Nápoles, o futuro da Europa? - Le Monde Diplomatique

AS FACES DA CRISE

Nápoles, o futuro da Europa?

por Angelo Mastrandrea
2 de abril de 2013
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Há anos, Nápoles exibe duas faces: capital cultural com passado comunista e operário e também cidade da Camorra, dos trabalhos temporários e da contravenção. Ao elevar o desemprego, a crise fez da precariedade e da malandragem rotina de um número crescente de habitantes. Um presságio do que vai acontecer com a Europa?Angelo Mastrandrea

Segundo a lenda, Osso, Mastrosso e Carcagnosso, cavaleiros de Toledo filiados à loja maçônica La Gardenia, refugiaram-se em 1400 em uma pequena ilha do arquipélago de Égadi, onde lançaram as bases das três máfias: a siciliana Cosa Nostra, a ‘Ndrangheta calabresa e a Camorra napolitana. Uma tríade com a qual a Itália do Sul, a partir de então, não deixaria mais de acertar as contas.

Pode-se imaginar o estupor da intelligentsianapolitana quando se deu conta de que a obra de arte representando um homem a cavalo, encomendada ao escultor sul-africano William Kentridge e exposta na saída da nova estação de metrô Toledo, em pleno centro da cidade, intitulava-se O cavaleiro de Toledo, em outras palavras, Carcagnosso, o fundador da Camorra, esse anti-Estado que o Conselho Municipal rosso-arancione,1 dirigido pelo ex-magistrado Luigi de Magistris, pretende erradicar.

Se a gafe foi fruto da leviandade, da ignorância ou de uma escolha deliberada ainda precisa ser esclarecido. Mas o caso oferece uma metáfora perfeita das contradições de Nápoles. De um lado, a cidade esforça-se para recuperar seu charme de capital majestosa investindo no setor público e na cultura: o novo metrô-museu repleto de obras de arte, que liga o centro da cidade aos bairros de periferia mais violentos da Europa, pode ser considerado o mais bonito do continente.2 De outro, a cidade continua sofrendo dos males atávicos que reaparecem continuamente. O assassinato de um chefão da Máfia na praia, no último verão, desencadeou uma guerra entre grupos criminosos pelo controle do mercado de drogas, que deixa, todos os dias, mortos e feridos, muitas vezes garotos, na periferia norte de Scampia. E, com uma taxa de desemprego entre jovens avaliada pelo Instituto de Estatística (Istat) em 47%, a situação social está sempre à beira da explosão.

 

Uma “Idade Média capitalista”

Quem desejar avaliar a crise europeia, e talvez tentar prever seu desenrolar, deve vir para cá, para esta “cidade porosa”, como a definiu Walter Benjamin em uma feliz metáfora que comparava os napolitanos ao tufo vulcânico sobre o qual sua cidade foi construída. Uma cidade onde centenas de laboratórios clandestinos produzem, com toda a tranquilidade, contravenções de todo tipo, de CDs piratas a bolsas Louis Vuitton ou Prada falsificadas. Uma cidade em que um fenômeno musical, o dos cantores chamados “neomelódicos”, tem seu próprio sistema de produção e comercialização, frequentemente utilizado pela Camorra para lavar dinheiro ou para enviar mensagens.

Joseph Halevi está convencido: o futuro da Europa pode ser lido aqui. O pesquisador da Universidade de Sydney, colaborador renomado do jornal comunista Il Manifesto, prevê, para o conjunto do Velho Continente, o início de uma “Idade Média capitalista”. Como ele imagina essa nova idade do obscurantismo? “Como uma grande Nápoles, onde, toda manhã, os habitantes se vestem e saem às ruas para ganhar seu pão de cada dia.” A arte do expediente tipicamente napolitana, tal como foi imortalizada em dezenas de filmes, se tornaria então um modelo europeu?

A crise econômica e financeira de 2007, em vez de provocar o fechamento de fábricas, agiu de maneira subterrânea sobre as redes de ajuda mútua, a economia informal e as relações sociais. Nos faróis vermelhos, pessoas de idade disputam agora com os imigrantes mais pobres a função tradicional de lavadores de para-brisas. Assistente social, Andrea Morniroli participou do Comitê “O bem-estar não é um luxo”, uma rede de 150 associações e cooperativas – entre as quais a sua, Dedalus – que, sob o governo de Silvio Berlusconi, lutou contra os cortes orçamentários. O que ele conta nos faz tremer: “Quando cheguei a Nápoles, há dezessete anos, encontrei nos bairros espanhóis uma situação pior do que a que eu conhecia em Turim, no bairro multicultural de San Salvario. Mas, mesmo com os imigrantes, existia uma mediação informal dos conflitos e um respeito mútuo, baseado no fato de que todo mundo era ilegal e tinha de ganhar a vida. Hoje, a economia informal, que permitia a milhares de pessoas sobreviver graças a vários pequenos trabalhos, não se sustenta mais. De imediato, essa mediação terminou. Os pobres começaram a competir entre si. Os incidentes ligados ao racismo se multiplicam como nunca; pessoas que, há pouco tempo, levavam uma vida normal tornaram-se indigentes; a prostituição ocasional, tanto masculina como feminina, aumentou”. Nos abrigos noturnos, o número de italianos triplicou desde 2008. Com a ajuda de associações, a municipalidade pretende reabrir o Real Albergo dei Poveri que os Bourbons haviam construído em meados do século XVIII. Ele se tornará o maior albergue noturno da Europa.

Para quem quiser avaliar a dimensão da economia informal – ironicamente chamada “economia da ruela” por sociólogos e economistas –, o Rione Sanità é uma etapa obrigatória. Trata-se de uma verdadeira cidade dentro da cidade, ao menos depois que, no início do século XIX, José Bonaparte mandou construir uma ponte para alcançar a colina que abriga o palácio real de Capodimonte cavalgando por este entrelaçado de ruelas onde hoje vivem 70 mil pessoas.

É nesse bairro que mora o missionário colombiano Alex Zanotelli, figura do movimento antiglobalização, que mudou para lá após uma longa atividade na favela de Korogocho, no Quênia.Para ele, o desastre social do bairro se deve, em grande medida, ao berlusconismo, única ideologia que conseguiu, em razão do bombardeamento midiático, penetrar nos lares e nas consciências. “Ao lado da crise econômica, sobre a qual todos falam, há uma crise ecológica, que poucos denunciam, e uma crise antropológica ainda mais preocupante”, afirma Zanotelli. “Aqui, muitas moças querem se tornar veline,3 e os rapazes só pensam em motos e drogas. Nenhum deles jamais sai do bairro, e muitos nunca viram o mar. São mais violentos que os rapazes da mesma idade que conheci em Korogocho. Sentem um ódio que aqueles não sentiam, e o berlusconismo apagou até o último valor que lhes restava: a família.” A única coisa que os une é a paixão pelo time de futebol local, que permaneceu intacta desde a época em que o clube contava com Diego Maradona entre seus jogadores.

Quanto à crise ecológica, ela adquiriu caráter de urgência. As imagens da cidade submersa pelo lixo e da revolta dos cidadãos, em 2009, deram a volta ao mundo. Agora, o problema parece ter sido resolvido: a monnezza(lixo, em dialeto napolitano) é enviada para a Holanda para ser incinerada. No entanto, em Giugliano, nas portas da cidade, existe um monumento à memória imortal das perversidades do passado: um depósito de 8 milhões de ecoballe, lixo de todo tipo embalado em plástico. Impossível de ser queimado ou tratado em razão de sua toxicidade, ele ocupa um espaço do tamanho de uma cidade média e está destinado a permanecer por lá, como as pirâmides do Egito ou o Coliseu, a testemunhar a decadência da civilização do capitalismo tardio.

Em 1991, o fechamento das siderúrgicas Ilva de Bagnoli marcou o fim do sonho industrial, que havia, entretanto, produzido um resultado precioso: a formação de uma classe operária dotada de uma consciência própria, para além da ideologia do “cada um por si” que impregnava a “economia da ruela”. Em seguida, assistimos à crise dos estaleiros de Castellammare di Stabia, os mais antigos da Itália. Na fábrica da Fiat de Pomigliano d’Arco, no subúrbio de Nápoles, o diretor, Sergio Marchionne, instaurou relações sociais fundadas na redução das garantias para os trabalhadores e na destruição dos sindicatos que se recusassem a cooperar. Nenhum dos adeptos do principal sindicato dos metalúrgicos (Federazione Impiegati Operai Metallurgici – Confederazione Generale Italiana del Lavoro, Fiom-Cgil) figurou entre os 2.091 privilegiados reempregados na nova fábrica – embora a justiça tenha posteriormente condenado a empresa por repressão antissindical e imposto a reintegração de dezenove trabalhadores.

Segundo a Cgil, a metrópole perdeu, no decorrer dos últimos três anos, 75 mil postos de trabalho, sendo 23 mil na indústria, 30 mil nos serviços, 8 mil na agricultura e quase 10 mil no setor da construção. O PIB da Campânia, região cuja capital é Nápoles, sofreu uma queda de 10%. Vimos também aparecer os esodati– contam-se mais de 30 mil em Nápoles –, trabalhadores de mais de 50 anos excluídos do mercado de trabalho, mas que não podem receber aposentadoria.4 E mesmo aqueles que têm um emprego não conseguem se manter tão bem: receber o salário com meses de atraso se tornou uma norma. Esse clima cria uma angústia permanente: em 19 de dezembro de 2012, todos os transportes públicos da cidade foram paralisados por uma manifestação espontânea dos motoristas após a divulgação de um rumor segundo o qual seu 13° salário não seria pago.

Pode parecer paradoxal que essa cidade-paradigma seja governada, desde maio de 2011, por uma esquerda radical que mandou para a oposição não apenas a direita, mas também o Partido Democrata (PD). É que esses locais repletos de contradições e de conflitos geram um forte antagonismo social, cuja pressão levou à vitória de De Magistris.

 

Premência de outros modelos

Por outro lado, o professor de Direito Público da Universidade Frederico II de Nápoles e da Universidade Paris I, Alberto Lucarelli, colaborador do movimento sobre os “bens comuns” e a democracia participativa, pode se orgulhar de ter conseguido que o fornecimento de água retorne para o seio do serviço público e de as assembleias do povo terem sido criadas, graças às quais os habitantes podem impor à cidade temas para serem debatidos. Ele trabalha atualmente na revisão das concessões das praias municipais a particulares, a fim de que elas possam retornar para o controle da prefeitura.

“Nosso desafio é criar uma democracia comum, que vá além da teorização de Toni Negri e de Michel Hardt”,5 explica Lucarelli, aproveitando uma pausa durante o Conselho Municipal inflamado. O modelo é o da autogestão. Mas as dificuldades que a administração “esquerdista” de Nápoles deverá enfrentar são enormes: a corrupção e o clientelismo, onipresentes, além da hostilidade das mídias locais. Ela também deverá fazer frente, antes das eleições, ao governo de Mario Monti, que subordinava os fundos do Estado às privatizações e à venda do patrimônio municipal. Não obstante a vitória do partido de centro-esquerda – o PD obteve 33% dos votos da cidade –, o humilhante fracasso da lista de esquerda radical (Rivoluzione Civile) nas eleições legislativas de fevereiro de 2013 não facilitará a aplicação do programa de democracia radical iniciada pelo Conselho Municipal.

Se o escritor Ermanno Rea6 apoiou o prefeito De Magistris, ele deixa, hoje, transparecer uma ponta de decepção: “Nápoles precisará de outros modelos de produção, que explorem as potencialidades do território e respeitem o meio ambiente. Os napolitanos só vencerão se forem capazes de projetar uma utopia”. Uma utopia capaz de agitar as consciências, modificar comportamentos tão arraigados e suscitar o entusiasmo – o “entusiasmo do impossível”, como o definiu Rea, que poderia ser estendido para toda a Europa. História de conjurar a ameaça da “Idade Média capitalista”.

Angelo Mastrandrea é escritor, jornalista e diretor adjunto do jornal Il Manifesto, Último romance publicado: Il trombettiere di Custer {O trombeteiro de Custer}, Ediesse, Roma, 2011.



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