ENTREVISTA

“Não volte sem ele”: Rafael Caneca fala sobre romance de estreia, em que revisita os campos de concentração do Ceará

Em Não volte sem ele, o autor cearense lança mão da ficção histórica para iluminar um dos episódios mais silenciados da história brasileira

Ambientada no Ceará da década de 1930, o escritor e servidor público Rafael Caneca estreia no romance com a obra Não volte sem ele, publicada pela editora Mondru, em que se debruça sobre a criação dos campos de concentração – conhecidos como “currais do governo” –instituídos durante a grande seca como política de contenção das populações sertanejas que tentavam chegar à Fortaleza. Entre memória, tragédia, fé e esperança, o livro revisita um passado brutal que ainda ecoa no presente.

A narrativa acompanha Tomás, jovem sertanejo que parte em busca do irmão Antônio, desaparecido em Fortaleza. Sua travessia revela a violência imposta pelo Estado, o sofrimento dos retirantes e a tentativa de sobreviver em meio à fome e ao confinamento forçado. Com orelha escrita por Grecianny Carvalho Cordeiro e texto de contracapa de Ronaldo Correia de Brito, o romance dialoga com a tradição do Romance de 30 e constrói um retrato duro e sensível do sertão cearense, onde a esperança persiste, mas não oferece garantias de redenção.

Rafael é graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará e assessor jurídico do Ministério Público do Estado do Ceará, escreve desde a infância e mantém há mais de uma década o perfil literário Pacote de Textos. Integrante do coletivo de escritores Delirantes, o autor foi vencedor do Prêmio de Literatura BNB Clube (2017) e recebeu menções honrosas em concursos do Ideal Clube. Influenciado por nomes como Machado de Assis, Graciliano Ramos e José Saramago, Caneca fala nesta entrevista sobre o processo de escrita, as escolhas estéticas do romance e o impacto pessoal de revisitar um dos capítulos mais sombrios da história cearense.

Ao revisitar a estiagem de 1932 e os chamados “currais do governo”, você toca em um episódio de segregação social pouco debatido da história cearense. O que te levou a resgatar esse período em Não volte sem ele?

Com o encerramento das atividades do clube de assinatura de livros Pacote de Textos, que organizei por quase seis anos, retornei para o coletivo de escritores de que fazia parte, o Delirantes, que estava desenvolvendo um novo projeto: uma coletânea de contos com histórias cujo pano de fundo trazia fatos relevantes da História do Ceará, de fins do século XIX às primeiras décadas do século XXI, tendo a linha férrea que unia o Estado de Norte a Sul como elemento integrador de cada uma dessas histórias. Ou seja, cada conto a ser escrito deveria se referir a uma estação da via férrea e, ao mesmo tempo, relacionar-se com um determinado evento histórico. Como o livro já estava em andamento, havia poucos temas livres – mas um deles me atraiu imediatamente: “A estiagem de 1932 e os campos de concentração”, que deveria abranger também a estação de Senador Pompeu. Pesquisei e escrevi um conto que intitulei de “Patu”, mas achei que a história merecia muito mais do que uma narrativa curta. Foi a partir daí que decidi transformar “Patu” e a história de Tomás em um romance, em um processo que durou cerca de dois anos.

A obra atravessa temas como memória, história, esperança, seca, tragédia e violência de Estado. Por que escolheu abordar estes temas?

O livro fala sobre um período da história brasileira, mais especificamente cearense, que revela uma política de governo – quiçá de Estado! – de segregação social: um período em que se buscou oficialmente evitar que as camadas mais pobres da população, que moravam no sertão e que passavam por uma longa seca (e, consequentemente, por uma fome extrema), chegassem à capital. Assim, foram construídos “campos de concentração” (chamados de “currais do governo”), em que a violência estatal era bem perceptível, para evitar que os sertanejos pobres se deslocassem para Fortaleza e, na percepção do governo, deixassem a capital mais feia e mais suja. Ainda assim, muitos sertanejos mantinham a esperança, amparados na sua fé e religiosidade. Resgato essa história como um reforço à memória e um lembrete para que ela nunca mais se repita.

Crédito: Divulgação/Mondru

O livro tensiona ideias como fé, esperança e sobrevivência. Que reflexões você espera que essa história acabe provocando no leitor?

Antes eu me preocupava mais com essa ideia de “passar uma mensagem” por meio do texto. Hoje, não. Hoje, minha intenção é apenas “contar uma história” – e aceito que cada leitor vai interpretá-la à sua maneira, com os próprios olhos e as próprias crenças. Ainda assim, é inevitável que o livro carregue algo muito pessoal: minha percepção de que muita gente se agarra à fé e à esperança como ferramentas para enfrentar tragédias, violências e cicatrizes. Eu entendo esse impulso, ele é humano. Mas, para mim, isso nunca foi suficiente. Fé e esperança, sozinhas, não impedem tragédias nem desfazem violências. Talvez por isso o livro seja triste, como alguns leitores já avaliaram – e não me surpreendeu. Na verdade, era um pouco a intenção.

Em termos pessoais, o que a escrita desse livro representou para você?

Em uma palavra: amadurecimento. Sempre fui de escrever histórias mais curtas, contos e crônicas, porque, além de achar que não tinha fôlego para histórias mais longas, minha ansiedade não me permitia começar uma história e não terminá-la na mesma oportunidade. Então, serviu para trabalhá-la, para eu descobrir que, com muito planejamento – e controle de ansiedade –, sou capaz de concluir um projeto dessa envergadura.

Indo além da escrita, conhecer mais a fundo esse triste episódio me fez reforçar ainda mais sentimentos de repulsa contra acontecimentos que não desejo que se repitam nunca mais.

Quais são as suas principais influências artísticas e literárias?

Literariamente, Machado de Assis, Graciliano Ramos e José Saramago são minhas maiores influências. Desses, acredito que os dois primeiros (com maior ênfase em Graciliano) foram os que exerceram mais influência em Não volte sem ele. Artisticamente, principalmente na música, Iron Maiden, Dream Theater, Titãs, Engenheiros do Hawaii e Angra são minhas inspirações.

Seu estilo privilegia uma escrita direta, com crítica social e ironia nas entrelinhas. Como essa opção estética se reflete na estrutura narrativa que você adotou para o romance?

No livro, optei por evitar a tradicional “jornada do herói” e pela escolha, de fato, de um estilo mais direto, sem floreios nem grandes digressões. A ironia aparece nos detalhes, e a crítica social aparece às vezes escancarada, às vezes só sugerida.

Essa preferência pela escrita direta também se refletiu na opção por uma narrativa predominantemente linear, interrompida em alguns momentos ao longo do percurso apenas por alguns episódios do passado que ajudam a iluminar o presente e também por momentos de delírio.

Como é sua relação com a escrita?

Com o perdão do lugar-comum, posso afirmar que a escrita me acompanha desde a infância. Às vezes, acompanhava meu pai, que é funcionário aposentado do Banco do Nordeste, nas viagens que ele fazia a trabalho; para me ocupar, sentava à máquina de escrever e criava histórias do Batman, meu super-herói preferido da infância. Com o tempo, desenvolvi minhas próprias personagens e suas histórias; aos 14 anos, fui o mais jovem a ser selecionado em um concurso de contos estadual; durante o colégio, ainda cheguei a participar da equipe que ganhou um concurso de literatura de âmbito nacional, o extinto Prêmio Nestlé de Literatura.

Quais são os seus projetos atuais de escrita?

Tenho uma primeira versão de outro romance já escrito – também inspirado em um fato real, mas dessa vez mais contemporâneo: a queda do edifício Andrea, em Fortaleza, tragédia ocorrida em 2019.

Além disso, tenho um livro de contos em estágio mais avançado. São histórias trágicas ambientadas em cenários que, à primeira vista, parecem paradisíacos. A ideia é tensionar justamente essa imagem de “paraíso”: mostrar que nem mar azul, nem pôr do sol instagramável, nem areia branca imunizam ninguém contra violência, desigualdade ou miséria moral. O cartão-postal pode até enganar de longe; de perto, a vida continua sendo vida – com tudo o que ela tem de áspero.

 

Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

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