CEFET/RJ

O “caso isolado” da última semana

Nos últimos anos, a instituição escolar e toda e qualquer agência produtora de cultura e conhecimento caiu em descrédito por conta de discursos da extrema direita

O episódio ocorrido no CEFET/RJ, no dia 28 de novembro de 2025, exige que alguns pontos sejam aqui elencados, deixando nítido que cada palavra aqui é escrita por um professor, por alguém que está há muitos anos no chão da escola e que vem acompanhando mandos, desmandos, avanços, recuos, dentre outros processos e procedimentos de cunhos políticos, pedagógicos, humanitários e científicos.

De acordo com todos os relatos até o momento apresentados, trata-se de um (mais um) caso de feminicídio. O assassino não aceitava ser chefiado por mulheres, o que resultou em sua transferência e, posteriormente, em seu afastamento. De forma um tanto duvidosa, ele foi considerado apto a retornar ao trabalho, sendo o resultado totalmente oposto ao que os médicos afirmaram.

Predomina, no imaginário de boa parte das pessoas, a escola enquanto espaço de acolhimento e segurança, com todas as acepções que essas duas palavras carregam. Basta fazermos um exercício de memória bem simples: quando éramos crianças ou adolescentes e as coisas em casa não iam bem por algum motivo, era na escola que encontrávamos algum alento. De um jeito ou de outro, a escola sempre foi o lugar do afeto, da escuta, da atenção e de tantas outras coisas boas que foram fazendo parte da constituição da instituição escolar. Em primeiro lugar, fica aqui uma convocação a todas as pessoas trabalhadoras da educação: temos que tirar forças de algum lugar para restaurar a escola. A escola tem um papel a cumprir, papel que, apesar das dificuldades, carrega alguma beleza.

Todavia, esse episódio estarrecedor mostra que um caminho diferente vem sendo trilhado. Lamentavelmente, não foi o primeiro caso, mas espero muito que seja o último. O fato é que, nos últimos anos, a instituição escolar e toda e qualquer agência produtora de cultura e conhecimento caiu em descrédito por conta de discursos da extrema direita. Não, isso não é invenção. Temos registros em vídeo de um governador do maior estado do país falando que diplomas não importam. Longe de mim insinuar que escolas e universidades só servem para emitir diplomas, mas só sendo muito inocente para achar que a fala do governador foi inocente. Aquela fala foi uma fala anti-escola, como tudo que a extrema direita faz. É uma extrema direita que chama caça palavra de “livro”, é uma extrema direita que vê formação em qualquer palestra difusora de charlatanismo com pessoas sem perspectiva pagando por aqui como se fosse a salvação. Descrédito da escola, descrédito dos resultados que a escola pode produzir para cada pessoa (incluindo – por que não? – possibilidade de ascender socialmente), descrédito dos atos de estudar, ensinar e aprender, propaganda do homeschooling (apesar dos recordes de analfabetismo funcional. Só podemos ensinar quando aprendemos algo), enfim, os últimos anos foram marcados por um intensivo trabalho de tirar o crédito de quem ensina.

Crédito: CPERS / Sindicato

Para além disso, outro imaginário – criado com base em discursos de tempos anteriores – leva a crer que docentes são criaturas imaculadas e santificadas que nunca erram. Professores e professoras, e, obviamente, me incluo neste grupo, são pessoas comuns, com trajetórias marcadas por erros e acertos e criadas no seio da sociedade. As coisas que um professor escuta em casa durante sua infância são exatamente as mesmas coisas que um não-professor também escuta. Eu já ouvi um professor mandando uma coordenadora “lavar louça” por ela ter dito algo com o qual ele não concordava. Eu já ouvi professor dizendo, a plenos pulmões, que na casa dele ele não lavava louça, pois isso não faz parte da “cultura familiar” dele. E se estivessem armados?

Não faço aqui um discurso anti-docência, mas precisamos entender a importância de formações continuadas para professores e professoras em todas as redes de ensino. E falo de formação continuada séria, e não de contratar, a preços exorbitantes, um palestrante qualquer. Precisamos batalhar por uma formação continuada que considere os problemas que afligem nossa sociedade e que nos abra portas para que tenhamos mais e mais ferramentas para lidar, atacar e resolver esses problemas. Temos que pensar que estamos na era do coach, então preciso explicar o que é uma formação continuada.

Ao contrário de tantos outros espaços, as instituições de ensino ainda são espaços de fácil acesso. São lugares para adentrar e resolver o que tiver que ser resolvido, sem maiores constrangimentos. Se pensarmos com calma, somente em escolas temos essa liberdade toda de circulação. Infelizmente, isso precisa ser revisto. Ainda que o assassino fosse servidor, já era sabido o fato de ele ter problemas com sua chefe – um professor relatou que a servidora passou um tempo em home office por se sentir ameaçada por ele –, já era sabido o fato de ele ter sido afastado. Apesar de quaisquer possíveis falhas de comunicação, temos que pensar que, nas instituições de ensino, em geral, há os mais macabros dispositivos de vigilância voltados aos estudantes, ao passo que o mesmo não se aplica a quem representa uma ameaça de alguma maneira.

Escolas possuem câmeras, possuem inspetores e inspetoras pelos corredores, possui todo um sistema de registro de ocorrências internas, dentre outros itens. Contraditoriamente, entra-se com toda a liberdade e sem nenhum tipo de controle. Infelizmente, isso precisa ser alterado, o que não significa, de forma alguma, o desejo de transformar uma escola em uma escola cívico-militar. Não podemos permitir que acontecimentos como esse cedam espaço a discursos que promovem ainda mais violência com zero eficácia. A ideia aqui é que os atributos espaciais das instituições de ensino sejam usados no sentido de garantir maior segurança de estudantes e profissionais. De que modo aquele espaço pode produzir algum constrangimento a alguma pessoa desconhecida que possivelmente pode cometer algum ato violento?

Os alunos, que deveriam ter o amparo e o desenvolvimento da autonomia garantidos, têm cada passo controlado, enquanto desconhecidos entram sem nenhum tipo de controle. Dificilmente conseguimos acessar alguma repartição pública, seja qual for – Delegacia de Polícia, INSS, hospitais – com a mesma facilidade com que conseguimos adentrar uma escola.

Sabemos que escolas desempenham um papel social relevante, que vai muito além do que é oferecido aos alunos e alunas. As escolas, sobretudo as públicas e periféricas, ainda são espaços de acolhimento e de denúncia. Apesar de todos os discursos que buscam desqualificar e descredibilizar instituições de ensino, ainda é a escola que as famílias recorrem com relatos os mais estarrecedores. As pessoas confiam na instituição escolar, embora não pareça. E é óbvio que nós, professoras e professores, jamais desejaríamos abrir mão de tão importante papel, pois sabemos de sua importância.

O texto aqui apresentado tem a função de trazer à tona alguns pontos oferecidos por quem vivencia o “chão da escola”, além de servir como manifesto e estímulo para que cobranças sejam feitas, em todas as esferas, de modo que tragédias assim não ocorram mais.

Diante dos pontos aqui levantados, temos alguns pontos para reflexão:

  1. A ideia de comunidade escolar pressupõe vínculo. É um elo que se forma entre profissionais da educação, famílias e estudantes. Uma ligação deste tipo só é possível a partir da convivência (saudável, sempre). É a partir da convivência que somos capazes de conhecer alguém. Quando serviços terceirizados adentram as relações estabelecidas, a convivência fica sujeita a rupturas. O profissional terceirizado está ali sem estar. Ele não consegue, até por estar submetido a um regime de trabalho totalmente irresponsável, frouxo e negligente, estabelecer os vínculos necessários para efetivamente ser parte da escola. Logo, o primeiro ponto diz respeito à necessidade de termos um serviço de porteiros, seguranças e zeladores de carreira.
  2. A formação continuada, entendida aqui como cursos de curta duração, voltados ao estímulo à reflexão, ao debate e ao aprimoramento, ao contrário do que as redes de ensino costumam ofertar, deve ser um ponto crucial e levado com máxima seriedade. A formação continuada, muitas vezes, oferecida “só para constar”, deve ter a função de atacar problemas reais. Quando falamos em racismo, machismo, homofobia, feminicídio, transfobia, etc, temos questões reais que, ainda que não caibam em nenhuma caixinha disciplinar, podem e devem ser combatidas e trabalhadas em todos os níveis escolares. A proposta tem que ser de uma formação continuada real voltada a problemas reais. Se tivéssemos essa cultura, o desfecho seria outro. E não, não se trata de uma pauta “de esquerda”, pauta “identitária” ou o nome que for. Trata-se de uma pauta civilizatória básica para que pessoas possam sair vivas de seus locais de trabalho.
  3. Uma política pró-democracia e pró-segurança nas escolas: a constituição de colegiados e grêmios estudantis é algo que deve ser implementado em caráter obrigatório em todas as escolas públicas do país. Através de tais instâncias, a informação circula e o conhecimento se amplifica. É uma forma de fazer com que possíveis casos de violência sejam inibidos a partir do momento em que as pessoas tomam conhecimento, difundem tal conhecimento e atuam no sentido de evitar alguma tragédia. Há diretores que fazem de tudo para cooptar conselhos e colegiados, com a finalidade de centralizar as decisões e agir sem transparência. Isso acaba por aumentar o risco e reduzir a esfera do debate.
  4. Uso inteligente do espaço escolar: cada escola faz parte de uma rede e cada rede tem suas decisões em termos arquitetônicos. Por razões políticas e geográficas (marcar o território), muitas redes optam por padrões em termos estéticos e em termos de cores utilizadas. A questão, aqui, diz respeito à necessidade de, sem abrir mão do papel sociopolítico das escolas públicas, fazer com que o espaço jogue a favor dos trabalhadores da escola e dos alunos. Se a escola possui câmeras, grades, cadeados, portões, dentre outros dispositivos, por que usar tais dispositivos para fiscalizar e coagir quem está lá diariamente? Por que dar 100% de confiança a alguma pessoa desconhecida ou a algum profissional comprovadamente ameaçador e 0% de confiança a estudantes que vão diariamente assistir às aulas? O ideal é que um uso inteligente e a favor da segurança seja feito. Isso não é possível sem um corpo coeso de profissionais, algo impossível de se alcançar diante de relações terceirizadas, instáveis e temporárias de trabalho; sem uma comunidade escolar muito bem estabelecida e sem a execução de uma política pró-democracia e pró-segurança nas escolas.
  5. Um senso de comunidade realmente inclusivo: a ideia de comunidade escolar não pode ser apenas um chavão pedagógico a ser bradado automaticamente. É imprescindível que tenhamos, de fato, a formação de uma comunidade no sentido afetivo, familiar, intelectual, científico, enfim, um sentimento comunitário realmente existente, onde todas as partes sejam integradas e interdependentes. De nada adianta a escola se esforçar para atuar de modo incisivo, enquanto o jovem acessa conteúdos produzidos pelo movimento red pill nas outras quase 20 horas do dia que ele tem disponíveis. Para isso, a troca é fundamental. Reuniões, seminários, panfletos informativos, canais de denúncia, redes sociais, dentre outros meios. A escola pode e deve se incumbir de tal tarefa.

É possível perceber que há muito a ser feito para que criemos uma cultura de não-violência de forma realmente não-violenta. É preciso usar a inteligência, é preciso enxergar a escola como ela realmente é, pois escola não é uma fábrica de aulas, é um espaço muito mais complexo e fértil do que as pessoas podem imaginar. No mais, o que nos cabe é batalhar para que as medidas aqui propostas, assim como várias outras que surgirão, sejam efetivadas, além de prezar por novos horizontes igualitários, pacíficos e potentes.

 

Giam C. C. Miceli é professor da Geografia da Educação Básica.

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