Não existe justiça climática sem paz
O mundo vem adiando, ano após ano, a escolha entre dois tipos de segurança: a que se compra com armas e a que se compra impedindo que o clima destrua safras, cidades costeiras e cadeias de suprimento inteiras
Em janeiro de 2026, forças especiais dos Estados Unidos invadiram Caracas, capturaram Nicolás Maduro e o levaram para uma prisão em Nova York; sete meses depois, Washington ainda diz administrar a transição do país, e as exportações de petróleo venezuelano bateram o maior volume em sete anos, um detalhe que talvez explique o episódio melhor do que qualquer discurso sobre “defesa da democracia”. Há uma contradição particularmente incômoda em tempos de crise climática. O mundo precisa abandonar os combustíveis fósseis com uma urgência sem precedentes e, ao mesmo tempo, continua organizando parte de seu poder e de seus conflitos em torno deles.
Não é a primeira vez que o mundo troca de fonte de energia, nem a primeira em que essa troca redesenha, mais do que resolve, a geografia do poder. Ao longo da história moderna, a expansão territorial esteve intimamente ligada à conquista de áreas estratégicas para a produção de energia. Foi para garantir combustíveis à frota britânica que Winston Churchill, em 1911, trocou o carvão por petróleo e comprou secretamente o controle da futura BP, tornando o Golfo Pérsico uma questão de segurança nacional antes mesmo da Primeira Guerra Mundial. A primeira de várias transições energéticas que prometeram modernização e entregaram, também, uma nova cartografia de territórios “úteis” ao desenvolvimento.
Do carvão ao petróleo, da energia nuclear aos minerais críticos, a fórmula pouco mudou e a apropriação de territórios considerados “úteis” ao crescimento econômico foi reiteradamente justificada pelo progresso, quando, nas coxias, tratava-se de uma questão de segurança. A Venezuela, que hoje declara deter a maior reserva de petróleo do planeta – número contestado por especialistas, mas indiscutivelmente entre as maiores do mundo –, permanece inscrita nessa lógica histórica. Esse episódio na Venezuela não interessa por ser uma anomalia; interessa porque confirma essa regra centenária.
E a regra não é americana, nem latino-americana, é o que acontece quando a energia fica escassa ou insegura. Desde a invasão da Ucrânia em 2022, a Europa reduziu sua dependência do gás russo de 45% para cerca de 12% das importações. Não porque essa dependência tenha
causado a guerra, mas porque a guerra obrigou o continente a reconstruir, em tempo recorde, rotas, contratos e alianças inteiras de segurança energética, do gás natural liquefeito americano e catari a acordos com fornecedores africanos, com o compromisso de banir de vez o gás russo até 2027. O problema, nos dois casos, não é que a energia fóssil gere conflito, é que o mundo tenta construir a transição bem no meio da sua dependência mais profunda da matriz que a transição deveria substituir.
A saída parece óbvia: acelerar a transição. Só que sair do petróleo e do carvão não é um gesto trivial; é obra de engenharia e mineração em escala inédita. Turbinas eólicas, painéis solares, redes elétricas e baterias de carro precisam de cobre, lítio, níquel, cobalto e terras raras em volumes que a indústria de mineração nunca movimentou. O historiador Timothy Mitchell mostrou, em Carbon Democracy, como a própria forma da democracia de massas do século XX foi moldada pelo tipo de energia que a sustentava. Trocar essa base material, argumenta ele, também reconfigura quem tem poder de barganha sobre o sistema, o que quer dizer que a pergunta sobre justiça climática não pode se limitar a quem emite carbono e quem paga por seus efeitos. Ela também precisa perguntar quem controla os minerais da nova matriz, quem os processa, quem captura o valor gerado e quem arca com o custo de extraí-los.
As respostas a essa pergunta variam e nem sempre confirmam o pior cenário. A Indonésia proibiu a exportação de níquel bruto e forçou as mineradoras a instalar fundições em seu território; hoje refina mais níquel do que qualquer outro país do mundo e mantém superávit comercial há mais de cinco anos, uma rara história de um país do Sul Global capturando, e não apenas cedendo, valor da nova economia verde. O leste do Congo, que concentra parte relevante das reservas mundiais de cobalto e coltan, mostra o oposto.
Um relatório de especialistas da ONU descreveu o grupo armado M23, que controla parte desse território, como estando sob “direção de fato” de Ruanda, para onde os minerais são contrabandeados antes de reentrar nas cadeias de fornecimento globais como se fossem de outra origem – as mesmas cadeias que abastecem, como documentou o jornalista Siddharth Kara, em Cobalt Red, as baterias dos carros elétricos vendidos na Europa. A diferença entre os dois casos está menos na geologia e mais na capacidade de cada Estado de negociar os termos da própria exploração; é a mesma pergunta, com uma resposta bem diferente, que cabe em Minas Gerais, onde o Brasil detém quase toda a reserva mundial de nióbio, mas exporta 97% do seu lítio bruto para a China, sem capturar o valor de refiná-lo.
Há ainda um terceiro tipo de resposta que nem chega a ser sobre extração, é sobre soberania. A Groenlândia, território autônomo dinamarquês, concentra uma das maiores reservas de terras raras do mundo, além de lítio, níquel e cobalto – os mesmos minerais indispensáveis a baterias, painéis solares e turbinas eólicas, e por isso mesmo passou a ser cobiçada abertamente por Washington nos últimos dois anos. A China, que hoje refina cerca de metade do lítio, quase três quartos do cobalto e mais de dois terços do níquel do mundo, também não é espectadora nessa disputa. Não é preciso presumir uma finalidade bélica para entender o que está em jogo. Um território que ninguém disputava havia um século, hoje derretendo sob o efeito do próprio aquecimento global, tornou-se ativo geopolítico pela mesma razão que o Golfo Pérsico se tornou um século atrás.
Há, aliás, um nome para esse padrão, e ele já circula dentro das próprias negociações climáticas: colonialismo climático. A expressão descreve um mundo em que os custos ambientais – inclusive os da nova economia verde – recaem de forma desproporcional sobre populações racializadas e do Sul Global, e vem ganhando peso político nas conferências do clima da ONU, onde ativistas têm articulado, com força crescente, os debates sobre clima e paz. As manifestações contra a ofensiva militar em Gaza que marcaram as últimas COPs não pretendiam explicar a crise climática a partir de um conflito específico – o que seria simplista –, mas insistir que ambos os debates remetem a uma mesma questão: que tipo de transição e de segurança energética o mundo está disposto a construir?
Nenhum desses episódios é exceção isolada. Da Venezuela ao leste do Congo, passando pelo Ártico, cada vez que a energia velha ou nova vira motivo de disputa, parte da resposta vem em forma de armamento, não de investimento; e essa resposta tem um preço que raramente entra na conta da crise climática. Em 2025, o mundo gastou US$ 2,89 trilhões em forças armadas, o maior valor já registrado e o décimo primeiro ano seguido de alta, segundo o instituto sueco Sipri. No mesmo período, o financiamento climático global superou US$ 2 trilhões pela primeira vez, mas segue muito aquém dos US$ 6 a 7 trilhões anuais que analistas calculam ser necessários até 2030 para financiar mitigação, adaptação e proteção de ecossistemas. Um relatório do secretário-geral da ONU, António Guterres, resumiu o desequilíbrio em um número: os países mais ricos gastam cerca de 30 vezes mais com suas Forças Armadas do que investem em adaptação climática nos países mais vulneráveis, e algo como 15% do gasto militar global de um único ano bastaria para cobrir as necessidades de adaptação de todo o mundo em desenvolvimento.
Não se trata de sugerir que basta tirar dinheiro da defesa e jogar no clima (afinal, orçamentos de segurança não se realocam por decreto e nenhum país larga as armas porque um problema mais grave apareceu). Trata-se de reconhecer que o mundo vem adiando, ano após ano, a escolha entre dois tipos de segurança: a que se compra com armas e a que se compra impedindo que o clima destrua safras, cidades costeiras e cadeias de suprimento inteiras. E quando o clima finalmente entra na conversa sobre segurança – como já entra, desde o início dos anos 2000, em relatórios de defesa dos países ricos –, costuma entrar pela porta errada: mais vigilância de fronteira do que investimento em quem já vive a crise.

O Brasil oferece um exemplo concreto e doméstico do mesmo mecanismo. Desde 2024, tramita na Câmara um projeto de lei que inclui, na definição legal de terrorismo, crimes ambientais cometidos por motivação política ou ideológica, como resposta ao aumento de incêndios de origem criminosa na Amazônia. E a Lei Antifacção, sancionada em 2026, para endurecer o combate ao crime organizado, passou a tratar a extração ilegal de minérios como agravante equiparável à atuação de facções. Isso já rendeu alertas de que a nova arquitetura penal pode, paradoxalmente, enfraquecer a fiscalização ambiental de rotina, hoje conduzida fora do aparato de combate ao crime organizado. Não é que reprimir crime ambiental seja ilegítimo, pelo contrário, em geral, é necessário. É que, uma vez dentro do vocabulário da segurança e do terrorismo, o problema ambiental muda de dono. Quem ganha competência sobre o território deixa de ser quem fiscaliza, e passa a ser quem persegue.
Volte a Caracas. Sete meses depois da captura de Maduro, o petróleo volta a fluir, os contratos se refazem, e o mundo trata o episódio como uma anomalia superada. Não é. É o mesmo paradoxo da abundância de sempre, e ele não desaparece quando trocamos o petróleo por lítio, nem quando trocamos os generais por sensores de risco climático, ele só se veste de novo. Nada disso é argumento contra a transição energética. Ela é urgente demais, necessária demais, para que se aceite que reproduza as estruturas de extração, dependência e violência da economia que promete substituir.
Se a saída dos fósseis continuar acompanhada por episódios como o da Venezuela, se a nova economia verde repetir, do Congo à Groenlândia, as fronteiras extrativas e as disputas de soberania que a antecederam, e se a militarização seguir consumindo os recursos que a resposta ao clima exige, então paz não é uma agenda paralela à justiça climática, é uma de suas condições. Não existe justiça climática sem paz porque, sem ela, toda transição energética é apenas mais uma reorganização violenta do mesmo mundo em crise, agora movida a lítio.
Gabriel Mantelli é Coordenador de Políticas Climáticas da LACLIMA. Professor da FGV Direito SP e Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP
Yago Ferreira Freire é Coordenador de Políticas Climáticas e Mercados de Carbono da LACLIMA. Mestre em Direito Internacional pela University of Glasgow, e em Relações Internacionais pelo IBEI

