O arauto do caos e a personalidade fascista - Le Monde Diplomatique

CONSTANTE ESTADO DE GUERRA

O arauto do caos e a personalidade fascista

por Guilherme Antonio de A. L. Fernandes
11 de março de 2021
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Se brevemente nos aventurarmos nos estudos de Theodor Adorno sobre a personalidade autoritária vinculada à concepção fascista de vida, vamos encontrar alguns elementos que podem ser facilmente revelados quando o presidente resolve abrir a sua boca

A maior parte dos brasileiros está sofrendo de uma profunda tristeza. Muitos perderam entes queridos, muitos ainda vão perder alguém. A maioria sente medo, cansaço, angústia e aflição por não aguentar mais as restrições, as dificuldades e a ameaça imposta à vida cotidiana. O outrora cantado em prosa e verso país da alegria (talvez por conta de um delírio ilusório construído durante a formação histórica desta nação) tornou-se o da tristeza, da desgraça, do descalabro, que olhou para dentro de suas mais profundas entranhas e encontrou uma enorme, imensa, gigantesca dificuldade de sentir esperança.

Há um vírus que insiste em não ir embora, mas que, na realidade, encontrou no Brasil sua maior possibilidade de permanência, sobrevivência e multiplicação. Enquanto o país se transforma numa bomba biológica, de pária para ameaça ao mundo, a tristeza brasileira se intensifica por conta de uma sensação de impotência e ausência de luz no fim do túnel. Grande parte sequer acredita haver ainda um túnel, mas sim um profundo poço, cujo chão teima em não chegar e a queda apenas acelera e intensifica a angústia e a aflição. Sabem que a maior razão para essa profusão de sentimentos ruins tem a ver com a incompetência e o completo desinteresse em agir daquele que deveria liderar e conduzir o país nessa dura travessia.

Existem inúmeros culpados pela nossa tragédia. Contudo, dentre governadores, prefeitos, legisladores corruptos, incapazes, erráticos, o maior deles tem nome, sobrenome e ocupa, mesmo que de maneira democrática, porém em exercício indigno, a cadeira da presidência da República. Jair Bolsonaro é o grande responsável pela nossa tragédia. Sua obsessão pelo poder e sua luta para tentar esconder os feitos polêmicos e duvidosos de seus parentes tem colocado o interesse e a saúde pública em segundo plano. Muito pelo contrário, na realidade, tem colocado o interesse e a saúde pública como algo a se combater, advogando a ideia do quanto pior melhor – o próprio arauto do caos – para que possa maximizar a seu favor a sua verve demagógica e populista. Aliás, é exatamente aqui que encontramos a raiz da nossa atual tragédia: na personalidade de quem deveria comandar, mas não comanda a nação brasileira.

A demagogia de Bolsonaro se direciona e mostra que veio para destruir lentamente as instituições brasileiras. O presidente da República quer, visivelmente, erodir a própria República. Sua personalidade autoritária dá as caras sempre em que ele se sente à vontade ou acuado. Quando tranquilo, espalha suas baboseiras corriqueiras, quando nervoso, reage violentamente. Mais do que o autoritarismo em si, Bolsonaro tem em seu coração o espírito de um fascista. O leitor, neste momento, pode até virar os olhos e pensar: “ah não, outro falando que o governo de Bolsonaro é fascista! Mas que exagero!”. Em solidariedade ao leitor já cansado e crítico, é necessária a diferenciação; isto é, Bolsonaro é sim um fascista, muito embora talvez nem ele saiba realmente disso, mas seu governo não é. Seu governo é incompetente, amador em muitas áreas, desastrado e infestado de escândalos e atos duvidosos, porém não chega a ser fascista. Todavia, o chefe do governo é, e isso é um enorme perigo para o país.

Se brevemente nos aventurarmos nos estudos de Theodor Adorno sobre a personalidade autoritária vinculada à concepção fascista de vida, vamos encontrar alguns elementos que podem ser facilmente revelados quando o presidente resolve abrir a sua boca. Adorno lista numa escala de comportamentos que são associados a essa concepção fascista de vida; são eles: cinismo claro e explícito, preocupação constante com o comportamento sexual das pessoas, agressividade autoritária no agir, sede e desejo pelo poder, manifestações rudes cotidianas e arraigada necessidade de impor uma estrita submissão à autoridade. Talvez já aqui o leitor comece a se preocupar e rever a sua tese sobre um certo “exagero” quando escuta alguém chamar Bolsonaro de “fascista”.

Mas, para não ficarmos apenas com Adorno, vamos também nos auxiliar dos estudos de Umberto Eco, mesmo diante do fato de que quem adora o presidente não goste muito daqueles que pesquisam seriamente, pensam honestamente, preferindo adjetivar (e agora perseguir) professores, pesquisadores, artistas, cientistas e intelectuais de maneira pejorativa, abraçando e amando o obscurantismo. Coisas do fanatismo. Mas, voltemos a Eco. De acordo com o intelectual italiano, a personalidade fascista tem em si um apego fortíssimo ao tradicionalismo. Há na personalidade fascista uma recusa frontal à modernidade. Seu modo de agir é reativo às mudanças; ou seja, se os ventos sopram para uma direção, a tendência é que se finque na terra ou tente andar na direção contrária. Se o mundo caminha para um sentido, ele insiste em rumar para o outro. Nesse sentido, o fascista sente um pavor, um medo profundo da diferença e do diferente. Ele tem uma aversão a qualquer coisa que venha a colocar em xeque sua visão de mundo unitária e tradicional. Homens de azul, mulheres de rosa e ponto final. Além disso, Eco identifica no fascista uma presença do espírito antipacifista. A paz é fraca, o combate, a guerra, o militarismo são fortes. Daí sua predileção por um constante estado de guerra contra alguém. Se um inimigo é derrotado, logo se fabrica um outro para que a agressividade e a violência sejam permanentes. É necessário dividir, é fundamental ter inimigos dentro da própria nação. Afinal, caso não haja, a razão de ser do fascista desaparece.

Eco ainda aponta que a personalidade fascista é elitista, pois sente um enorme desprezo por aqueles que considera fracos. Entre “mimimis” e “tá na hora de parar com a choradeira”, há um ódio ao fraco. Aquele que não se enquadra na própria visão de mundo do fascista é considerado um fraco, um ser não digno de qualquer empatia ou solidariedade. Além disso tudo, há, para Eco, um elemento que habita como uma âncora o coração do fascista: o machismo. O fascista é machista, misógino e vilipendia mulheres e grupos que considera ser desviantes, como homossexuais. Uma mulher pode ser tão feia que não será digna de ser estuprada, uma filha pode ser, na verdade, nada mais, nada menos, do que o fruto de uma pequena falha da virilidade masculina; ou seja, uma “fraquejada”. Para ele há uma fraqueza na mulher; ou melhor, a mulher é, por essência, fraca e todos aqueles que fogem ao padrão tradicional descrito no Gênesis, que interpreta da maneira mais literal possível, merecem ser erradicados. Mesmo que não seja o agente da destruição dessas pessoas, pouco se importa com elas e quanto mais vulneráveis elas forem, melhor. Se não há um direcionamento à destruição efetivo, há pelo menos uma facilitação para a destruição. Aparatos institucionais de proteção são desmontados, e, assim, a vulnerabilidade se torna maior, na mesma medida que o desaparecimento dessas pessoas não desejadas.

Por fim, Eco indica que o fascista se apega ferozmente a um sentimento nacionalista. Ele é nacionalista, ufanista e cria símbolos que sejam representantes desse sentimento ilusório de uma pátria amada em perigo. Cria bodes expiatórios, constrói estereótipos. O seu opositor se torna da noite para o dia um rotulado. É esquerdista, esquerdalha, um ideólogo de gênero ou um patrocinador da homossexualidade e das drogas; um verdadeiro terrorista contra o núcleo familiar que julga ser o padrão admissível. Assim, o fascista está sempre em guerra, em constante luta. Há, para ele, uma interminável batalha contra todos que ameaçam sua concepção de nação e de mundo.

Talvez, o leitor que não tenha se incomodado e tenha chegado até aqui possa ter percebido que Bolsonaro praticamente preenche todos os requisitos, características, traços de uma personalidade vinculada à concepção fascista de vida. Ou seja, se o governo de Bolsonaro, pelo menos ainda, não possa ser considerado um governo fascista, seu líder o é. Diante disso, como ter esperança na tragédia que vivemos quando aquele que deveria conduzir a nossa federação simplesmente tem uma visão de mundo como essa? O vírus nos causa muito medo, mas também é digno de nos causar muito receio a insistência da nossa classe política, econômica e de toda sociedade em si em não perceber que estamos nas mãos de alguém como Bolsonaro. Como ter esperança quando um fascista governa o Brasil no seu momento mais trágico e pisa no acelerador dos erros? Aquela tristeza de que falamos no início dessas reflexões se justifica, e o fundo do poço parece realmente não ter um fim. Vamos torcer para batermos logo no chão ou vamos acordar? Como disse Primo Levi, que viveu o horror de um campo de extermínio, o fascismo é política, cultura e tempo; cada época tem seu fascismo.

 

Guilherme Antonio de A. L. Fernandes. Doutor em Direito pela USP. Mestre em Integração da América Latina pela USP. Pesquisador membro do Gebrics-USP. Professor e advogado em São Paulo.



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