Novos contornos da política mundial: um rápido olhar

ANÁLISE

Novos contornos da política mundial: um rápido olhar

por Liszt Vieira
12 de janeiro de 2022
compartilhar
visualização

Essa nova correlação de forças da geopolítica mundial levou, anos depois, ao fortalecimento de setores neofascistas que chegaram ao poder em diversos países, como os EUA com Trump, Brasil com Bolsonaro, e Polônia, Hungria no leste europeu, além da Ucrânia. No mesmo caminho, encontramos a Turquia, a Índia, as Filipinas, entre outros.

A queda do Muro de Berlim em 1989 e o desmoronamento da União Soviética em 1991 assinalam o fim da Guerra Fria e o início da hegemonia unilateral norte americana. Com sua Pax Americana, os EUA impuseram o modelo neoliberal que passou a ser aceito como dogma, reduzindo o papel do Estado, desregulando o mercado, provocando concentração de riqueza, supressão das leis de proteção social, precarização do trabalho, desemprego e empobrecimento dos trabalhadores.

Essa nova correlação de forças da geopolítica mundial levou, anos depois, ao fortalecimento de setores neofascistas que chegaram ao poder em diversos países, como os EUA com Trump, Brasil com Bolsonaro, e Polônia, Hungria no leste europeu, além da Ucrânia. No mesmo caminho, encontramos a Turquia, a Índia, as Filipinas, entre outros.

A lua de mel da Pax Americana foi interrompida em setembro de 2001 com o atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York. Em decorrência, os EUA invadiram no mesmo ano o Afeganistão, onde se encontrava Bin Laden, o autor intelectual do atentado e, aproveitando o impulso, em março de 2003 invadiram o Iraque que nada tinha a ver com o atentado terrorista, alegando o embuste da posse de armas de destruição em massa, que o Iraque nunca teve.

Sem a bipolaridade da Guerra Fria, a própria social-democracia europeia sucumbiu ante o neoliberalismo que degrada em toda parte, inclusive nos EUA, os índices de bem-estar social. Mesmo após a crise econômica mundial de 2008, o modelo neoliberal do capitalismo prevaleceu, pelo menos até a eleição de Joe Biden nos EUA que abandonou o dogma liberal purista e propôs investimento do Estado na economia da ordem de 3,2 trilhões de dólares. Biden enfrentou dificuldades para aprovar seu pacote no Senado, onde encontrou resistência até de um Senador democrata. O Congresso americano acabou aprovando cerca de 1,2 trilhões para investimento estatal na infraestrutura e tecnologia, o que vai gerar milhões de empregos, lembrando o período do New Deal de Roosevelt na década de 1930, após a Grande Depressão.

Essa nova postura do governo americano vai na contramão do novo tipo de golpe de Estado sem ocupação militar direta, os golpes “híbridos” que derrubam governos com vocação social, mediante ações e mecanismos de lawfare, para atender os interesses do grande capital. Apesar de produzir efeitos indesejáveis ao capitalismo neoliberal, essa decisão do governo Biden se justifica pela nova situação geopolítica mundial a ser enfrentada pelos EUA.

Como ensina a História, qualquer crise internacional pode, potencialmente, gerar conflitos armados, dependendo de um conjunto complexo de interesses e condições. A situação torna-se mais preocupante quando os países em confronto possuem armamento nuclear. Os conflitos que surgem no horizonte nesta terceira década do século XXI envolvem a Rússia – que se sente acuada pela Otan – com a Ucrânia, a China com Taiwan, ponta de lança do Ocidente na zona de influência chinesa, e Israel, país nuclear, que não aceita a pesquisa do Irã para obter autonomia nuclear.

mundial
Xi Jinping e Joe Biden (Crédito: U.S. Department of State from United States)

Mas, por trás dos conflitos visíveis, há um grande confronto opondo os EUA e a China que já inauguraram uma fase de guerra comercial e econômica. É a necessidade de enfrentar a China e alcançar um rápido desenvolvimento econômico, especialmente em tecnologia e infraestrutura, que explica a decisão do governo Biden em abandonar os dogmas neoliberais e aprovar um investimento estatal tão gigantesco na economia.

Todas as crises que vemos nesse início de 2022 podem ser solucionadas pacificamente, por meio de acordos. Ou não, dependendo de inúmeros fatores impossíveis de previsão. O fracasso das aventuras militares dos EUA no Iraque e Afeganistão, onde abandonaram seus aliados, assim como na Líbia de Kadhafi, pesa na balança em favor de soluções negociadas.

Mas também pesa na balança a chamada Armadilha de Tucídides: Quando surge uma potência emergente, a potência hegemônica anterior declara guerra. Os exemplos clássicos são a Guerra do Peloponeso, entre Esparta e Atenas, e as Guerras Púnicas, entre Cartago e Roma.

Não é provável que os atuais conflitos visíveis degenerem – a curto prazo, pelo menos – em confrontos armados, mesmo admitindo que, no Ocidente, não falte quem tenha saudade da época em que a Rússia era inimiga. Embora a posição de Putin, na visão de muitos analistas, seja apenas defensiva, há os que consideram a Rússia saudosa do território que tinha na época da União Soviética, assim como a Turquia parece nostálgica do passado glorioso de seu império otomano.

Mas o conflito tendencialmente mais importante é sem dúvida o confronto entre EUA e China. A hegemonia do imperialismo americano está ameaçada com a ascensão da China como potência emergente. E procuram barrar o avanço chinês contestando, por exemplo, a soberania chinesa no domínio do Mar da China, considerado águas internacionais.

Trata-se de um conflito que vai durar talvez todo o século XXI. E vai provavelmente influenciar novos arranjos e alianças, configurando novas e cambiantes correlações de forças. Segundo o general francês Vincent Desportes, ex-diretor da Escola de Guerra e do Centro de Doutrina do Exército francês, e professor na Escola de Ciência Política (Science Po) e de Engenharia, em sua entrevista ao jornalista Benjamin Rosoor (Blog l’or et l’argent), uma das mudanças notáveis que, a seu juízo, deverá ocorrer será a nova posição política internacional da Rússia. Até agora, a Rússia tem tomado decisões visando ao enfraquecimento da Europa. Putin apoiou Trump porque deseja enfraquecer Europa, como Trump. Mas, na opinião do general francês, a longo prazo a Rússia também terá conflitos com a China. A Rússia pós Putin poderá se integrar ao bloco europeu que passaria a ter mais independência dos EUA, com exceção da Grã Bretanha.

Ainda segundo o general francês, outro fator que vai influenciar a eclosão de futuras guerras é a questão ambiental, ou seja, guerras por recursos naturais. A guerra no Sudão, por exemplo, é uma guerra pela água. A Ecologia será um elemento importante nas guerras do futuro, que terão características de guerras “híbridas” ou mais provavelmente, como acredita o general Vincent Desportes, guerras de “alta intensidade”.

Trata-se de um prognóstico preocupante, mas, como disse o escritor francês Victor Hugo, o futuro é um “fantasma de mãos vazias, que tudo promete e nada tem”. E o espaço para utopias permanece aberto.

 

Liszt Vieira é defensor público, professor e doutor em Sociologia. Foi preso político, exilado, deputado no Rio de Janeiro nos anos 80, coordenou o Fórum Global na Rio-92 e foi presidente do Jardim Botânico do RJ. Autor de vários livros, sendo o último “A Democracia Resiste”.



Artigos Relacionados

O AGRO NÃO PRODUZ COMIDA, PRODUZ FOME

Por que a reforma agrária não acontece?

O AGRO NÃO PRODUZ COMIDA, PRODUZ FOME

Por que podemos dizer que agro é fome?

por Yamila Goldfarb
O agro não produz comida, produz fome

As doenças do capitalismo e a luta contra o agronegócio

por Allan Rodrigo de Campos Silva
OPINIÃO

Por que Lula? Nem caserna, nem casa-grande

Online | Brasil
por Berenice Bento
AMAZÔNIA OCUPADA #3

Madeira da Amazônia: normas avançam, mas só 10% da extração é regular

Online | Brasil
por Felipe Betim
CHILE – LIÇÕES DE UMA DERROTA

Jogar o jogo: nove parágrafos para uma nova força transformadora

por Jorge Arrate
O RETUMBANTE TRIUNFO DO REJEITO NO PROJETO CONSTITUCIONAL

No Chile, o futuro que nos escapou

por Álvaro Ramis
QUAL É O PLANO?

Programa de Bolsonaro quase assume a responsabilidade pela tragédia na educação

por Antonio Carlos Souza de Carvalho