GEOPOLÍTICA

O Brasil pode ser a Suíça de amanhã

Em meio à reorganização geopolítica do século XXI, o Brasil reúne condições materiais e institucionais para ocupar um papel discreto, porém decisivo: tornar-se um espaço confiável para energia, dados e estabilidade em um sistema global cada vez mais fragmentado

Há nisso algo que ecoa, de maneira inesperada, nos trópicos, distante do caixa-forte europeu, como se a lógica da neutralidade reaparecesse sob outra latitude, uma espécie de Suíça tropical. O Brasil, este mulato inzoneiro, por astúcia e não por covardia, aprendeu cedo a sobreviver num mundo hostil sem se entregar inteiramente a ele. Mulato e inzoneiro, como diria Ary Barroso, não como caricatura, mas como expressão de uma inteligência histórica feita de mistura, adaptação e leitura fina do ambiente. Entre conflitos alheios, soube oscilar, acomodar e contornar, mantendo-se, na maior parte de sua história, fora das guerras que devoraram outras nações.

Na experiência europeia, essa neutralidade acabou se traduzindo em algo concreto: confiança. Confiança que, no campo financeiro, gera valor; e valor que, progressivamente, se converte em poder político. A Suíça não apenas acumulou riqueza, mas consolidou posição. Tornou-se parte do tabuleiro global sem precisar ocupar o centro do palco, servindo como espaço recorrente de encontro, negociação e mediação. Mesmo sem se afirmar como potência, fez-se imprescindível como peça estrutural do sistema. É essa função, deslocada agora para outro século e outra geografia, que começa a fazer sentido quando se olha para o Brasil. E a base material dessa possibilidade repousa sobre um elemento decisivo: energia.

A era em que vivemos já não guarda riqueza em cofres físicos ou contas numeradas, mas em códigos, algoritmos e fluxos contínuos de informação. Para que esse sistema funcione, a exigência é clara: energia em grande escala. Nesse novo mundo, o Brasil surge naturalmente vocacionado. Dispõe de oferta abundante, custo relativamente baixo e uma matriz majoritariamente limpa, atributos cada vez mais raros em um cenário global pressionado pela transição energética e por conflitos em torno desse tema. No Brasil, mais de 80% da eletricidade provém de fontes renováveis, com preços inferiores aos praticados nas economias centrais, o que fez o país figurar com rapidez no mapa internacional dos data centers. Projeções indicam que, nas próximas décadas, centenas de bilhões de dólares deverão ser destinados à implantação dessa infraestrutura. De norte a sul, projetos são anunciados com frequência crescente, revelando uma concentração de investimentos que contrasta com a estagnação observada em outros setores da economia.

Esse movimento tende a se intensificar de forma exponencial com a consolidação da inteligência artificial como tecnologia de uso geral. Diferentemente de ciclos anteriores de digitalização, a IA não apenas consome dados, mas os transforma continuamente em decisão, previsão e automação. Cada avanço em modelos de linguagem, visão computacional ou sistemas autônomos amplia de maneira significativa a demanda por processamento, armazenamento redundante e disponibilidade energética permanente. Os data centers deixam de ser infraestrutura de suporte e passam a ocupar o centro do funcionamento econômico, científico e político do mundo contemporâneo. Diante disso, a corrida global por locais capazes de sustentar essa nova camada de complexidade não é conjuntural, mas estrutural, e tende a definir hierarquias duradouras entre países.

Ao mesmo tempo em que o entusiasmo cresce, a crítica avança na mesma velocidade. Termos como colonialismo de dados e o uso intensivo de recursos naturais por essas estruturas ganham espaço no debate público e colocam em tensão o que pode ser uma das grandes oportunidades brasileiras de inserção global para além da condição histórica de exportador primário. Armazenar dados não é o mesmo que decidir sobre eles, e hospedar infraestrutura não garante, por si só, soberania tecnológica. Esse dilema remete a outro protagonista geopolítico, a China, por décadas criticada por aceitar custos ambientais, assimetrias e dependência tecnológica para produzir para o mundo. Ao se abrir às potências industriais, absorver investimentos externos e tolerar desequilíbrios iniciais, o país executou uma estratégia deliberada de longo prazo, baseada na formação de sua população, na internalização de conhecimento e em ampla engenharia reversa. O risco do colonialismo, ali, foi tratado não como destino, mas como etapa.

O Brasil possui hoje uma das populações mais conectadas do planeta. Essa relação intensa com o digital não se manifesta apenas no consumo de plataformas, mas na operação cotidiana de sistemas em larga escala. Há anos, o país processa volumes massivos de informação em rotinas fiscais e administrativas, como no SPED, que sustenta a circulação de bilhões de documentos digitais por ano, quase sem visibilidade pública. No mesmo sentido, o PIX revelou a capacidade de adoção rápida e em escala nacional de uma infraestrutura crítica, incorporada ao cotidiano sem solenidade. Também não é irrelevante que o GOV.BR, hoje a principal porta de acesso a serviços públicos digitais, opere sobre infraestrutura de grandes provedores globais de nuvem. Essa dependência inicial, longe de ser contradição, revela um caminho conhecido: integrar-se às plataformas líderes, aprender com elas e, a partir desse vínculo, construir gradualmente autonomia, governança e soberania tecnológica. Mais do que feitos isolados, esses sinais apontam para uma vocação prática, silenciosa e adaptativa, compatível com a escala e a complexidade do país.

Foto do Lula, chefe de Estado do Brasil, cumprimentando Naledi Pandor, ministra da África do Sul
Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Para que essas características se convertam em ativos concretos, no entanto, é indispensável intencionalidade. O recente avanço regulatório com a criação do REDATA ajudou a pacificar o ambiente tributário em torno do tema, mas representa apenas o primeiro passo. Questões como segurança da informação, soberania digital e governança dos dados permanecem em aberto e serão decisivas para qualquer salto estrutural. É nesse ponto que a referência suíça volta a se impor, não como modelo a ser copiado, mas como lição institucional: credibilidade se constrói no tempo, com regras claras e continuidade. Desde a redemocratização e a Constituição de 1988, o Estado brasileiro vem se consolidando, apesar das crises, dos conflitos e do ruído permanente. Entre impeachments espetacularizados, crises políticas e tensões institucionais visíveis, os três poderes avançam, testam limites e se ajustam. É desse atrito, mais do que do consenso fácil, que está emergindo a base institucional necessária para sustentar uma ambição de longo prazo.

Ultimamente o mundo atravessa seu período mais intenso de tensão geopolítica em décadas. Guerras abertas na Europa e no Oriente Médio, disputas comerciais entre as maiores potências e a escalada silenciosa da guerra da informação compõem um cenário de fragmentação e desconfiança. Nesse contexto, o Brasil voltou a exercer uma forma própria de neutralidade ativa. Sem abandonar princípios humanistas nem suas tradições diplomáticas, preservou suas fronteiras institucionais e recusou alinhamentos automáticos. Ao defender seus produtores, seus acordos e sua autonomia de decisão, sinalizou que a inserção internacional brasileira não depende de tutelas, mas de método. Ao mesmo tempo, manteve canais abertos com diferentes polos de poder, demonstrando que é possível transitar no mundo multipolar sem subordinação e sem ruptura, um traço histórico da diplomacia que remete à escola de Rio Branco, mais interessada em preservar espaços de manobra do que em buscar protagonismos ruidosos.

Não existe mundo multipolar efetivo sem que a América Latina esteja representada em pé de igualdade. Para ocupar esse lugar, contudo, não basta vontade política ou discurso. É necessário poder real, construído de forma coerente com a história e as escolhas de cada país. O Brasil avança institucionalmente, respeita seus limites históricos e mantém uma economia aberta à cooperação. Avança também em frentes tecnológicas específicas, como a agricultura, área central para a segurança alimentar global. Onde permanece estruturalmente frágil é na dimensão clássica da defesa. O baixo investimento militar, a perda de densidade industrial no setor e o peso simbólico de um passado autoritário tornaram esse debate quase ausente da sociedade brasileira, majoritariamente pacifista. É justamente nesse vazio que a estratégia dos dados ganha sentido. Tornar-se um espaço confiável para a guarda e o processamento das informações mais sensíveis do mundo não substitui a defesa tradicional, mas cria uma camada complementar de segurança. Proteger o que é vital para o funcionamento do sistema global gera, por reciprocidade, proteção sistêmica, a mesma lógica que a Suíça explorou ao longo de séculos.

Territorialmente, a capacidade brasileira para o armazenamento de dados é singular. A produção energética distribuída em um vasto território, a diversidade de fontes, a baixa incidência de eventos naturais catastróficos e a distância relativa dos principais focos de conflito conferem ao país uma resiliência rara. Soma-se a isso uma posição geográfica afastada das grandes rotas de instabilidade militar e um mercado interno capaz de sustentar escala. Há, evidentemente, desafios a enfrentar, como o aumento da redundância das redes de energia e de dados e o fortalecimento das infraestruturas críticas. Ainda assim, o desenho geral aponta para uma possibilidade concreta: transformar território, estabilidade e energia em ativos estratégicos do século XXI. É a partir dessa base material que o debate sobre dados deixa de ser técnico e passa a ser civilizatório.

Nos Estados Unidos, um dos mercados que mais cresce é o da construção de bunkers privados. Diante da escalada dos riscos que a civilização humana parece acumular, da instabilidade climática às tensões geopolíticas, esse impulso faz sentido do ponto de vista individual. Coletivamente, porém, ele revela um paradoxo: a fragmentação da proteção do que é essencial. Se a lógica do nosso tempo passou a ser a preservação do imprescindível, talvez a pergunta correta não seja onde cada um pode se esconder, mas quem estará disposto a cuidar.

Transposto para o plano global, esse raciocínio aponta para outra possibilidade. Em vez de uma soma de refúgios isolados, um sistema de proteção compartilhado, capaz de preservar aquilo que sustenta o funcionamento da vida contemporânea, do alimento à informação. Nesse horizonte, o Brasil não aparece como potência beligerante ou centro de comando, mas como guardião ampliado. Um território capaz de oferecer estabilidade, energia e escala para abrigar parte do que o mundo não pode perder. Talvez esse seja o papel histórico que ainda busca nome: não o de se levantar para combater, mas o de permanecer para cuidar. Um gesto silencioso, profundamente brasileiro, e, por isso mesmo, ambicioso.

Bruno Sindona é empreendedor de impacto, membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável da Presidência da República do Brasil e presidente do Instituto das Cidades, organização dedicada à reflexão e à formulação de políticas para o futuro urbano e institucional do país.

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