O “Fora Bolsonaro” e o combate ao coronavírus - Le Monde Diplomatique

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O “Fora Bolsonaro” e o combate ao coronavírus

por Luiz Filgueiras
17 de abril de 2020
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Derrotar Bolsonaro é fundamental para enfrentar a pandemia

O Partido dos Trabalhadores segue cometendo um erro político fatal: continua tratando o governo Bolsonaro como um governo normal, como todos os anteriores que passaram pelo país desde a queda da ditadura militar. Coerente com essa avaliação atua em cada momento, em cada conjuntura, guiado pela estratégia onipresente de preparar e acumular forças para derrotá-lo nas eleições de 2022.

Agora, em uma reunião realizada no último dia 9, sua Direção Nacional decidiu, mais uma vez, que não é a hora de tirar Bolsonaro. Isso ocorre quando o “Fora Bolsonaro”, com “panelaços” Brasil afora, vem crescendo aceleradamente. E depois, do próprio partido ter assinado, juntamente com Psol, PDT, PSB, PCdoB e Rede, um manifesto que afirma que Bolsonaro não tem condições de seguir governando e que, portanto, deveria renunciar. Além de declarações recentes de sua liderança maior no mesmo sentido.

Mas agora, essa decisão, mantendo a mesma posição tomada desde o início do governo, acrescenta ao erro estratégico outro erro fatal, desta feita de natureza tática: opõe, de forma trágica, o “Fora Bolsonaro” à necessidade de se “focar no combate à pandemia do coronavírus” (defesa do isolamento social e cobranças para que o governo federal aja na proteção dos mais vulneráveis). Como se fosse uma disjuntiva, ou uma coisa ou outra; quando na verdade, está claro para quem quiser ver, que o “Fora Bolsonaro” é condição necessária e fundamental para o enfrentamento da pandemia.

O fascista atua o tempo todo contra as recomendações da OMS, instituições médicas e científicas, médicos em geral (em especial os epidemiologistas e infectogistas) e na contramão do Ministério da Saúde de seu próprio governo e das políticas adotadas em todos os países do mundo. Age como um “5ª coluna”, boicotando o combate à pandemia que, segundo ele, é uma “gripezinha”, confundindo as pessoas e conspirando o tempo todo contra a saúde da população brasileira.

Lobista

O relaxamento do isolamento social observado nos últimos dias já é resultado, em boa medida, de seu comportamento, coadjuvado por seus seguidores, além da morosidade do governo na distribuição dos recursos aos mais fragilizados; e isto num momento crucial de aceleração da curva epidêmica, que ficará mais evidente nas próximas semanas. Ademais, Bolsonaro passou a atuar como uma espécie de médico-mascate e lobista, que indica e faz propaganda de um remédio cuja efetividade no combate ao coronavírus não tem ainda qualquer apoio na comunidade científica nacional e internacional. A essa altura, o seu status já é o de um criminoso internacional, criticado e ridicularizado no mundo todo.

Ignorando a realidade de fato, a Direção Nacional do PT levanta, na defesa de sua decisão, os mesmos três argumentos já exaustivamente conhecidos: não há ainda um crime de responsabilidade caracterizado por juristas, não há vontade e mobilização popular e não há maioria no Congresso Nacional. Portanto, deve-se focar no combate à pandemia.

(Agência Brasil)

O primeiro argumento não é, factualmente, verdadeiro: vários juristas, dos mais diversos campos políticos, concordam e já demonstraram inúmeros crimes de responsabilidade, que não precisam aqui ser listados. Até mesmo Miguel Reale Jr, que foi um dos signatários do pedido de impeachment de Dilma, já reconheceu, mais de uma vez, o cometimento de crimes de responsabilidade por parte de Bolsonaro.
O segundo argumento é uma confissão de que o partido não deve agir como direção política, que é a função fundamental e a razão de existir de qualquer partido; coisa que o PT, no passado, o fez e, por isso, se tornou o maior partido de esquerda. A vontade e mobilização popular é uma construção, um processo, no qual os partidos de esquerda devem estar na vanguarda; não podem se colocar apenas, e simplesmente, na condição de observador e analista. O partido tem que ser agente crucial de criação da vontade e da mobilização popular, que, diga-se, já está num crescente e tenderá a se difundir mais ainda com a disseminação da pandemia.

Por fim, a maioria no Congresso Nacional a favor da saída de Bolsonaro também será resultado do processo que está construindo o “Fora Bolsonaro”. Lembrando mais uma vez: no início dos seus respectivos processos, o impeachment de Collor e o de Dilma também não tinham a maioria de votos dos parlamentares; a mobilização popular mudou, em ambos os casos, a correlação de forças fora e dentro do Congresso Nacional.

Em suma, além dos três argumentos apresentados serem frágeis, os mesmos estão presos a uma estratégia e a uma tática equivocadas, que deixam o povo brasileiro “à mercê” das ações insanas do fascista e seus seguidores: o governo Bolsonaro não é um governo normal e o combate efetivo à pandemia do coronavírus (“prioridade em salvar vidas e as pessoas ter o mínimo que comer”) necessita da derrubada de Bolsonaro. As frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular resumem acertadamente a questão: “Derrotar Bolsonaro é fundamental para enfrentar o coronavírus”.

Luiz Filgueiras é professor titular da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). (Texto finalizado em 10/04/2020)



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