O discurso da objetividade e da politização da ciência

Análise

O discurso da objetividade e da politização da ciência

por Rafael Mantovani
14 de janeiro de 2021
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Não há conhecimento neutro, mesmo campos como o da biologia estão repletos de valores sociais.

Não passa um dia sem que se fale em algum veículo de comunicação sobre a politização das vacinas, que politizar assuntos de saúde pública é um desserviço etc. Por um lado, esses discursos ressaltam o quanto o termo “política” vem caindo em descrédito, especialmente a partir de 2016, quando candidatos recusaram a pecha de “político” para angariar mais votos. Por outro, mostram a impressão que em geral se tem de que algum conhecimento humano – como a ciência, por exemplo – possa ser neutro com relação às escolhas humanas.

Historicamente, política se refere ao que é do interesse público, portanto, a tudo o que envolve o mundo das pessoas. A organização comunitária ou societal passa pelos acordos de hoje para definir os rumos de amanhã. É verdade que de alguns séculos para cá, política tem sido entendida como os assuntos de interesse do Estado; contudo, mesmo com essa concepção reduzida, não deveríamos nos deixar enganar: o cuidado com a saúde pública, fazer viver para aumentar a força de trabalho, têm sido uma preocupação de Estado desde o século XVIII. Desde então, como promover a longevidade dos concidadãos tem sido um debate intenso. Saúde pública é eminentemente um assunto político. Epidemiologia é necessariamente uma ciência social.

Importante lembrarmos também que não há conhecimento neutro. Mesmo campos como o da biologia estão repletos de valores sociais. A compreensão do mundo natural é feita por um raciocínio humano, logo, é impossível que ele seja compreendido de maneira neutra. Que se diga que a natureza age de acordo com a perfeição do deus católico ou de acordo com a sociedade liberal inglesa do século XIX (como o disse Darwin), estamos compreendendo a natureza de acordo com valores que nos são caros. Talvez se poderia dizer até que estamos “politizando a natureza”, ou ainda, que estamos fazendo política com animais e plantas.

O mesmo vale para quando pensamos sobre políticas de saúde pública. Historicamente, o cuidado com a saúde da população não foi inequívoco e óbvio. Ao contrário disso, foi um intenso debate: se deveria acabar com a pobreza ou com os pântanos da cidade? Dever-se-ia estabelecer políticas de segurança alimentar para impedir a inanição ou construir fossas? E cada uma das escolhas feitas representava um grau diferente de mudança econômica e política. Se se entendesse que o problema de saúde pública se resumia a uma questão de engenharia urbana – dessecação de pântanos, distribuição de água e retirada de esgoto –, então as mudanças poderiam ser realizadas sem transformações sociais importantes. Já se caso se concordasse que a pobreza e a fome são os principais problemas a serem resolvidos, então teríamos como alvo a organização social, as formas econômicas e políticas que resultaram neste problema que afeta os indivíduos no seu aspecto biológico.

Por que então nos espantamos com a postura de presidentes como Donald Trump e Jair Bolsonaro? Há alguns fatores.

Política talvez nunca seja feita com o grau de razão que gostaríamos. Mas, no caso dos líderes populistas, se trata da reiterada negação do óbvio ululante. E essa negação da racionalidade é uma espécie de atiçamento da base de apoio, pois não atende a nenhum outro propósito: as escolhas feitas no campo da saúde pública de antigamente, ainda que interessadas e políticas, atendiam a alguma melhoria: mesmo que fosse privilegiada a visão tecnicista e de engenharia que atenderia aos interesses de uma classe ou grupo social, essa visão ainda traria algum benefício para alguém, como um melhor tratamento das águas com as quais a cidade seria abastecida. Ao contrário disso, quando Jair Bolsonaro, por exemplo, vibra com a interrupção dos testes da CoronaVac, ninguém é beneficiado com isso. Quando insiste na hidroxicloroquina, ninguém é objetivamente favorecido (talvez a indústria que a fabrica). Trata-se apenas de uma retórica que separa seguidores de “comunistas”, cuja finalidade última não é a defesa de uma visão de mundo, mas sim, da sua própria autoridade e soberania. Claro que tanto Trump quanto Bolsonaro defendem determinada visão de mundo, mas essa defesa está subsumida ao valor atribuído a eles próprios, pois o fim é a própria autoridade.

Jair Bolsonaro segura uma caixa de cloroquina (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Dessa forma, chama-nos a atenção o grau de explicitação do interesse político nesses casos. Claro, não se pode ignorar que a corrida das vacinas talvez seja uma repaginação da corrida espacial do século XX e seus interesses políticos; contudo, a corrida espacial efetivamente evidenciava conhecimento físico-espacial, assim como a corrida das vacinas vai realmente denotar conhecimento biológico. Ou seja, é uma demonstração de poder por meio de um saber que pragmaticamente traz benefícios para a vida cotidiana dos concidadãos. No caso do atual populismo, não. Apenas a comoção gregária.

Entendendo o mundo criado pelos homens como um mundo político por excelência, seria mais interessante se o observássemos sem a artificial divisão entre natural e social, em que o primeiro exerce primazia sobre o segundo e carrega toda a objetividade existente. Catástrofes climáticas e epidemias mortíferas são resultados também das nossas organizações sociais. A medicina que temos é a que responde a problemas biológicos da nossa sociedade atual, se pauta nas nossas noções de saúde e doença, de bem-estar e sofrimento. Logo, se a nossa medicina está dentro da nossa sociedade, a nossa sociedade também está dentro da nossa medicina. E um campo depende do outro. O vírus se comporta dentro de células, interagindo com enzimas e proteínas que compõem corpos de pessoas que interagem em sociedade. Entender um desses comportamentos ignorando o outro significa perder de vista a totalidade do fenômeno.

Devemos denunciar a miséria da política de saúde dos populistas, mas precisamos também resgatar a responsabilidade que temos pela origem dos flagelos naturais do mundo – como este pelo qual estamos passando – como também pelas suas formas de contágio. Afinal, criamos organizações sociais e formas políticas de convivência que são tão letais quanto as formas em que interagem vírus, material genético e proteínas. Por exemplo: os idosos são o grupo de maior risco, isso é um dado. Mas tão objetivo quanto esse dado é o reconhecimento de que os idosos de São Mateus são mais suscetíveis do que os de Higienópolis. Ou ainda: os encarcerados do Brasil são o grupo mais preocupante do que todos os idosos do território nacional. Essa objetividade social não é menos objetiva do que a realidade biológica, afinal, não há nada mais implacável do que a morte. Contudo, ao levarmos em conta esses fatores, estamos nos assumindo como responsáveis pelo desastre: nós criamos a pobreza e a prisão. E ao contrário disso, quando elegemos a pretensa objetividade da faixa etária, estamos fazendo uma escolha: deixar a massa carcerária à própria sorte, o que também atende ao desejo de uma moralidade específica que se ancora na desculpa de ser pretensamente mais científica.

Sempre agimos movidos por valores e estamos sendo ideológicos ao sustentar que estamos livres deles. Há valores e interesses na mais matemática das tabelas. Este é um raciocínio incômodo, mas ele precisa ser colocado na mesa para discussão ou ficaremos nessa infinita e inócua acusação de que a política está do lado de lá. Que venha a vacina e, junto com ela, o entendimento de que os frutos que colhemos do mundo natural e social são produzidos por nós mesmos.

 

Rafael Mantovani é sociólogo, doutor pela FFLCH/USP e possui pós-doutorado pela Faculdade de Saúde Pública/USP. Autor do livro “Modernizar a ordem em nome da saúde: a São Paulo de militares, pobres e escravos (1805-1840)” – Fiocruz (2017).



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