No Brasil, paliativistas cultivam humanidade em meio à dor
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, onde o sofrimento muitas vezes é silenciado ou institucionalizado, os cuidados paliativos despontam como uma resposta ética e humanista
O ativismo pela causa paliativista vale muito a pena. Essa convicção não surge apenas de uma análise técnica ou da defesa de uma especialidade médica. É algo que se sente na pele, no coração e na escuta profunda. Foi exatamente isso que se confirmou, com força e afeto, durante o 7º Encontro Brasileiro de Cuidados Paliativos, realizado em São Paulo, pelo Instituto Premier.
Durante o evento, era comum encontrar olhos cheios de lágrimas, sorrisos sinceros e abraços acolhedores. Ali, criou-se um espaço muito especial — um ambiente onde o cuidado transcende a técnica e se torna filosofia de vida.

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, onde o sofrimento muitas vezes é silenciado ou institucionalizado, os cuidados paliativos despontam como uma resposta ética e humanista. O movimento, ainda incipiente diante da imensa demanda, tem ganhado fôlego graças a vozes como a do médico Samir Salman, que articula um projeto que une formação, afeto e mobilização social.
Samir costuma dizer que, antes de formar paliativistas para cuidar dos outros, é preciso cuidar de quem cuida. Talvez seja justamente esse o diferencial da abordagem: a consciência de que o cuidado só é verdadeiro quando é integral — e começa dentro de cada profissional.
Embora com avanços, os números ainda são tímidos. Faltam profissionais capacitados, políticas públicas robustas e investimentos estruturantes. Mas o que não falta é paixão, envolvimento e disposição para semear. De norte a sul do país, pequenas sementes estão sendo plantadas, e em muitos lugares a realidade já começa a florescer.
Participar desse encontro foi, para mim, uma das experiências mais transformadoras que já vivi no campo do cuidado. Não foi apenas um evento formativo. Foi um mergulho em uma filosofia de vida. Tudo parecia sonho — mas era mais do que isso. Era um vislumbre de um Brasil que acredita que cuidar de gente é tão urgente quanto curar doenças.
A prática paliativista nos convida a colocar a pessoa no centro. A ouvir. A acolher a dor, o medo, a dignidade e os afetos que resistem mesmo diante da finitude. Por isso, o chamado é claro: precisamos de mais gente que goste, de verdade, de cuidar de gente.
Clécia Rocha é jornalista natural de Feira de Santana, Bahia, pesquisa comunicação como ferramenta de cuidado e é ativista dedicada aos cuidados paliativos, unindo sensibilidade e compromisso social em suas narrativas. Qualificou-se para ser cuidadora de idosos e atua na interface entre comunicação, direitos humanos e cuidado, buscando dar voz às histórias invisíveis e fortalecer o protagonismo humano em contextos de vulnerabilidade.

