Na Irlanda, a mídia no banco dos réus - Le Monde Diplomatique

JORNAIS E TELEVISÃO CONTRIBUÍRAM PARA A CRISE BANCÁRIA?

Na Irlanda, a mídia no banco dos réus

por Julien Mercille
1 de outubro de 2015
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O Parlamento e o Senado irlandês decidiram, em novembro de 2014, criar uma comissão de investigação sobre os responsáveis pela crise bancária desencadeada em 2008. Em março, no âmbito desse trabalho, os parlamentares incorporaram estudos do canadense a pedido da Comissão, enfatiza, pesquisador dos meios de comunicaçãoJulien Mercille

Segue um trecho da intervenção de Julien Mercille:

A pedido da Comissão, enfatizaremos os seguintes aspectos: a responsabilidade dos grandes meios em relação à certeza da perenidade do boom imobiliário ou ao estado da saúde econômica do país de forma geral; os eventuais conflitos de interesse engendrados pela importância das propagandas ligadas ao setor imobiliário; a promoção recorrente nos meios incentivando a compra de um imóvel em vez da locação; a opinião dominante de que o mercado imobiliário “aterrissaria aos poucos”. […]

Nosso trabalho visa determinar se a bolha poderia ter sido equilibrada antes de estourar e se a amplitude do rompimento poderia ter sido antecipada. Nos dois casos, a resposta é sim, apesar de a análise ser mais precisa a posteriori. Dois métodos permitem saber se os preços do mercado imobiliário formam uma bolha: a relação custo/benefício e a relação preço/salário. Logo no início, o periódico britânico The Economistutilizou esses indicadores para soar um alarme em todos os cantos do mundo. Em 2002, escreveu que o mercado imobiliário apresentava “sintomas de bolha” e, em 2003, estimou que esse mercado estava superfaturado em 42% em relação à média das três décadas anteriores. Na própria Irlanda, os economistas David McWilliams e Morgan Kelly tinham igualmente atentado para a formação de uma bolha que eles já tinham identificado.

Contudo, as instituições e os analistas irlandeses, entre eles os meios de comunicação, negaram em bloco a existência desse risco, sustentando que o boom não teria consequências negativas para a economia. Antes de 2008, a tendência era ignorar a bolha, e, quando esta estourou, foram necessários vários meses, até o início da queda dos preços, para os meios de comunicação enfrentarem a realidade. […]

Os primeiros artigos de forma geral se recusaram a reconhecer a existência da bolha, como provam alguns títulos do Irish Times: “Estudo rejeita a ideia de bolha imobiliária”; “Preços dos imóveis caminham para uma aterrissagem tranquila”. Da mesma forma, o Irish Independent – Sunday Independentdeu a seguinte manchete: “Os operadores do banco nacional negam a ameaça que representaria o rompimento da bolha para os valores praticados no mercado imobiliário”; “O preço dos imóveis não está próximo de baixar, insistem os leiloeiros”; “Relatório afirma que os preços imobiliários ‘não estão superfaturados’”; ou “A bolha imobiliária é um mito”. Para ser mais preciso, entre 2000 e 2007, o Irish Timespublicou mais de 40 mil artigos de economia; apenas 78 deles, ou seja, 0,2%, mencionavam a bolha imobiliária. Uma cobertura superficial para o problema econômico mais agudo da época.

As páginas consagradas aos anúncios de imóveis residenciais e comerciais ofereciam textos e fotografias atraentes, com ares de “reportagem-propaganda” que incitavam os leitores a tornarem-se proprietários em vez de locatários. Um artigo intitulado “Milhares de razões para comprar” apresentava novos apartamentos de luxo “dotados de cozinhas de qualidade, concebidas por designers, com eletrodomésticos da marca AEG integrados e bancadas de pedra; banheiros com azulejos cerâmicos, máquina lava-louça e metais cromados nas pias e chuveiros”. O autor da nota aconselha os potenciais compradores a não perder tempo: “As disponibilidades são muito limitadas – e é melhor investir rápido”. Outro artigo dissemina o protótipo do comprador imobiliário irlandês – “esse otimismo incorrigível em busca do bem mais precioso” – pelo mundo todo: “Na era vitoriana, era de bom-tom para os britânicos afirmar que o ‘sol jamais se põe sobre o império’. Atualmente, poderia se dizer que o sol jamais se põe sobre o império imobiliário irlandês em plena expansão”.

Para descrever o mercado, os meios de comunicação se fiam em, digamos, especialistas financeiros ou imobiliários que quase invariavelmente fazem análises positivas. Por exemplo, em novembro de 2007, o Irish Timesempreendeu uma pesquisa de opinião para prever a evolução das tendências em 2008. Os seis especialistas interrogados, que ocupavam altos cargos em grupos imobiliários, formularam – sem surpresa – previsões de otimistas a entusiasmadas.

Certos jornalistas anunciaram simplesmente a promoção do setor imobiliário. Muitos se obstinaram a negar a existência da bolha, tanto antes como depois de sua implosão. Em 2007, um deles publicou um livro intitulado The Best Is Yet to Come(O melhor ainda está por vir), no qual defende a ideia de que, “longe de se afundar, a economia e os preços dos imóveis na Irlanda ainda podem evoluir”. Para proteger o país da crise, bastaria calar o risco, de medo que ela se realizasse: “Se não tocarmos no assunto, escaparemos do cataclismo econômico”. Em abril de 2008, o Sunday Independentreproduziu a opinião de um agente imobiliário convencido de que era “um ótimo momento para comprar: o mercado apresenta um grande potencial neste momento”.

Mesma lógica na televisão. Durante o boom, o canal público Raidió Teilifis Éireann (RTÉ) alimentou a obsessão nacional pelo setor imobiliário ao difundir programas como House Hunters in the Sun (Caçadores de casas sob o sol), Showhouse (Casa espetáculo), About the House (Sobre a casa) ou ainda I’m an Adult, Get Me Out of Here (Sou adulto, tire-me daqui!). Programas de atualidades como Prime Time também contribuíram para o processo. Entre 2000 e 2007, de 717 programas televisionados, apenas dez (1% do total) repercutiram o boom imobiliário. Apresentaram no total 26 convidados, dos quais onze vinham do setor imobiliário ou financeiro (banqueiros, seguradores ou operadores), quatro eram políticos dos principais partidos (Fianna Fáil, Fine Gael e Labour), quatro eram jornalistas, quatro eram universitários ou pesquisadores e três eram conselheiros econômicos. Apenas dois deles afirmaram claramente que a bolha era real e de fato iria estourar. Os outros, quando não se perdiam em considerações vagas, juravam que o mercado estava sólido e que assim permaneceria nos anos seguintes, ou ainda que voltaria a níveis mais razoáveis, sem nenhum dano, caso o dinamismo retrocedesse.

Atualmente, enquanto o setor imobiliário se reacomoda, principalmente em Dublin, o discurso não varia. A situação é diferente, já que o país não é mais confrontado com uma enorme bolha imobiliária. Mas os meios de comunicação tendem a manter a mesma orientação de antes de 2008: editoriais e reportagens refletem interesses das elites em detrimento dos da população. Não surpreende, pois a estrutura político-econômica da mídia […] não mudou. A mídia permanece controlada por grandes grupos ou pelo Estado; a publicidade ainda desempenha um papel crucial nos números desse setor; e os jornalistas seguem priorizando fontes da classe política e econômica do país.

* Julien Mercille é professor da Universidade College Dublin. Autor de The Political Economy and Media Coverage of the European Economic Crisis: The Case of Ireland [A política econômica e a cobertura da mídia da crise econômica europeia: o caso da Irlanda], Routledge, Londres, 2015.



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