O Chile vai salvar o mundo?

Esperança

O Chile vai salvar o mundo?

por Vinícius Mendes
6 de junho de 2022
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Os chilenos foram os que melhor transformaram uma crise em um projeto de país. Para o bem do mundo, ele precisa dar certo

Sobre os ombros do Chile, este país intrigante que emoldura parte da América Latina, está a possibilidade mais concreta de salvação do mundo de hoje. Ela é a nossa grande beleza. É nessa região solitária, contraditória e indecisa às margens do Ocidente que se produz a melhor alternativa para uma crise que surgiu longe daqui, nas metrópoles ocidentais, e que sequer foi compreendida totalmente por elas. Mas é também a nossa miséria, porque oferecer uma solução possível ao mundo é, para um país latino-americano, conviver também com a ruína possível — por forças de dentro ou de fora. Essa é, aliás, uma experiência que os próprios chilenos já conhecem bem, porque já foram de frescor do mundo à destruição completa em um intervalo de três anos, no começo dos anos 1970, com Salvador Allende.

Mas agora não é uma condição trivial: desde a chamada Primavera Árabe, e no privilégio do presente, o Chile foi o único país do mundo que conseguiu transformar uma explosão social de dimensões gigantescas em um projeto social e político estruturado, se valendo das suas instituições democráticas e, ao mesmo tempo, capaz de levar ao poder as ideias que estavam ao alcance das mãos de jovens até então fora da política profissional, como as preocupações com as desigualdades de gênero ou a ênfase convicta na educação – de onde muitos deles saíram. É o único frescor de um mundo entre os cadáveres de Bucha, as polícias nacionais, a livre circulação das mentiras, mas o controle total dos corpos, a força das desigualdades e as impossibilidades de resolvê-las.

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Não é à toa que alguns símbolos desse processo rodeiem a juventude — a do presidente eleito em meio ao turbilhão, Gabriel Boric, um ex-militante estudantil de 36 anos, ou a da sua secretária-geral, Camila Vallejo, de 34, ou do texto no prelo da próxima constituição, também embebido das demandas que saíram às ruas com as gerações mais novas, e mesmo a ansiedade de agora em querer fazer as justiças humanas, de uma vez só, se tornarem letras de lei. Todos eles, pessoas e redações, ideias e textos, governos e seus atores, são a materialização inequívoca de uma perspectiva que ainda não havia chegado ao poder em nenhum lugar do mundo.

Nesta sucessão de acontecimentos, todos os detalhes importam. Se é fato que a transformação poderia acontecer, por exemplo, a partir de qualquer lugar do pensamento político, é significativo também que ela esteja mais à esquerda da imensa maioria dos países do mundo, sobretudo da América Latina, e, ao mesmo tempo, mais ao centro do que quase todas as esquerdas gostariam. É assim que o comunismo do novo mandato é sempre um dilema: ou é demasiado ou é raso. Boric, então, parece representar um projeto progressista de esquerda possível, uma ilusão cercada pelo pragmatismo, um respiro para fora, com todas as belezas e misérias que isso significa — e é por isso que seu governo já se vê às voltas com um país e uma região onde ocupar essa posição é sempre difícil.

Não é irrelevante que Boric e seu plano de país tenha vencido um outro, do neopinochetista José Antonio Kast, por uma diferença relativamente pequena de votos: 55% a 44%. Por um lado, é esse um dos maiores frescores da solução chilena, que se sobressaiu justamente por sobre um representante do que há de mais tradicional na política latino-americana — o homem cuja grande proposta de futuro é regredir ao passado. Por outro, essa é também sua contradição, já que todas as possibilidades postas sobre o governo Boric foram avaliadas em relação a uma extrema-direita que tinha chances reais de retomar o poder. Ainda assim, quatro em cada dez chilenos votaram pela outra perspectiva, encabeçada por alguém que já se orgulhou de ter um dos maiores ditadores da história da região como inspiração.

Essas cadeias de eventos, quando juntas, ajudam a entender também por que o presidente eleito em dezembro tinha uma aprovação positiva em março e, quatro meses depois, já era reprovado por mais da metade dos chilenos. A impopularidade nem sempre é uma métrica representativa de como as coisas estão sendo feitas, mas é o indicador mais confiável da percepção comum sobre elas. Da mesma forma, tudo isso ilustra a reviravolta quase literária entre a empolgação que existia com a nova constituição há algumas semanas e o entrave social e institucional que o processo enfrenta agora. Os constituintes estão desacreditados, os políticos tradicionais são rechaçados demais para retomar seu protagonismo e Boric com sua equipe, sozinhos, não conseguem mudar o rumo das coisas. A miséria da miséria é ver pulular nos jornais chilenos a expressão “terceira via” como resolução do problema.

O mais importante, por agora, é entender a ascensão desse novo governo por meio das urnas — e antes, por todos os debates que se sucederam à tomada das ruas de 2019 — como o melhor que um país poderia fazer com uma explosão social daquelas dimensões. O Brasil produziu, com a sua, de 2013, um amontoado de organizações liberalóides, liderados por homens também jovens, mas tão mais velhos quanto tudo o que havia, um golpe de Estado dado na sutileza do “funcionamento das instituições”, um (ex)presidente conspirador e um fenômeno social disforme e violento que alçou a monstruosidade de Jair Bolsonaro ao poder. O Equador, em que pese o valor da mobilização indígena das manifestações de 2019, afundou em uma crise social e econômica que permanece até hoje, mas agora é presidido por um banqueiro, enquanto as turbulências na Bolívia naquele mesmo terminaram com o regresso de um MAS enfraquecido.

Talvez seja o Peru, na verdade, uma comparação mais interessante, já que o país também viveu uma tomada das ruas que se prolongou no tempo e transformou essas insatisfações em um projeto alternativo: o de Pedro Castillo. À diferença de Boric, o presidente peruano é uma figura do interior, que estava fora da órbita da política limeña até as eleições do ano passado e, por isso mesmo, se colocou como a salvação de um país esgarçado por mais de uma década de escândalos de corrupção, impeachments, graves crises institucionais e uma polarização social tão violenta quanto a brasileira. As esquerdas, porém, se dividiram: para uma parte, Castillo se tornou imediatamente o salvador — e, se o fosse, também seria do mundo. Para outra, era um homem tóxico, retrógrado, um “médio peruano” que se vestia com as roupas do povo para melhor falar com ele. Foi assim que o presidente se sentou na cadeira como fenômeno velho, como um certo regresso, e que hoje luta para salvar a si mesmo de um caos institucional que, por sua vez, não lhe deixa respirar.

Até por isso, os nossos olhos devem estar bem atentos aos chilenos. Sua possibilidade de salvar o mundo, de apresentar a ele uma alternativa política, de lhe mostrar possibilidades paralelas das relações, de transformar as demandas das ruas em instituições, de rever os pactos sociais, as interações com as coisas, com o meio ambiente, mesmo sua gana juvenil repleta de aspirações, vive em perpétua ameaça. O presente o prova. Boric, impopular, depende da constituição dos representantes da Convenção para governar como prometeu nas eleições. Essa é, na verdade, a grande contradição de quem se coloca nesta posição — que o diga o Brasil, um eterno candidato a herói, mas que insiste em recusar o papel. Para eles, o desafio é colocar uma afirmação onde hoje há uma pergunta: o Chile vai salvar o mundo?

 

Vinícius Mendes é jornalista e sociólogo.



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