O cansaço de explicar o direito de existir numa economia da violência
A circulação do ódio e a exaustão neoliberal consomem o tempo de viver e de transformar o mundo, favorecendo projetos autoritários
Há muitas formas de cansaço. Uma delas é a de quem precisa explicar o racismo depois de sofrê-lo. William A. Smith e colegas estudaram a fadiga da batalha racial, expressão que procura compreender os efeitos da exposição recorrente ao racismo. Em entrevistas com estudantes negros homens de universidades estadunidenses, identificaram relatos de ansiedade e frustração associados à hostilidade dos ambientes que frequentavam. A pergunta sobre o cansaço ganha, assim, uma localização: o que uma instituição exige de quem estuda enquanto se protege da violência que circula nela?
Essa exigência pode incluir um trabalho pedagógico. Além de lidar com a agressão, a pessoa precisa explicar o que aconteceu, responder às dúvidas e administrar a reação de quem a escuta. Há iniciativas acadêmicas de formação antirracista que reconhecem explicitamente essa sobrecarga e procuram distribuir entre docentes brancos o trabalho de enfrentamento ao racismo. A responsabilidade de aprender deve ser assumida por quem participa da sua perpetuação. Enquanto isso fica por fazer, a pessoa negra segue convocada a afrobetizar o restante da sociedade.
Essa repetição produz uma exaustão antipedagógica. A aula recomeça a cada episódio; a transformação que deveria decorrer dela permanece adiada. Quem sofreu a violência deve apresentar suas razões com a paciência esperada de uma professora. Quando o cansaço aparece na resposta, sua maneira de falar passa a ser julgada. A discussão se desloca para a delicadeza de quem explicou, e a violência que motivou a explicação ganha mais tempo para continuar.

As eleições de outubro de 2026 dão dimensão política a esse problema. Nikolas Ferreira (PL) foi reeleito deputado federal por Minas Gerais com mais de 3,1 milhões de votos, mais que o dobro do 1,49 milhão de 2022. Em São Paulo, Lucas Pavanato (PL), vereador mais votado da capital em 2024, foi eleito deputado federal com 3.038.438 votos, e Eduarda Campopiano (PL), deputada estadual com 1.956.238. Os números mostram a escala do apoio alcançado por essas candidaturas, embora não permitam atribuir a cada eleitor concordância com todas as suas declarações.
Logo após a eleição, Campopiano dirigiu-se a Erika Hilton nas redes chamando-a de “homem biológico”, expressão que Pavanato também usou em vídeo no domingo da votação. Campopiano já havia dito, em debate, não achar que feminicídio seja algo que exista. Na campanha de 2024, Pavanato defendeu proibir pessoas trans em banheiros femininos e, já vereador, apresentou em janeiro de 2025, um projeto que restringe o uso de banheiros ao sexo de nascimento. A Agência Lupa já havia identificado, na mesma campanha, ao menos 28 vídeos seus no Instagram com conteúdo classificado pela agência como transfóbico ou machista. Em 2023, Ferreira colocou uma peruca na tribuna da Câmara e ironizou as mulheres trans, episódio repreendido publicamente pelo então presidente da Câmara. É nessa escala que cabe examinar o lugar ocupado pelos ataques às pessoas trans em sua comunicação pública. A recusa em reconhecer o outro aparece tanto nas redes quanto no espaço em que se decidem seus direitos.
A comunicação política de Ferreira, Pavanato e Campopiano permite observar uma economia da violência: os ataques podem render visibilidade e poder, enquanto quem é atingido gasta tempo e energia defendendo sua existência. Essa economia se articula à lógica neoliberal que exige disponibilidade permanente e transfere para cada pessoa os custos da insegurança. Em ambas, o desgaste de uns pode favorecer o ganho de outros. Quando esse desgaste compromete as condições de participar da vida pública, interessa a projetos autoritários, que oferecem alívio pela entrega da decisão. É sobre essa ligação entre a circulação do ódio e a exaustão da vida que importa refletir quando ao menos parte da sociedade parece enamorar-se de ideias fascistas.
Há quem precise disputar uma eleição enquanto protege a própria vida. Ana Elisa Santos Silva, mulher negra eleita deputada federal pelo PT de Minas Gerais, denunciou ataques racistas e ameaças de morte e de estupro recebidos por e-mail durante a campanha. As mensagens mencionavam dados pessoais dela e de familiares. Assim como os ataques dirigidos a Erika Hilton, que recebeu uma ameaça de morte no primeiro turno da eleição, essas ameaças procuram tornar a presença de mulheres no poder uma existência sob cerco. Para quem é atingida, participar da vida pública passa a exigir um trabalho adicional de proteção, e a violência tenta impor os limites a quem pode ocupar esses espaços. O limite dessa exposição nos obriga a lembrar de Marielle Franco. Nem a vereança foi capaz de proteger seu corpo de mulher negra, lésbica e favelada do brutal assassinato, em 2018, nas ruas do Rio de Janeiro.
Esses episódios permitem formular uma pergunta mais incômoda: o que acontece quando a recusa a aprender se torna um recurso político? A mulher fala sobre sua experiência e encontra uma resposta que devolve sua existência à condição de controvérsia. Precisa explicar novamente quem é e defender seu direito de ocupar aquele espaço; o ataque, por sua vez, oferece material para outra publicação. Nessa dinâmica, a resposta exigida pode dar fôlego à própria agressão e eleger o agressor. O esforço pedagógico encontra um interlocutor cuja comunicação pública ganha força ao fazer circular milhões de vezes aquilo que deveria ser revisto. A biologia invocada de modo equivocado e como sentença encerra a escuta antes que a vida de quem fala possa ser considerada.
O que se disputa aí é o projeto de país pactuado na Constituição de 1988. A dignidade da pessoa humana é fundamento da República; construir uma sociedade livre, justa e solidária e promover o bem de todos, sem discriminação, são seus objetivos. Ao julgar a ADI 4275, o Supremo Tribunal Federal reconheceu que a igualdade sem discriminações abrange a identidade ou expressão de gênero. A desqualificação pública dessa identidade confronta esse compromisso constitucional. A tipificação do feminicídio, em lei desde 2015, segue o mesmo caminho: o que foi reconhecido volta a ser posto em dúvida. O desgaste aumenta quando precisamos reafirmar o que já foi reconhecido como direito, e quando a diferença encontra desprezo e agressão em vez de reconhecimento e proteção.
Esse processo tem ainda uma economia própria, pois a agressão provoca respostas, mantém pessoas conectadas e amplia a circulação de conteúdos em plataformas que vendem publicidade. Estudos de Steve Rathje e colegas identificaram a associação entre hostilidade a grupos políticos adversários e maior engajamento nas redes. William Brady e colegas observaram que recompensas sociais recebidas por manifestações de indignação favorecem sua repetição. O ódio encontra maneiras de render dinheiro; o trabalho de enfrentá-lo consome a vida de quem é atingido.
Antes mesmo de pedir um café, uma pessoa pode calcular se vai usar seu próprio nome ou um nome estadunidense para evitar constrangimentos. O nome também pode carregar esse trabalho antecipado. Xian Zhao e Monica Biernat pesquisaram a adoção de nomes anglicizados por estudantes universitários chineses nos Estados Unidos, prática comum entre minorias étnicas e estrangeiros. No estudo Eu tenho dois nomes: Xian e Alex (tradução livre), encontraram associações negativas com autoestima e bem-estar. Esses resultados exigem cuidado: uma associação não permite afirmar que mudar de nome provoca, por si só, sofrimento. Mas ajudam a perguntar pelas condições em que a escolha acontece. Quanto de si uma pessoa precisa adaptar para ser recebida em uma situação cotidiana?
O nome social talvez seja o caso mais nítido. O direito existe: há um decreto federal de 2016 que assegura o uso do nome social na administração pública federal, e o Supremo admitiu, no mesmo julgamento da ADI 4275, a alteração do registro civil sem exigência de cirurgia. Mas o reconhecimento em lei não dispensa o trabalho de cada dia: a chamada na sala de aula, a lista de presença, o balcão do banco, a recepção da clínica. Em cada um desses lugares, quem tem o nome respeitado segue adiante; quem não tem precisa decidir se corrige, como corrige e quanto isso vai custar, pois quase sempre retificar significa explicar. A aula recomeça, e o direito, já reconhecido, volta a depender da boa vontade de quem atende e da disposição de quem é atendido para lutar por ele.
O esforço para obter reconhecimento também pesa de modo desigual sobre o descanso. Algumas pessoas atravessam uma situação cotidiana sem ter de justificar quem são; outras já chegam ao encontro depois de gastar suas forças tentando evitar uma rejeição. O tempo de descanso de umas pode conviver com esse trabalho adicional de outras para alcançar um olhar que lhes reconheça existência.
Félix Guattari pergunta que finalidade será dada ao tempo de atividade humana que as máquinas poderiam liberar, ao discutir a revolução informática. O destino desse tempo está em disputa. Em As três ecologias, ele relaciona a deterioração dos modos de vida à degradação das relações sociais e da subjetividade. Sua reflexão permite observar o cotidiano conectado como parte de uma organização social que alcança nossos modos de sentir e de nos relacionar.
Mas, na direção contrária de liberar tempo, a pandemia acelerou transformações que continuam atravessando nossos dias. Para muita gente, o trabalho passou a alcançar a casa a qualquer hora. O celular e seus aplicativos levam a cobrança ao descanso, e a possibilidade técnica de receber uma mensagem se transforma em obrigação de respondê-la. O aparelho pelo qual conversamos com quem amamos também nos mantém ao alcance de quem exige mais uma tarefa e do circo de ódio das redes sociais. A precarização torna mais difícil proteger o tempo que sobra. Recusar uma solicitação pode significar arriscar um vínculo do qual depende a sobrevivência.
As políticas neoliberais agravaram esse cansaço ao precarizar os vínculos de trabalho e enfraquecer as condições coletivas de proteção da vida. A exigência de que cada pessoa se torne empresária de si mesma transfere para o indivíduo a responsabilidade de sobreviver à insegurança. É preciso trabalhar e procurar trabalho, demonstrar permanentemente o próprio valor e administrar o medo de perder a renda. A desvalorização do trabalho convive com a exigência crescente de disponibilidade e exposição.
Byung-Chul Han chamou de sociedade do desempenho esse regime em que a exigência de render vem de dentro: cada pessoa explora a si mesma e vive isso como liberdade, e o esgotamento se torna um mal individual e solitário. O cansaço de explicar amplia esse enquadramento. Ele não nasce apenas da autoexploração, mas igualmente da demanda de outros por justificativas, e não se distribui por igual: pesa mais sobre quem já precisa defender a própria existência.
Soma-se a isso o cansaço de trabalhar enquanto se perde a perspectiva daquilo que esse trabalho permitirá construir. Uma casa, alguma estabilidade, a possibilidade de envelhecer com aposentadoria vão se tornando horizontes impossíveis. Essa segurança sempre foi desigual, sobretudo num país marcado pelo racismo e pela informalidade. Sua ampliação, entretanto, fazia parte de um projeto de país. As políticas neoliberais corroem esse horizonte ao subordinar direitos à rentabilidade e tratar a proteção social como custo. A crise econômica alcança o presente e ocupa o futuro: mesmo durante o descanso, a pessoa tem de pensar em como continuará vivendo.
Se a participação exige uma energia que vai se esgotando, a promessa de alguém que decida tudo pode encontrar acolhimento. Quando essa promessa se combina com a construção de inimigos e a legitimação da violência contra quem é apresentado como ameaça, abre-se uma possibilidade de compreender o enamoramento fascista: a oferta de uma ordem que promete aliviar uns enquanto intensifica o cerco à existência de outros. O cansaço, entretanto, também atravessa quem permanece comprometido com a democracia.
Duas mobilizações recentes na Europa tornam visível a disputa pelas condições de construir a vida. Na Espanha, o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, do apartamento alugado em Madri, onde morava havia mais de sete décadas, levou dezenas de milhares de pessoas às ruas em 3 de outubro, cerca de 70 mil só na capital, segundo a Delegação do Governo, em protesto contra a política habitacional. Na França, desde o fim de setembro, estudantes do ensino médio bloqueiam escolas em todo o país contra a falta de professores, as salas superlotadas e a infraestrutura precária. Em Paris, um cartaz dizia que tinham “um futuro para construir, não para suportar”. Aproximo essas lutas porque nelas encontro pessoas exigindo que o futuro volte a ser uma possibilidade coletiva. Explicar o direito de existir também significa defender as condições materiais para que a existência possa continuar.
Esse tempo fica ainda mais complexo quando uma notificação da prefeitura anuncia uma possível emergência. Ela pode salvar vidas diante de um perigo real. Chega, porém, ao mesmo aparelho em que o banco pede atenção e o trabalho cobra uma resposta. Demandas de naturezas diferentes disputam nossa capacidade de reconhecer o que exige ação imediata. Esse tempo exaure, mas pesa ainda mais sobre quem já gasta suas forças defendendo o direito de existir. Vai se instituindo um tempo da emergência, em que a próxima interrupção governa o presente. Pensar, escrever, conversar e até fazer política pedem uma duração que essa sequência de chamados frequentemente desfaz.
Aprender também pede duração. Han fala em uma pedagogia do ver, a aprendizagem da atenção demorada que o excesso de estímulos corrói, mas essa demora, como o descanso, não é repartida por igual. Uma conversa precisa de tempo para que a resposta do outro nos afete e altere, ou reforce, o que pensávamos. Quando tudo exige reação imediata, a explicação corre o risco de se tornar apenas mais uma postagem. A pessoa explica e se desgasta; quem escuta passa à próxima mensagem. A exaustão compromete as condições do encontro e distribui de formas desiguais a obrigação de sustentá-lo.
Uma política comprometida com a transformação enfrenta a violência que ocupa o lugar do debate e faz da agressão um recurso de poder. Isso passa por instituições que assumem, diante do racismo e da misoginia, a responsabilidade de aprender e mudar suas práticas. Passa, também, pela defesa de uma democracia que festeje a pluralidade, para que os mesmos corpos possam viver além da luta permanente por seus direitos; e por limites à precarização do trabalho que assegurem tempo para viver. Recuperar esse tempo é uma tarefa coletiva, parte da disputa contra as economias que lucram com a violência e com a exaustão.
Desejamos viver em uma sociedade em que uma explicação possa se transformar em aprendizado e um direito defendido possa se tornar experiência cotidiana. O tempo gasto defendendo o direito de existir faz falta à vida que poderia ser criada. Campopiano disse não achar que feminicídio seja algo que exista; ele existe, tem nome e está na lei desde 2015. A pergunta, portanto, não é se ele existe, e sim quanto da vida se gasta para sustentar que sim.
Maria Luiza Süssekind é professora e pesquisadora com doutorado em Educação.

