O golpe da CIA contra o Irã - Le Monde Diplomatique

POLÍTICA

O golpe da CIA contra o Irã

por Mark Gasiorowski
11 de setembro de 2007
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Não se pode compreender o Irã atual sem recuar até o golpe de Estado de 1953. Fomentado pelas multinacionais do petróleo, ele abortou as reformas em curso, fortaleceu a ditadura do xá e abriu caminho para a revolução islâmica de 1978-1979.

No começo do ano 2000, o New York Times recebeu o relatório oficial do golpe de Estado executado em 1953 pela Central Intelligence Agency (CIA) contra o primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh. Em 18 de junho de 2000, o jornal publicou esse relato em seu site na internet1. Os nomes de várias personalidades iranianas envolvidas estavam apagados, mas a maior parte delas foi apontada nominalmente em outro site2. O fascinante documento contém importantes revelações sobre a maneira como a operação foi conduzida e qualquer pessoa interessada em política interna do Irã ou em política externa americana deveria lê-lo.

O golpe ocorreu em um período de grande efervescência da história iraniana e no auge da guerra fria. Mossadegh (ver box) era então chefe da Frente Nacional, organização política fundada em 1949 que militava pela nacionalização da indústria petrolífera, na época sob dominação britânica, bem como pela democratização do sistema político3. Essas duas questões empolgavam a população e a Frente Nacional tornou-se rapidamente o principal ator da cena política iraniana. Em 1951, o xá Mohammed Reza Pahlevi foi forçado a nacionalizar a indústria petrolífera e a nomear Mossadegh primeiro-ministro, provocando um confronto aberto com o governo britânico. O Reino Unido reagiu organizando um embargo geral ao petróleo iraniano e iniciou manobras de longo prazo visando derrubar Mossadegh.

Planejamento conjunto

Inicialmente, os Estados Unidos decidiram ficar neutros e encorajaram os britânicos a aceitar a nacionalização, ao mesmo tempo em que tentavam negociar um acordo amigável, chegando até a persuadir Londres, em setembro de 1951, a não invadir o Irã. Essa neutralidade continuou até o fim do governo Harry S. Truman, em janeiro de 1953, embora muitas autoridades americanas já achassem que a obstinação de Mossadegh criava uma instabilidade política, deixando o Irã “em perigo real de passar para trás da cortina de ferro” (página III do relatório). Em novembro de 1952, logo após a eleição do general Dwight D. Eisenhower para a presidência dos Estados Unidos, altas autoridades britânicas propuseram a seus pares americanos o planejamento conjunto de um golpe de Estado contra Mossadegh. Os americanos responderam que o governo, naquele momento em fim de mandato, jamais empreenderia uma tal operação, mas o de Eisenhower, que começaria em janeiro, determinado a intensificar a guerra fria, estaria provavelmente propenso a fazê-lo.

O relato da CIA descreve bem a maneira como a intervenção foi preparada. Após a autorização do presidente Eisenhower, em março de 1953, funcionários da CIA estudaram um modo de executar o golpe e se voltaram para o problema da substituição do primeiro-ministro. A escolha recaiu rapidamente sobre Fazlollah Zahedi, um general reformado que já havia conspirado com os britânicos. Em maio, um agente da CIA e um especialista do Irã a serviço do Secret Intelligence Service (SIS) britânico passaram duas semanas em Nicósia (Chipre), onde elaboraram uma primeira versão do plano. Autoridades da CIA e do SIS revisaram-na e uma versão definitiva foi escrita em Londres em meados de junho.

Esse plano era dividido em seis etapas principais:

1) A filial iraniana da CIA e a mais importante rede de informações britânica no Irã, então dirigida pelos irmãos Rashidian, devia desestabilizar o governo Mossadegh, por meio da propaganda e outras atividades políticas clandestinas;

2) Zahedi organizaria uma rede constituída de oficiais capazes de concretizar o golpe de Estado;

3) A CIA deveria “comprar” a colaboração de um número suficiente de parlamentares iranianos a fim de assegurar a oposição a Mossadegh no legislativo;

4) Sérios esforços deveriam ser empregados para persuadir o xá a apoiar o golpe de Estado, embora ficasse estabelecido que a operação aconteceria com ou sem a adesão do monarca;

5) A CIA deveria tentar, e de maneira “quase legal” (p. A3), derrubar Mossadegh, provocando uma crise política durante a qual o Parlamento o destituiria; a crise seria desencadeada por manifestações de protesto organizadas por líderes religiosos, que convenceriam o xá a deixar o país, ou criariam uma situação forçando Mossadegh a renunciar;

6) Por fim, se a tentativa fracassasse, a rede militar montada por Zahedi tomaria o poder com a ajuda da CIA.

As três primeiras etapas, de fato, já haviam sido iniciadas durante a elaboração do “plano de Londres”. Em 4 de abril, a seção da CIA em Teerã recebeu um milhão de dólares destinados “a derrubar Mossade[gh] por quaisquer meios” (p. 3). Em maio, ela deflagrou, com os irmãos Rashidian, uma campanha de propaganda contra Mossadegh e, supõe-se, realizou outras ações clandestinas contra ele. Esses esforços redobraram, de maneira brutal, ao longo das semanas que precederam o golpe (p. 92).

A CIA entrou em contato com Zahedi em abril, pagando-lhe 60 mil dólares (e talvez muito mais) para encontrar “novos aliados e influenciar pessoas-chave” (p. B15). O relatório oficial nega que funcionários iranianos tenham sido comprados (p. E22); é, contudo, difícil imaginar em que mais Zahedi teria gasto o dinheiro. No entanto, a CIA compreendeu rapidamente as debilidades desse aliado, afirmando que ele “carece de determinação, energia e estratégia concreta” e que não era capaz de montar uma rede militar apta a conduzir um golpe de Estado. Essa tarefa foi então confiada a um coronel iraniano que trabalhava para a CIA.

No fim de maio de 1953, a seção da CIA foi autorizada a usar cerca de 11 mil dólares por semana para comprar a cooperação de parlamentares, aumentando em muito a oposição política a Mossadegh. Este reagiu, conclamando os políticos que lhe eram fiéis a renunciar para impedir a formação de quórum, o que traria a dissolução do Parlamento. No começo de agosto, Mossadegh organizou um referendo no qual os iranianos se pronunciaram maciçamente a favor da dissolução e da realização de novas eleições. Isso impediu a CIA de exercer suas atividades “quase legais”, mesmo tendo continuado a utilizar a propaganda para imputar a Mossadegh fraude no referendo.

A 25 de julho, a CIA começou uma longa ação de “pressão” e “manipulação” para persuadir o xá a apoiar o golpe e aceitar a nomeação de Zahedi para o posto de primeiro-ministro. Durante as três semanas seguintes, quatro emissários procuraram o xá, quase todos os dias, com o objetivo de convencê-lo a cooperar. A 12 ou 13 de agosto, apesar de reticências pessoais, ele acabou aceitando e assinou os decretos reais (firmans), demitindo Mossadegh e nomeando Zahedi em seu lugar. A rainha Soraya o teria persuadido a agir assim (p. 38).

A 13 de agosto, a CIA encarregou o coronel Nematollah Nassiri de entregar os firmans a Zahedi e a Mossadegh. Mas a lentidão das negociações com o xá fragilizou o sigilo e um dos oficiais envolvidos revelou a existência do complô. Mossadegh então mandou prender Nassiri na noite de 15 para 16 de agosto, no momento em que este se preparava para entregar o primeiro decreto, e vários outros conspiradores foram interpelados logo após. Pronta para essa eventualidade, a CIA havia preparado unidades militares pró-Zahedi para se apoderar dos pontos nevrálgicos de Teerã. Mas os oficiais desapareceram quando Nassiri foi preso, fazendo fracassar esta primeira tentativa.

Zahedi, assim como outros implicados, se refugiou então em esconderijos da CIA. O xá fugiu para o exílio, primeiro em Bagdá, depois em Roma, e Kermit Roosevelt, diretor da seção local da CIA, avisou Washington de que o golpe havia fracassado. Pouco depois, recebeu ordem de abandonar a operação e voltar aos Estados Unidos.

Mobilização da opinião pública

Mas Kermit Roosevelt e sua equipe decidiram improvisar outra tentativa. Começaram distribuindo cópias dos decretos do xá para os meios de comunicação, de modo a mobilizar a opinião pública contra Mossadegh. Ao longo dos dias seguintes, os dois principais agentes iranianos executaram uma série de operações clandestinas com o mesmo objetivo. Para insurgir os iranianos religiosos contra Mossadegh, fizeram amea­ças por telefone aos chefes religiosos e “simularam um atentado” contra a casa de um eclesiástico (p. 37), passando-se por membros do poderoso partido comunista Tudeh4. No dia 18, organizaram igualmente manifestações cujos participantes fingiram pertencer ao Tudeh. Instigados por esses dois agentes, os manifestantes saquearam os escritórios de um partido político, derrubaram estátuas do xá e de seu pai e espalharam o caos em Teerã. Percebendo o que estava acontecendo, o Tudeh recomendou a seus membros que ficassem em suas casas (p. 59, 63 e 64), o que os impediu de se opor aos manifestantes anti-Mossadegh que tomaram as ruas no dia seguinte.

Na manhã do dia 19 de agosto, os manifestantes começaram a se reunir nas proximidades do bazar de Teerã. O relatório da CIA descreve esses ajuntamentos como “parcialmente espontâneos”, mas acrescenta que “as circunstâncias favoráveis criadas pela ação política [da CIA] também contribuíram para desencadeá-los” (p. XII). De fato, a divulgação dos decretos do xá, as “falsas” manifestações do Tudeh e as outras operações clandestinas realizadas nos dias precedentes levaram muitos iranianos a se juntar às manifestações.

Vários membros iranianos da CIA conduziram então os revoltosos ao centro de Teerã e persuadiram unidades do exército a apoiá-los, incitando a multidão a atacar o quartel-general do partido comunista Tudeh, favorável a Mossadegh, e a incendiar um cinema e várias redações de jornais (p. 65, 67 e 70). Unidades militares anti-Mossadegh começaram imediatamente a tomar posse de Teerã, apoderando-se de estações de rádio e outros pontos sensíveis. Travaram-se intensos combates, mas as forças favoráveis ao primeiro-ministro finalmente foram vencidas. Mossadegh se escondeu, para se entregar no dia seguinte.

O relatório da CIA deixa em suspenso duas questões essenciais. Primeiro, não esclarece a origem da traição que fez fracassar a primeira tentativa de golpe, contentando-se em atribuí-la à “indiscrição de um dos oficiais do exército iraniano envolvido” (p. 39). Depois, o texto não explica como a ação política da CIA favoreceu a organização das manifestações de 19 de agosto, nem qual foi a importância dessa ação na eclosão das manifestações. Outros relatórios, elaborados a partir de entrevistas com participantes de primeiro plano, sugerem que a equipe da CIA teria dado dinheiro a líderes religiosos, que provavelmente não conheciam a origem desses recursos. O relatório da CIA não confirma a versão.

A quase totalidade das pessoas envolvidas está hoje morta e, como a CIA afirma ter destruído a maior parte dos arquivos relacionados à operação, talvez essas questões fiquem sem resposta.

Também é difícil saber quem estava na origem do vazamento que permitiu a divulgação do relatório oficial e qual era a verdadeira finalidade desse vazamento. No artigo publicado em 18 de junho de 2000, o New York Times explica apenas que o documento foi fornecido por um “antigo funcionário que conservou um exemplar”. Por coincidência, um mês antes, a então secretária de Estado Madeleine Albright, durante um importante discurso destinado a promover uma aproximação entre os Estados Unidos e o Irã, pela primeira vez reconheceu que o governo norte-americano estivera envolvido no golpe e pediu desculpas por isso. Muitos avaliam que o vazamento foi deliberadamente organizado pelo governo ou por alguém decidido a apoiar a iniciativa de Madeleine Albright. Se for o caso, é difícil crer que o relatório tenha sido revelado integralmente, mas não se pode excluir essa possibilidade.

*Mark Gasiorowski é professor de Ciência Política na Universidade do Estado de Louisiana, Baton Rouge, EUA.



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