O gato de Felipe González - Le Monde Diplomatique

ESPANHA

O gato de Felipe González

por Luis Sepúlveda
3 de agosto de 2012
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Não é por acaso que “crise” foi substituída por “queda no crescimento” ou que o salvamento de um banco privado por fundos públicos foi apresentado como um “empréstimo em melhores condições”. Desde o primeiro dia da transição democrática na Espanha, o eufemismo se impôs como elemento estrutural do discurso políticoLuis Sepúlveda

Todo relato tem como ponto de partida um lugar e um momento determinados. A crise me afeta diretamente: muitos de meus amigos espanhóis padecem de sua fúria devastadora. Sentem que o futuro está povoado de incertezas e assistem dia após dia, estupefatos, ao desmantelamento da normalidade de um país europeu governado por um poder de duas cabeças, o Partido Popular (PP) e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) – incapazes de dar qualquer explicação sobre os acontecimentos de ontem, as consequências de hoje e os problemas que podem surgir no futuro. Supõe-se que o papel de um governo seja construir o relato de uma sociedade, com suas contradições e problemas. Essa narrativa, contudo, não existe – e jamais existirá – na Espanha, pela simples razão de que, desde a morte de Franco e o início da transição para a democracia,1 os responsáveis políticos construíram a preguiça intelectual como marca registrada. Jamais se pensou em um modelo de funcionamento viável para o país. Quando relemos, como fiz, as declarações do Parlamento ou os discursos de campanha eleitoral, buscamos em vão qualquer menção a um projeto de sociedade espanhola.

O único homem de Estado que encarou essa empreitada foi Manuel Azaña, o último presidente da República antes do golpe de Estado franquista. Não houve outros, porque a grande carência da Espanha se deve à inexistência de uma burguesia esclarecida, que decorre, por sua vez, da ausência de homens de Estado.

A única declaração marcante de um chefe de Estado espanhol foi feita por Felipe González,2 citando o dirigente chinês Deng Xiaoping: “Não importa se o gato é branco ou negro, desde que ele capture os ratos”. Partindo dessa metáfora, cujo significado se impôs a todas as situações sociais, econômicas, culturais e políticas do país, tentarei construir uma narrativa que permita compreender o que aconteceu, o que acontece e por quê. Como cidadão europeu, necessito de um relato que torne inteligível o pesadelo atual e me ajude a encontrar uma saída, antes que a crise se apodere de mim, como o retrato maldito de Dorian Gray.

*

Fazia frio em Madri naquela manhã de 4 de fevereiro de 1988; mas a aspereza do inverno se sentia na rua, e não na sala confortavelmente aquecida do Palácio do Congresso. Convidados pela Associação pelo Progresso da Direção (APD), cerca de mil empresários bebiam as palavras de Carlos Solchaga, o ministro da Economia e das Finanças do governo socialista de Felipe González: “A Espanha é o país da Europa, e talvez do mundo, onde mais se ganha dinheiro a curto prazo. Não sou eu quem diz: é o que afirmam os consultores e analistas financeiros”.

A ovação recebida pelo ministro fez a temperatura subir a um nível tropical. O PSOE falava claro e sem atropelo: a Espanha era um país onde só os idiotas não eram ricos – ou negavam convencer-se de que o eram. O funcionamento da economia, o princípio da solidariedade, a concepção social-democrata de bem-estar, a análise de esquerda das origens da riqueza: tudo isso e todo o resto haviam sido varridos para dar espaço ao caminho glorioso que conduziria a sociedade a reconhecer-se apenas na fortuna, e, ademais, na fortuna “a curto prazo”.

Como pode um país ceder dessa forma às sereias do dinheiro fácil? Os argumentos lançados pelos economistas para explicar a crise mundial eludem um fato essencial: não somente o sistema capitalista fracassou em seu conjunto, como, no caso particular da Espanha, esse fracasso foi amplificado pela transição incompleta da ditadura nacional católica para um Estado democrático cuja única obsessão é virar a página.

A incorporação da Espanha à Comunidade Europeia tornou impossível ou inaudível qualquer discussão sobre a natureza do campo democrático. A experiência republicana foi ignorada sem que ninguém se preocupasse com o preço a pagar pela ausência de referências históricas, ou pelo desejo do Ocidente que nos jogou nos braços da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no fim da Guerra Fria, ou ainda por essa maldição cultural chamada “picaresca”.3 O gato, seja qual for sua cor, deveria capturar o rato.

O espetáculo da canalhice arranca risos e diverte o povo cego, mas, quando essa veia picaresca se torna um princípio de vida, ou pior, do governo, as consequências podem ser duradouras: os fracassos de hoje existem para nos fazer lembrar dos de ontem.

Entre esses fracassos, o uso de um vocabulário pervertido pode afastar a realidade. Não é por acaso que o terrorismo de Estado praticado contra o ETA4 na década de 1980 foi chamado de “política antiterrorista”, nem que a palavra “crise” foi substituída por “queda no crescimento”, ou ainda que o salvamento de um banco privado por fundos públicos foi apresentado como um “empréstimo em melhores condições”. Desde o primeiro dia da transição democrática, o eufemismo se impôs como um elemento estrutural do discurso político.

Três anos antes da queda do Muro de Berlim, do desmoronamento do socialismo chamado real nos países do Leste Europeu e da proclamação da “nova ordem mundial”, a Espanha aderia à União Europeia, e a palavra globalização ainda soava como um barulho difuso, calando qualquer reflexão sobre a oportunidade real ou sobre a maneira mais sábia de integrar a Espanha à nova economia globalizada. Tranquilas, na certeza de pertencer por osmose à minoria mais afortunada da humanidade, a classe política em geral e a imensa maioria dos economistas espanhóis não refletiram nem um segundo sobre as consequências de uma decisão que está na raiz da crise atual.

Quando os economistas mais poderosos do mundo decidiram que as nações menos desenvolvidas deveriam se transformar em um mercado gigante, com a condição de abrir-se à concorrência do “primeiro mundo”, nenhum profeta como Carlos Solchaga parou de acreditar e martelar que as condições impostas aos países do dito terceiro mundo, por mais injustas e ingratas que fossem, impulsionariam uma dinâmica irresistível: os pobres venderiam mais mercadorias aos ricos e se tornariam mais competitivos em relação às indústrias do primeiro mundo.

Esses países conheceram um crescimento espetacular e foram batizados de “economias emergentes”. Seu enriquecimento, que poderia ser tomado como a justa reparação pelos séculos de pilhagem, teve como efeito colateral a concentração da maioria das riquezas nas mãos das elites e incitou os Estados a fazer prevalecer as “necessidades” econômicas em detrimento das considerações políticas. Sempre em benefício próprio, os países ocidentais não hesitaram em sacrificar as próprias indústrias nacionais. O deslocamento de fábricas em busca da redução de custos e as chantagens do tipo “nada de impostos ou vou embora” os incitaram a restringir o estilo de vida e buscar as primeiras brechas no Estado de bem-estar social, enquanto esperavam seu completo desmantelamento.

Era surpreendente o comportamento desses novos senhores? Não. O rosto que exibe o capitalismo não tinha nada de novo. Muito tempo antes de a palavra “globalização” entrar no vocabulário da economia e da política, seu conteúdo havia sido perfeitamente decifrado pelo presidente de uma nação latino-americana longínqua, Salvador Allende,5 durante um discurso pronunciado diante da Assembleia Geral das Nações Unidas no dia 4 de dezembro de 1972: “Assistimos a um confronto direto entre as grandes transnacionais e os Estados. Estes últimos estão parasitados em suas decisões essenciais – políticas, militares e econômicas – por organizações mundiais que não dependem de nenhum Estado e não respondem por seus atos diante de nenhum Parlamento nem diante de uma instituição que garanta o interesse coletivo. Em uma palavra, toda a estrutura política do mundo está sendo destruída”.

Nessa época, o mercado já se comportava como uma ditadura, e a política, essa velha arte do possível, tomava ares de uma competição que serviria para avaliar os melhores empresários do mercado. Tudo isso foi sumamente ignorado pelos políticos espanhóis. O provérbio “Desprezo aquilo que ignoro”, tão característico do pícaro, colocou-os em um imobilismo absoluto diante dos primeiros sintomas da crise.

A adesão da Espanha à União Europeia, ao lado de Grécia e Portugal, marcou não somente o fim da autossuficiência ibérica, mas também o começo de um fluxo intenso – com os famosos fundos de coesão e ajuda ao desenvolvimento – que drenaria mais dinheiro do que o Plano Marshall conseguiu reunir para toda a Europa no pós-guerra. Para o período entre 2007 e 2013, a Espanha obteve US$ 3,25 bilhões. Apesar do dogma “a Espanha vai bem” pregado durante os oito anos de reinado de José María Aznar e da confiança de José Luis Rodríguez Zapatero6 de que o país gozava de uma economia mais próspera que a da Itália e empreendia as mais altas performances financeiras do mundo, a Espanha não depositou nem um centavo aos dez países do Leste que se incorporaram à União Europeia em 2004. Essa mesquinharia teria sido suficiente para deixar seus vizinhos europeus com a pulga atrás da orelha. Se esse não foi o caso, é porque os mercados viam na Espanha – como fizeram antes com os Estados Unidos – uma galinha dos ovos de ouro muito mais promissora que a incerta modernização do sistema produtivo: a especulação imobiliária e a concessão ilimitada de créditos hipotecários.

Poucos foram os homens políticos e os economistas espanhóis que entenderam a dimensão do fato de que, durante os cinco anos que precederam a queda do banco Lehman Brothers, as economias emergentes como a China, o Brasil e a Índia registraram picos de crescimento fenomenais. Foram poucos, porque a corrida pela competitividade empreendida por algumas empresas espanholas ainda capazes de sair do jogo mundial não importava muito perante a promessa de ganhos a curto prazo com a bolha imobiliária.

A febre imobiliária e a corrupção alastrada se materializaram em aeroportos grandiosos onde jamais aterrissou um avião, em linhas de trem de grande velocidade que não transportam nenhum passageiro, em circuitos de automobilismo que se transformaram em reprodutores de coelhos, em centros culturais faraônicos que servem de poleiros de pombas. Em meio a tudo isso, os bancos apresentaram os balanços mais rentáveis da história. O gato havia capturado o rato.

A profecia do mago Solchaga tinha se concretizado − a Espanha era o mais belo e melhor país do mundo para ganhar milhões da noite para o dia, graças a uma fonte natural inesgotável cujo valor não cessava de subir: o solo.

Diz-se que a cultura empreendedora de um país se mede pela diversidade de sua produção. O mercado imobiliário traiu essa premissa, e praticamente todas as pequenas e médias empresas se consagraram ao setor de construção.

Desde o início do boomimobiliário, os dirigentes econômicos e sindicais sabiam que estavam sentados sobre um barril de pólvora. Porém, apesar dos alertas tímidos da Esquerda Unida,7 ninguém quis dar o primeiro passo. O gato deveria continuar a capturar os ratos, ainda que fossem apenas miragem.

Se o povo deve trocar seus dirigentes quando eles não valem nada, os dirigentes gostariam de trocar de povo quando lhes convém. Essa observação de Bertolt Brecht demonstra bem o estado de espírito do PSOE após sua dolorosa derrota eleitoral no ano passado. Durante seus últimos meses no poder, os socialistas tinham enfrentado a crise – cuja existência eles negaram no início e recorreram à ideologia de mercado para certificar o caráter invulnerável da economia espanhola – renunciando a qualquer vontade de governar à esquerda. Julgou-se supérfluo explicar aos cidadãos por que os bancos não emprestam mais, por que as pequenas e médias empresas quebram uma atrás da outra e por que o desemprego sobe a cada dia. Os poucos esforços feitos pelo governo de Zapatero para salvar o que podia ser salvo se chocavam com os bombardeios da direita espanhola, que empreendeu uma das oposições mais irresponsáveis já vistas em um país democrático. Contudo, as ações dos dois lados coincidiam em um ponto: a ansiedade que tomou conta do povo não valia nada diante da necessidade imperiosa de “tranquilizar os mercados”, ou seja, gratificar os bancos pela indigestão de fundos públicos.

Uma tragicomédia: assim se resumem os últimos meses do mandato socialista. Enquanto o governo reduzia os salários e regava os bancos, opositores como Cristóbal Montoro, o atual ministro da Fazenda e da Administração Pública se gabavam em público: deixemos o país seguir seu rumo, que nós o salvaremos. Na lista dos salvadores, Luis de Guindos: presidente executivo do Lehman Brothers na Espanha e Portugal de 2006 a 2008, ele distribuiu às autoridades ibéricas as informações de primeira mão que possuía sobre as contas problemáticas do banco e sobre os sinais que anunciavam sua quebra. Três anos depois, foi recompensado com o posto de ministro da Economia e da Competitividade no governo de Mariano Rajoy.

Assim, enquanto o governo socialista estrangulava as despesas sociais com o pretexto de “ajustes necessários” e de “obrigações impostas por Bruxelas”, o número de desempregados passava de 2 milhões para 3 milhões, logo para 4 milhões e, hoje, atinge os 5 milhões. Nas eleições, a ausência de uma narrativa suscetível de esclarecer os acontecimentos deixou apenas uma questão em suspenso: queremos ser cidadãos ou consumidores? Uma parte importante da sociedade optou pela segunda alternativa e conferiu à direita uma vitória esmagadora.

O gato poderia continuar a capturar os ratos, desde que um novo festim fosse oferecido à sua voracidade: a oferta da dívida pública. Os fundos depositados nos bancos, em realidade, não serviram para irrigar as empresas e salvá-las da falência nem para aliviar os créditos hipotecários e evitar a expulsão dos pequenos proprietários incapazes de reembolsá-los; serviram, sim, para comprar a dívida pública a uma taxa de juros de 3% a 5%: trata-se de uma especulação subvencionada pelo Estado. Em resumo, a crise financeira deixou as finanças intactas. Talvez esteja menos estufada que antes, mas não morre de fome.

Em virtude das regras da União Europeia, cabe aos Estados garantir a seriedade, a robustez e a perenidade de seus sistemas financeiros. Essa perversão permite aos especuladores ganhar em qualquer situação: se os negócios são bem-sucedidos, monopolizam os lucros; se fracassam, o contribuinte paga pelo rombo.

As receitas fiscais se esgotaram alguns meses antes da saída de Zapatero do governo. Mas, como o gato ainda estava com fome, o Banco Central Europeu (BCE) desbloqueou empréstimos a apenas 1% de juros, sem se preocupar com a saúde dos bancos aos quais esses créditos foram destinados. O gato teve a oportunidade de se empanturrar: com o dinheiro fácil do BCE, os bancos abocanharam a dívida pública a uma taxa de juros de 5%, logo 6% e depois 7%. Solchaga não tinha mentido: a Espanha continuava o melhor lugar do mundo para ganhar o máximo de dinheiro em um mínimo de tempo.

Na Espanha, todas as manhãs, somos despertados por um novo golpe: o gato continua capturando os ratos, mesmo que tenham forma humana. Cortes na educação, reduções de despesas com a saúde, demissões batizadas de “ajustes”, silêncio de chumbo diante dos escândalos de corrupção, roubos e pilhagens em série.

A narrativa da crise espanhola começa e termina com uma apologia à corrupção, uma crítica socialista à cultura do lucro e um gato de cor indefinida, grande comedor de ratos.

Karl Marx dizia que o capitalismo contém os germes de sua própria destruição. O filósofo de barba branca pensava na Inglaterra, mas, se hoje ele tomasse sol em uma praia de Marbella, com o gato de Felipe González mordiscando suas orelhas, ele diria, talvez, que o capitalismo, enquanto sistema de exploração que cria a mais-valia, longe de se autodestruir, se regenera ao emprestar ao mercado sua cara invisível, seu corpo insaciável e sua voracidade prodigiosa. E talvez Marx pegaria seu iPhone para ligar para Friedrich Engels e dizer: “Um espectro ronda o mundo. É o espectro do mundo no qual queremos viver, o espectro de uma sociedade possível da qual queremos participar”.

Mas enquanto o espectro não se concretiza em realidade, o gato maldito não para de capturar ratos.



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