O Brasil no coração do crime organizado transnacional
A militarização seletiva, somada à falta de inteligência integrada, produz o efeito inverso: fortalece as redes criminosas transnacionais
Entre fronteiras porosas, geopolítica do ilícito e o desafio da inteligência estatal
O Brasil ocupa uma posição singular no mapa do crime organizado transnacional. O país compartilha mais de 9 mil quilômetros de fronteiras com os três maiores produtores de cocaína do mundo (Colômbia, Peru e Bolívia) e ainda com um dos maiores produtores de maconha (Paraguai).
Essa imensa porção fronteiriça, crucial para a segurança e o combate ao narcotráfico, é maior do que a soma da extensão que separa Lisboa de Moscou (3.903 Km) e Los Angeles de Nova York (3.933 km) juntas.
O que está em jogo, contudo, não é apenas a geografia. É a estrutura da soberania nacional diante de uma globalização que também criminalizou o espaço. A Amazônia e o Centro-Oeste, regiões de baixa presença estatal, tornaram-se corredores de circulação do ilícito, articulando-se às rotas marítimas do Atlântico.
Laboratórios clandestinos, pistas improvisadas e rotas fluviais integram uma economia paralela que se aproveita das mesmas infraestruturas usadas pelo comércio legal: portos, estradas, hidrovias e sistemas de comunicação. No Brasil, essa simbiose manifesta-se em cidades portuárias e fronteiriças, onde o capital ilícito se mistura ao lícito por meio da lavagem de dinheiro e através da transferência bancária entre sistemas financeiros, facilitada pelo avanço da informática e telecomunicações. Dessa forma, o tráfico e o contrabando formam uma teia econômica invisível, cuja sofisticação desafia os mecanismos tradicionais de repressão.
A impossibilidade da guerra armada
Diante desse cenário, torna-se evidente a inviabilidade de um combate baseado apenas na presença armada do Estado. Nenhum contingente militar é capaz de vigiar, simultaneamente, uma fronteira terrestre de 9.104 quilômetros e uma faixa litorânea de aproximadamente 7.400 quilômetros. Apostar exclusivamente em força letal é perpetuar a ilusão da “guerra às drogas”, uma guerra perdida antes mesmo de ser declarada.
A militarização da segurança pública brasileira tem sido alvo de crescentes críticas, sendo amplamente questionada por especialistas por seu balanço desfavorável. Na prática, a ênfase em abordagens de confronto e o uso de forças militares na segurança urbana e no policiamento ostensivo produziram um resultado perverso: em vez de aumentar a sensação de segurança ou reduzir a criminalidade de forma sustentável, essa estratégia se traduziu em um aumento de letalidade e violência policial, resultando em um número maior de mortes do que em resultados concretos e eficazes no combate ao crime.
A repressão pontual nas favelas e periferias urbanas, desconectada de uma política nacional de inteligência, transforma o combate ao crime em espetáculo midiático, enquanto as verdadeiras redes do narcotráfico continuam a operar nos níveis logístico, financeiro e institucional.
Segundo os dados do Anuário Brasileiro da Segurança Pública 2025, o Rio de Janeiro é um dos estados do país que menos investem na área de informação e inteligência. Em relação ao total nacional, o investimento do Rio foi de apenas 0,45% dos gastos de todos os estados na área (Madeiro, 2025)[1].
Segundo Zylberkan (2025)[2], o setor da Polícia Técnico-Científica, especializada na produção de provas em investigações criminais, não recebeu nenhum investimento ao longo de 2024.
É nesse ponto que emerge o imperativo da inteligência estratégica. Investir em tecnologia de monitoramento, sistemas de dados integrados e cooperação internacional é mais eficaz do que multiplicar batalhões. Países com características geográficas semelhantes, como Austrália e Canadá, construíram centros de análise transnacional, combinando satélites, inteligência artificial e cooperação civil-militar. O Brasil, porém, ainda padece da fragmentação e integração das forças de segurança do país (polícias federal, estaduais, municipais e outros órgãos) sob uma coordenação nacional, com o objetivo de padronizar procedimentos e combater o crime de forma mais eficiente.
A ausência de uma política nacional de inteligência fronteiriça e de integração das forças reflete não apenas carência técnica, mas um modelo de Estado capturado pela lógica da reação, e não da prevenção.

A geopolítica do ilícito e a erosão da soberania
A militarização seletiva, somada à falta de inteligência integrada, produz o efeito inverso: fortalece as redes criminosas transnacionais. Facções brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho expandiram-se e, segundo o International Institute for Strategic Studies (2025)[3], já “são capazes de contrabandear drogas para mercados na Ásia, Europa e no restante da América Latina. O Brasil possui excelentes conexões marítimas com esses mercados cada vez mais importantes, especialmente com a Europa”. Essa transnacionalização é um sintoma da ausência de coordenação estatal e de políticas públicas efetivas nas fronteiras.
Ao mesmo tempo, a cooperação internacional no combate ao tráfico, quando conduzida sob hegemonia norte-americana, tende a transformar a Amazônia em espaço de vigilância geopolítica, justificando intervenções sob o pretexto do combate ao narcotráfico. O discurso da segurança regional torna-se, assim, uma nova forma de ingerência, na qual os interesses estratégicos dos EUA se misturam à retórica da “proteção ambiental” e da “guerra às drogas”.
No plano doméstico, setores da extrema direita brasileira têm tentado rotular facções criminosas como o PCC e o Comando Vermelho de “organizações narcoterroristas”, uma estratégia discursiva com múltiplos objetivos. Internamente, esse enquadramento busca justificar políticas de exceção, ampliar a repressão sobre territórios populares e desviar o foco das estruturas econômicas e institucionais que sustentam o narcotráfico.
Externamente, essa narrativa abre espaço para a ingerência norte-americana sob o argumento da “cooperação antiterrorista”, inserindo o Brasil no mesmo tabuleiro geopolítico em que Washington exerce influência militar sobre países latino-americanos. O resultado é uma perigosa convergência entre a agenda da extrema direita e os interesses estratégicos dos EUA, que transforma o território nacional em potencial campo para subordinar as forças de segurança brasileiras a agendas estrangeiras sob o disfarce da “luta contra o terror”.
O crime organizado é apenas uma das faces desse controle, e o Brasil, ao negligenciar sua política de inteligência, cede terreno simbólico e territorial tanto às facções quanto às potências estrangeiras.
Soberania informacional e segurança cidadã
O enfrentamento ao crime transnacional exige, portanto, uma revolução conceitual: da guerra à inteligência, e da repressão ao controle informacional soberano. A integração de dados, o rastreamento de fluxos financeiros, a cooperação com países vizinhos e o fortalecimento das universidades e centros de pesquisa voltados à segurança pública são caminhos concretos.
A verdadeira soberania de um país não se mede apenas pela defesa de suas fronteiras físicas, mas pela capacidade de compreender e controlar os fluxos de pessoas, capitais, informações e mercadorias que atravessam seu território. O Brasil, com sua imensa extensão territorial, não tem como vigiar cada quilômetro de fronteira com armas e patrulhas. A estratégia eficaz exige, antes, a compreensão e a antecipação do funcionamento das redes transnacionais que sustentam o crime organizado.
Essas redes são a infraestrutura invisível do ilícito: são as redes logísticas que transportam drogas e armas por rotas terrestres, aéreas e fluviais; as redes financeiras que lavam dinheiro e o fazem circular por bancos e paraísos fiscais; as redes digitais que utilizam criptografia para comunicação e comando; e as redes humanas de corrupção, compostas por intermediários, informantes e agentes infiltrados que garantem a permeabilidade das fronteiras e das instituições. Ao negligenciar a inteligência e focar na militarização seletiva, o Estado brasileiro falha em desmantelar essa infraestrutura, tornando impossível exercer, de fato, a soberania sobre o território nacional.
Conclusão
O Brasil não precisa de mais armas, mas de mais inteligência, integração e soberania sobre seus próprios dados e decisões. Enquanto a guerra às drogas continuar sendo tratada como questão de “ordem pública”, o país seguirá aprisionado numa geopolítica do medo, administrando cadáveres em vez de formular políticas. A verdadeira fronteira brasileira hoje não está na selva ou no litoral, mas entre o atraso militarizado e a modernidade da inteligência soberana.
Maurício Alfredo é mestre em Educação, professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior. Autor de material didático junto à Editora Companhia da Escola.
Bibliografia
INTERNATIONAL INSTITUTE FOR STRATEGIC STUDIES (IISS). Criminal empires: the PCC, Comando Vermelho and Brazil’s shifting security landscape. [Londres], 2025.
Disponível em: https://www.iiss.org/events/2025/062/criminal-empires-the-pcc-comando-vermelho-and-brazils-shifting-security-landscape/.
MADEIRO, C. Rio usa R$ 15 mi para inteligência policial e é 13º estado em investimento. UOL Notícias, São Paulo, 30 out. 2025.
ZYLBERKAN, M. Com foco em policiamento, segurança no RJ tem zero investimento em provas técnicas e científicas. Folha de S.Paulo, São Paulo, 30 out. 2025. Cotidiano.
[1] MADEIRO, C. Rio usa R$ 15 mi para inteligência policial e é 13º estado em investimento. UOL Notícias, São Paulo, 30 out. 2025.
[2] ZYLBERKAN, M. Com foco em policiamento, segurança no RJ tem zero investimento em provas técnicas e científicas. Folha de S.Paulo, São Paulo, 30 out. 2025. Cotidiano.
[3] INTERNATIONAL INSTITUTE FOR STRATEGIC STUDIES (IISS). Criminal empires: the PCC, Comando Vermelho and Brazil’s shifting security landscape. [Londres], 2025.
Disponível em: https://www.iiss.org/events/2025/062/criminal-empires-the-pcc-comando-vermelho-and-brazils-shifting-security-landscape/.

