Ficção e família

‘O desabamento’ reflete sobre o ciclo da violência doméstica para jamais repetir

Livro francês O desabamento elucida a relação conturbada de irmãos diante a morte, o vício e fugas

A inimizade e conflito dos filhos é uma temática intrínseca à literatura mundial. Desde Caim e Abel, na Bíblia; à Esaú e Jacó (1904), de Machado de Assis, até Yaqub e Omar em Dois Irmãos (2000), o ciúmes e a relação prejudicial corrói a interpessoalidade. A quebra do padrão entre amizade e companheirismo se torna uma competição injusta e repulsiva pela atenção dos dois pais, em geral, em uma relação fragmentada. 

A inexistência da relação cria um paradoxo. Enquanto a tradição da família perpetua a amizade entre os seus integrantes, a ruptura com esta relação traz choque. Entre o amor eterno e a violência parental, o prejuízo aos filhos transforma-se em determinismo. A ruína de um dos personagens e a glória de outro é a conclusão deste conto eterno. Caim matou Abel, mas aquele que morreu foi exumado de seus pecados e reverenciado, enquanto o outro é sinônimo do demônio, por exemplo.

Em O desabamento, lançado em outubro de 2024, do escritor Édouard Louis, e enviado pela TAG Livros, o irmão mais velho do narrador é morto aos 38 anos após uma vida cheia de controvérsias, álcool, violência e opressão. Baseado na vida real do autor, a narrativa disseca a política, ciências sociais e psicologia para desprender-se do que conhecia do seu irmão antes da sua morte, ao que sabe atualmente. 

Louis utiliza de 16 fatos sobre o seu irmão para que o leitor entenda a falta de empatia pela sua morte. A primeira frase que o escritor afirma é: “Não senti nada quando soube que meu irmão tinha morrido”. A partir deste trecho, compreende-se que a raiva, a decepção e o rancor estavam emoldurados no peito do protagonista em uma clara antipatia pelas ações do irmão mais velho.

 

O desabamento
Foto: Divulgação/TAG

A explosão da família

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 400 milhões (60%) de crianças estão sujeitas à disciplina física ou psicológica violenta dentro de casa. A pesquisa analisou 100 países entre os anos de 2010 e 2023. O dado sugere a naturalização da violência no ambiente familiar para a “educação” de crianças.

Louis não explicita dentro de seu livro a violência física que o irmão possa ter sofrido na infância, provavelmente porque não lembra. Mas muitos de seus pensamentos acerca da “ferida” de seu irmão levam o leitor a questionar os atos dos próprios pais contra ele. 

O protagonista é fruto de uma relação anterior ao nascimento do próprio autor. Logo, a inexistência do pai e o não reconhecimento do padrasto como figura parental implica numa solidão própria do homem sem um ídolo. Sem a orientação do pai e a reprodução da violência pela mãe, o irmão se envolve com álcool e reproduz as agressões.

A partir desta narrativa, a obra conta mais do que apenas sobre o protagonista, mas sobre como suas ações refletem no próprio autor. A raiva de Louis contra o irmão representa a frustração da violência contra ele mesmo. O personagem menciona em trechos sobre a homofobia por parte de colegas e conhecidos, que se relaciona ao próprio preconceito que seu irmão tinha com ele.

Na obra, o autor explica “conheço muito bem a alegria que garotos como meu irmão sentem quando agridem, a leveza que têm quando veem que a presa à sua frente caiu na armadilha e está sofrendo, é a mesma excitação que aparecia no rosto dos meninos da escola que me batiam e me chamavam de ‘viado imundo’”. 

A sua relação com o irmão também era prejudicada pelos vínculos de outros personagens, como os de seus outros parentes. E o sucesso de seus livros apenas estreitaram as inimizades entre os familiares. Em uma entrevista para o Roda Viva, ele afirma que a literatura humilhou os seus pais. Entretanto, o compilado de obras alerta os receios da violência contra crianças e abusos a partir de uma reflexão acima do individual.

Em dados coletados, segundo o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, mais de 81% dos casos de violência contra crianças e adolescentes ocorrem dentro de casa no Brasil. Sendo, no total, 50.098 denúncias no primeiro semestre de 2021.

Louis encontrou a paz dentro da literatura. 

E, assim como em todas as narrativas eternizadas pela inimizade fraternal, o renome do autor de O desabameto transforma-se na sua glória, em detrimento da vida de seu irmão e da destruição de sua família tradicional. Afinal, “quem sabe a diferença entre o que machuca e o que liberta?”. Através da palavra, Louis aborda a sua emancipação da violência doméstica e familiar em um conto libertador e emocionante.

 

Regina Lemmi é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

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