golpe de 1964 impôs, com armas militares e apoio civil, outro ciclo de violência política. Os brasileiros só voltariam a eleger, diretamente, o presidente da República em 1989.

O panorama da cobertura esportiva no século XX joga luz sobre as relações políticas com o nacionalismo, mas não soluciona o dilema das manifestações de 2013. Estudos têm demonstrado as influências externas e que o ímpeto antidemocrático de grupos conservadores impulsionou os atos, o que deixa tamanha magnitude menos surpreendente. A pressão midiática, de maneira mais escancarada, também. Não é possível, entretanto, negar que havia eloquentes insatisfações populares.

O certo é que, às vésperas da realização da nova Copa do Mundo no Brasil e de seu evento-teste, o alto teor patriótico e a inegável inclinação moral foram marcas dos protestos. Iniciados por reivindicações de melhorias na mobilidade urbana, as manifestações se expandiram: foi inaugurada uma temporada de instabilidades, que provocou, de maneira ambígua, mobilizações pela volta da ditadura e resistências a favor da democracia. A camisa da seleção se tornou uniforme rotineiro nos atos.

O período crítico culminou na queda da presidenta eleita, Dilma Rousseff; na posse de seu vice, Michel Temer; na prisão irregular da principal liderança popular brasileira; e na chegada do capitão reformado Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Representante da extrema direita, o novo presidente simbolizava os usos políticos do esporte e um nacionalismo que misturava moralismo à adoração aos Estados Unidos. Os acontecimentos, somados à reeleição de Lula em 2022, serão incompreendidos caso a capacidade de mobilização do futebol no Brasil seja menosprezada.

Fica menos difícil, com esse panorama, entender o sequestro de símbolos nacionais. Imagens de Bolsonaro, ora com a camisa da seleção brasileira, ora ao prestar continência à bandeira norte-americana, são pouco inusitadas. É contra essa fissura que os atletas convocados jogam. Uma conquista no Catar parece um episódio pontual que dificilmente reverteria a percepção de todos os torcedores. O troféu ao menos ofereceria motivos para comemorar à população – ou, no mínimo, a frações representativas de brasileiros.

 

Helcio Herbert Neto, jornalista e filósofo, é doutor pelo Programa de Pós-Graduação em História Comparada da UFRJ e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF. Pesquisador do campo da cultura popular, é autor do livro Conte comigo: Flamengo e democracia, lançado em 2022.

 

Paixão das multidões, negócio bilionário, fator de mobilização social: o futebol é arrebatador. E, a cada quatro anos, as melhores seleções nacionais se reúnem e deixam ainda mais em evidência todas essas disputas políticas. Em 2022, a Copa do Mundo do Catar traz à tona um planeta cindido, após o período mais severo da pandemia, e tensionado pela emergência da extrema direita. Até o final do torneio, Le Monde Diplomatique Brasil publica semanalmente os artigos do especial Copa: futebol e política – perante o assombro que, em um momento tão crucial, o mais catártico dos esportes provoca.


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