O desafio climático - Le Monde Diplomatique

Meio ambiente

O desafio climático

por Phillipe Bovet
6 de outubro de 2007
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Em poucas décadas, evoluímos da negação irresponsável rumo à tomada de consciência e à busca de soluções. Mas, se hoje a humanidade está mais alerta para os perigos que a ameaçam, ainda há muito o a fazer para implementar as medidas indispensáveis

Os ecossistemas possuem as formas que conhecemos porque, nos últimos 20 mil anos, a natureza passou de uma paisagem dominada pelo gelo em grande parte da Europa e da América do Norte à configuração atual, em que as geleiras estão concentradas nos pólos e em grandes altitudes. Essa transição, que durou 5 mil anos, coincide com um aquecimento global de cerca de 5°C, que permite avaliar que o ritmo natural da mudança de temperatura em um longo período de tempo é, em escala planetária, da ordem de um grau por milênio.

Problema: estima-se a duplicação da quantidade do CO2 (principal gás do efeito estufa) até 2050. Isso poderia provocar um aumento médio da temperatura ao menos dez vezes mais rápido do que o ritmo médio global de mudança desde o último período glacial. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), se o consumo de combustíveis fósseis seguir no ritmo atual, as emissões de CO2 ligadas à energia atingirão quarenta gigatoneladas em 2030, ou seja, 55% mais do que em 2004.1 Sendo assim, o planeta se aqueceria de 2,4°C a 6,4°C no decorrer do século XXI, segundo o elevado afastamento de cenários constante do último relatório do Grupo Intergovernamental sobre a Evolução do Clima (GIEC), órgão de referência das Nações Unidas, que anuncia uma mudança de era climática.2 Tal aumento provocará uma modificação do mapa global. A nova distribuição da agricultura, o êxodo das populações litorâneas e insulares, a migração ou o desaparecimento de parte de espécies animais e vegetais determinarão uma mudança na civilização.

Desorientação da opinião pública

Além dos fatos concretos, a crise ambiental é também um caso de psique, um desafio cognitivo, uma vez que suas dimensões excedem a capacidade de entendimento dos indivíduos. Apesar do acúmulo de relatórios científicos desde a primeira Cúpula da Terra, realizada em Estocolmo, em 1972, até a recente Avaliação dos ecossistemas para o milênio,3 a crise ambiental é objeto de uma negação generalizada, alimentada por controvérsias que tendem a relativizar a amplitude do problema.

Do romancista “climatocético” Michael Crichton, autor de State Fear, um tecnothriller antiecologista,4 a Claude Allègre, adepto da tecnologia como solução para os males do planeta, todo tipo de agitador se ocupou de desorientar a opinião, alimentando uma época de controvérsias sobre a existência do aquecimento climático. Nos Estados Unidos, os think tanks financiados pelas companhias petroleiras próximas ao presidente George W. Bush, ExxonMobil à testa, tentam ainda minimizar o alcance da mudança e desacreditar os trabalhos do GIEC. Um grupo de cientistas e cidadãos norte-americanos fez recentemente uma pesquisa com 279 climatólogos que trabalham para agências de pesquisa federais dos Estados Unidos: 58% deles foram censurados por seus superiores ou sofreram pressões para que a expressão “mudança climática” seja eliminada de seus relatórios.5

Nesse mesmo sentido, em 2001 teve início uma polêmica sobre o estado do planeta, com a publicação, em inglês, do livro do dinamarquês Bjørn Lomborg, O ambientalista cético.6 Com o bordão de que “não há com que se preocupar”, o autor sustentava que, em diversos domínios, o meio ambiente melhoraria em vez de se deteriorar e que os mecanismos de mercado saberiam corrigir determinados danos momentâneos.

O aparente rigor científico dessa obra foi denunciado como falacioso por inúmeros especialistas. Tal fato parece não ter desencorajado o autor, que, em Cool It: The Skeptical Environmentalist’s Guide to Global Warming (“Não esquenta: guia do ambientalista cético para o aquecimento global”), volta à carga com uma negação mais dirigida: a da escala do aquecimento climático.7

Em resumo, Lomborg exorta a sociedade a não tomar nenhuma medida séria para deter o desequilíbrio do clima. Segundo seus cálculos, custará 180 bilhões de dólares por ano às economias industriais para cumprir seus objetivos de reduzir as emissões de gases do efeito estufa: por esse preço, segundo ele, vale mais a pena continuar a destruir o planeta, para alimentar o crescimento e fabricar as tecnologias que acabarão por salvar a humanidade!

Essa postura cética vem perdendo o fôlego, quando mais não fosse pelo custo cada vez maior que incide sobre a energia. Até mesmo a AIE, que ninguém em sã consciência vai considerar suspeita de defender as teses do decrescimento, rejeita esse tipo de raciocínio. De acordo com seu relatório anual, o World Energy Outlook, de 2006, serão necessários 20 trilhões de dólares de investimentos conjuntos para satisfazer a crescente voracidade energética do mundo entre 2006 e 2030. A AIE considera “rentável” tomar medidas adotando cenários alternativos, como os propostos pelo Protocolo de Kyoto,8 e o mais depressa possível:9 “O custo dessas políticas seria mais do que compensado pelas vantagens econômicas que ocasionassem um consumo e uma produção energética mais eficazes”.10

Essa abordagem é confirmada pelo relatório amplamente divulgado do economista britânico Nicholas Stern, segundo o qual o aquecimento poderia custar 5,5 trilhões de euros à economia mundial.11 Além da amplitude do impacto do aquecimento sobre a humanidade, a destruição da natureza acarreta a perda de inestimáveis serviços vitais prestados pelos ecossistemas, como a purificação do ar e da água, a estabilização do clima, a diversidade de moléculas úteis à medicina contidas nas plantas. A importância dada ao clima pela economia passou recentemente a conferir à crise ecológica uma nova credibilidade, aos olhos dos líderes dos países industrializados. Sem que, por isso, se questionem os fundamentos do crescimento.

Inúmeras informações e relatórios científicos passaram a convergir, retransmitidos por porta-vozes emblemáticos como Al Gore e Nicolas Hulot, para que a crise ambiental continue a ser objeto de rejeição. Essa superabundância de sinais de alerta tem entretanto um outro lado: o risco de sua própria banalização. A sociedade inteira parece engajada em uma operação de greenwashing (lavagem cerebral ecológica), que permite antes reciclar consciências que mudar paradigmas. A Copa do Mundo de rugby, apesar de ser apresentada pelo ministro francês da ecologia, do desenvolvimento e do planejamento sustentável, Jean-Louis Borloo, como a “primeira grande celebração esportiva internacional co
ncebida como um modelo em termos de ecoevento”, não deixou, porém, de liberar perto de 570 mil toneladas de CO2 em razão do tráfego aéreo que provocou.12 Algo contraditório para a imagem conflituosa desses tempos…

À medida que a sociedade toma consciência da deterioração das condições de vida na Terra, as formas de rejeição tornam-se mais complexas, como que para postergar o prazo de reorganizar a coletividade e de questionar a produtividade globalizada. O discurso alarmista do presidente Jacques Chirac – “Nossa casa queima e olhamos para o outro lado” –, pronunciado em 2 de setembro de 2002 durante a Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável, em Johannesburgo, levantou uma exigência paradoxal, estabelecendo grandes princípios de ação que não surtiram muitos efeitos.

O programa de estradas de rodagem francês não prevê a construção de 3 mil novos quilômetros de rodovias? O ministro da Ecologia e do Desenvolvimento Sustentável Serge Lepeltier não deixou o governo de Jean-Pierre Raffarin, em 2005, por não ter tido êxito em impor uma restrição aos 4×4, veículos excessivamente poluentes? O conceito de desenvolvimento sustentável gera a ilusão de mobilização. Ele serviu mais para sustentar uma fantasia coletiva de ação e fornecer uma maquiagem verde às multinacionais mais poluentes do que para desencadear a “ruptura” que se supõe ser a questão em torno de um Grenelle do meio ambiente.

O “Grenelle do meio ambiente”, anunciado para o fim de outubro pelo governo de François Fillon, conseguirá abrir a França para a conscientização ecológica? Desde 13 de julho de 2005, no âmbito da lei que fixa as orientações de sua política energética, Paris determinou como meta diminuir em quatro vezes a emissão de CO2 até 2050. O que aconteceu desde então? No fundo, muito pouco. No entanto, para atingir esse ambicioso objetivo não há tempo a perder. Nosso governo saberá pôr em andamento uma política voluntarista para respeitar tais objetivos?

É de se duvidar, uma vez que, freqüentemente apontada pela União Européia por sua falta de compromisso ambiental, a França está bem atrasada nesse ponto. Se os resultados do Grenelle não questionam a política nuclear, os projetos de auto-estrada e as plantações de Organismos Geneticamente Modificados (OGM)– dos quais o presidente da República e seus amigos são partidários determinados –, e tampouco dão prioridade absoluta aos transportes públicos, nem taxam as energias fósseis, e ainda permitem os lobbies e sua clássica visão do crescimento econômico, é porque o desafio da mudança climática não foi compreendido.

Um desafio difícil de ser assumido em um contexto político francês pouco aberto a tais transformações. A ministra do Meio Ambiente de 1995 a 1997 durante o governo de Alain Juppé, Corinne Lepage, critica com veemência a “onipotência dos membros dos grandes setores [grands corps, ‘ministérios’]” que compõem o governo francês: “As soluções continuam as mesmas, enquanto os progressos da ciência ou as práticas no exterior mostram que novas vias são possíveis. (…) No campo das grandes infra-estruturas, viárias e rodoviárias, ou da energia nuclear, ou, ainda, da biotecnologia, sempre encontrei nos ‘especialistasdo Estado’ pouquíssimas dúvidas e perguntas. (…) Esse caráter todo-poderoso dos grandes setores (…) é a meu ver uma das causas – senão a principal – do atraso francês”.13

Como as estruturas estatais francesas poderiam se abrir rapidamente para as questões ecológicas se em 1986 elas trataram o acidente de Chernobil com a maior falta de transparência (a nuvem radioativa supostamente parou na fronteira francesa), assim como, mais recentemente, a questão dos pesticidas na agricultura, ou do amianto? Lepage acrescenta: “Sou levada a crer que a cegueira dos sucessivos governos em relação ao problema do amianto (…) não teria sido possível sem, de um lado, a força do setor das Minas, que está presente tanto na administração dos órgãos de controle como na direção das empresas de materiais de construção, e, de outro, o precedente ligado à indústria nuclear e os comportamentos que ele havia induzido”. Será possível fazer com que estruturas tão rígidas compreendessem a necessidade urgente de mudança?

Como diminuir drasticamente os despejos mundiais, principalmente de CO2, e passar das meras palavras de efeito a uma prática real de sobriedade energética? Desde que especialistas em clima e questões ambientais percorrem o mundo em conferências de cúpula internacionais, apenas soluções globais são propostas. Ora, tendo em vista a urgência, seria preferível que alguns países se distinguissem e servissem de exemplo, em vez de esperar uma mudança de política ambiental de potências como Estados Unidos ou Austrália, um dos maiores produtores mundiais de carvão e país não-signatário do Protocolo de Kyoto, visando preservar seu maná carvoeiro.

À mercê dos que querem atrapalhar

Deputado social-democrata alemão e prêmio Nobel alternativo de 1999, Hermann Scheer, especialista em energias renováveis, estima: “O desejo de um consenso [mundial] a qualquer preço é incompatível com a necessidade de se reduzir o mais rapidamente possível os riscos, pois o fato de procurar a aprovação da maioria nos deixa à mercê dos que querem impedir, deter e diluir os objetivos visados”.14 Falando claro, todo mundo espera todo mundo. Além do mais, em um planeta com recursos limitados, as grandes reuniões internacionais jamais abordam a própria questão do crescimento econômico. Medidas em prol da sobrevivência ecológica são aceitas apenas se não representam um entrave para o princípio desse mesmo crescimento ou da liberalização do mercado.

As produções energéticas (refino e geração de eletricidade) representam 49% das emissões mundiais de CO2 e estão entre as que acarretam as maiores conseqüências ambientais.15 Alguns países compreenderam bem o que isso representa e, ao longo das décadas passadas, não hesitaram em se lançar sozinhos por vias energéticas alternativas.

Assim, a Dinamarca vem desenvolvendo a energia eólica terrestre desde os anos 80 e os britânicos iniciaram programas de pesquisa sobre energias renováveis marinhas no final dos anos 90.16 A cidade de Barcelona, por sua vez, determinou em 2000 a utilização de captadores solares térmicos em habitações novas e reformadas, medida que foi posteriormente adotada em toda a Catalunha e a seguir em toda a Espanha.
A Alemanha, depois de muitos anos, segue pelo mesmo caminho. Embora alguns prefiram observar com certa ironia que Berlim realiza uma política contraditória ao desenvolver economias energéticas e energias renováveis ao mesmo tempo em que continua a queimar carvão; ao importar, da França, a eletricidade; e ao tentar prolongar a vida de suas centrais nucleares.

O coro dos descontentes esquece, porém, que a França não faz um vigésimo do que realiza seu vizinho do outro lado do Reno e que o que ocorre é um autêntico embate entre dois mundos energéticos: de um lado, o antigo, ligado ao carvão, à energia nuclear, ao transporte individual por automóvel, e, do outro, um novo mundo descentralizado, ligado às economias de energias, às fontes renováveis, aos transportes públicos e às questões de saúde pública.

Dando as cartas há décadas, os lobbies desse antigo mundo fazem de tudo para negar a necessidade e a possibilidade de uma mudança rápida do jogo. Os especialistas em energias renováveis sabem que os impedimentos não são técnicos, mas essencialmente administrativos e políticos. Vale acompanhar o resultado das eleições regionais de 27 de janeiro de 2008, que acontecerão na Land de Hesse (6 milhões de habitantes, 21 mil quilômetros quadrados), cuja candidata pelo Partido Social-Democrata (SPD), Andrea Ypsilanti, planeja, se vencer, propor um modelo energético que caberá a Scheer pôr em prática. Ela pretende, em cinco anos, desenvolver as economias energéticas e as energias limpas, fechar as duas centrais nucleares de sua Land e mostrar que a construção de usinas a carvão não é absolutamente necessária.

As escolhas a fazer exigem que o Estado reassuma seu papel e saiba arbitrar, a longo prazo, em prol do bem comum, sem se dobrar aos interesses de curto prazo dos lobbies. O autor americano Richard Heinberg publicou recentemente uma obra que trata das questões energéticas e ambientais: o título, The party is over,17 é significativo, pois está bem claro que “a festa acabou”. No entanto, se bem compreendido, o desafio do aquecimento climático pode constituir uma oportunidade para a humanidade. Questionar o transporte por automóvel é almejar cidades mais calmas. Abandonar a centralização na energia nuclear e nas energias fósseis significa desenvolver modelos energéticos locais que envolvam os cidadãos. Diminuir os deslocamentos de mercadorias através do mundo é reorganizar a economia e lutar contra o desemprego. Essa luta contra o aquecimento climático representa uma oportunidade de poder trabalhar para melhorar o mundo.

*Phillipe Bovet é jornalista e coordenador do Atlas do meio ambiente de Le Monde Diplomatique.



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