O grito colombiano: entrevista com o ex-presidente Ernesto Samper

RESISTÊNCIAS LATINO AMERICANAS

O grito colombiano: entrevista com o ex-presidente Ernesto Samper

Resistência AL | América Latina
por Victor Moreto
28 de junho de 2021
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O ex-presidente colombiano Ernesto Samper avalia o atual momento vivido pela Colômbia e demais países da América Latina

A América Latina grita. Depois de uma onda de governos neoliberais e de extrema-direita, nossa região parece querer aos poucos virar a página do reacionarismo, do negacionismo, do rentismo desenfreado e do lawfare que destroem democracias, violam o estado democrático de direito e causam um estrago social sem precedentes.

Mas retomar o caminho da democracia ou a tentativa de construir um estado de bem-estar social nunca será sem luta. Ao contrário, nosso grito é acompanhado de muita bravura e de muita dor também. Esse é o caso da Colômbia, que desde o fim de abril vive uma convulsão que há muitos anos não se verificava naquele país.

O que começou com um sentimento de indignação contra uma reforma tributária que obrigava a maior parte da população a arcar com o déficit público, num momento de crescimento das vítimas pela Covid-19, passou a um protesto generalizado contra a violência policial que reprimiu com extrema brutalidade as revoltas populares.

Na reforma, o governo do presidente Iván Duque Márquez propunha desde o aumento do valor da cesta básica, passando pela ampliação das faixas em que incide o imposto de renda até o incremento tributário, pasmem, dos serviços funerários. Nunca é demais lembrar: no meio de uma grave pandemia.

Para tratar deste assunto, entrevistamos o ex-presidente colombiano (1994-1998), Ernesto Samper Pizano. Além de um político de referência, Samper tem vasta produção literária sobre o tema da integração regional. Recentemente, lançou o livro “Grito Latinoamericano” (Editorial Planeta) que traça diretrizes e apontamentos muito caros ao objetivo de nossa série: a integração a partir das resistências latino-americanas.

Ernesto Samper
Ernesto Samper fala durante assinatura de acordo de cooperação técnica entre a Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) e a UNASUL (Elza Fiuza /Agência Brasil)

Samper foi secretário geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) durante o processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Na ocasião, o então secretário decidiu por deixar a organização ao declarar o que hoje cada vez se torna mais límpido: tratou-se de um golpe parlamentar.

Evidentemente, isso causou reações internas e externas. No Brasil, o então ministro das Relações Exteriores José Serra (PSDB-SP), que integrou o governo de Michel Temer por quase dez meses, repudiou a declaração de Ernesto Samper dizendo que o impeachment “seguiu o rito constitucional”.

Cinco anos mais tarde, Ernesto Samper tem a possibilidade de avaliar quais foram os resultados para a Colômbia, para o Brasil e para toda a América Latina de todo esse processo, que ainda vivemos.

 

Le Monde Diplomatique Brasil: O Ministério Público colombiano admite que existem 129 desaparecidos ainda que outras investigações estimam uma cifra de 470 pessoas desde que começaram os protestos no país. Há mais de 60 mortos oficialmente pelo Estado, dezenas de crimes sexuais e centenas de feridos. Há denúncias de lugares clandestinos usados para tortura até vídeos de corpos achados no rio (Cauca). Qual é o papel do presidente Iván Duque nestas ações das forças policiais?

Ernesto Samper: Sua maior responsabilidade está em não haver cumprido os Acordos de Paz de Havana com as Farcs e não continuar com as negociações de paz com o Exército de Libertação Nacional (ELN), que teriam permitido reduzir os níveis de violência armada que hoje se vive no país e que se transferiram às cidades em forma de bloqueios armados. Da mesma forma, Duque deve responder por não haver implementado uma política de respeito aos direitos humanos por meio de mecanismos como o Escritório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações na Colômbia que, na prática, foi desmontado

Ernesto Samper
Repressão policial contra manifestantes, em protestos na Colômbia (Foto: Luisa Gonzalez/ Reuters)

 

Em 2013 tivemos as chamadas “jornadas de julho”: uma série de protestos difusos que levou milhões de pessoas às ruas do Brasil. No entanto, vimos surgir também um aumento das forças ultradireitistas. Por esse motivo, alguns analistas políticos brasileiros olham com precaução o que acontece na Colômbia. O senhor percebe essas manifestações como uma reclamação eminentemente progressista ou acredita que a narrativa ainda segue em disputa no seu país?

A mobilização social que ainda se vive na Colômbia é resultado de uma combinação de violações públicas de compromissos em matéria de educação, saúde e emprego que afetaram sensivelmente a população jovem, em particular a classe média. A essa última foi adicionado um projeto de reforma tributária que pretendia que a classe média pagasse os custos sociais da pandemia, através de impostos diretos e indiretos que afetavam a sua reduzida capacidade de pagamento. A reforma tributária foi o estopim de uma convulsão social que acontece em outras partes do hemisfério no que eu chamei de “o grito latino-americano”, uma espécie de primavera de jovens preocupados pelo seu presente e seu futuro

 

No Chile, vimos um povo marchar contra uma classe política que representa um modelo neoliberal imposto por Pinochet. O senhor crê que os protestos na Colômbia têm algum vínculo com o que aconteceu no Chile? Acredita numa “onda latino-americana”?

Claro que os protestos estão conectados: trata-se de reclamações de uma classe média em um processo de proletarização (na Colômbia, 2,2 milhões de pessoas passaram desta condição à de pobreza extrema), sendo a maior parte de jovens ameaçados por um presente adverso e um futuro obscuro. O modelo neoliberal fracassou estrondosamente em suas possibilidades de crescimento e de inclusão social: gritam os números que mostram a queda da economia e o aumento da quantidade de pobres na América Latina.

 

A mídia hegemônica do Brasil dá muita atenção ao que acontece na Venezuela em termos políticos. A narrativa corrente é a de mostrar o presidente Nicolás Maduro como o único responsável pelo caos social em seu país. Também responsabilizam o projeto “bolivariano”, quase o comparando a uma missão terrorista. Porém, quando em outros países os protestos avançam contra o modelo neoliberal, há uma narrativa difusa e pouco preocupada em adensar nas questões por parte desta mesma mídia. Como o senhor classificaria a cobertura da imprensa hegemônica colombiana acerca do cenário político do país? Qual é a importância do “chavismo” no discurso midiático colombiano?

O discurso da direita latino-americana, importado dos EUA, consiste em provocar uma polarização quase passional ao confrontar cidadãos com supostas ameaças terroristas ou comunistas. Uma delas seria a onda invasora da Venezuela como se o Presidente Maduro, prejudicado pelo bloqueio internacional em sua economia e pela crise pandêmica de sua gente, tivesse tempo para programar intervenções e rupturas em outros países. Falemos a verdade para não seguir tapando o sol com a peneira[1]: os responsáveis pelo que está acontecendo na América Latina não vivem, nem atuam a partir de Caracas ou Havana, mas, sim, a partir dos palácios presidenciais de Bogotá, Quito, Santiago e Brasília: são os próprios Presidentes que falharam com as pessoas.

 

Em um artigo publicado no ano passado no “Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil”, os autores dizem que ainda que houvesse uma promessa de alinhamento entre países da região que, à época, tiveram uma guinada à direita – especialmente Peru, Chile e Colômbia – nunca houve, de fato, uma convergência contundente. Eles argumentam que esta união não ocorreu por conta de um caráter de “extremo autoritarismo” de Jair Bolsonaro. O senhor crê nesta afirmação?

Jair Bolsonaro foi o maior responsável pela divisão da América Latina, em sua história recente, assim como Lula o foi por sua integração. O denominado “grupo de Lima”, que hoje ficou sem sede com a chegada do Presidente Castillo à presidência do Peru, foi criado como um sindicato de ódios ideológicos sintonizado com os interesses do Presidente Trump. Não foi, como se autoproclamou Prosul, mas “Pronorte” a serviço dos interesses dos EUA. A prova está no aval à entrega do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ocupado por personalidades latino-americanas durante toda a sua existência, a um amigo do Sr. Trump, sua solidariedade com sua política anti-palestina e sua cumplicidade com medidas que afetavam os migrantes regionais, ou a mudança climática que tantos danos nos está causando.

 

Muitos na América Latina se assustaram com a eleição de Bolsonaro no Brasil. Alguns não acreditavam na possibilidade de um candidato com influências neofascistas pudesse ganhar a presidência de um país tão diverso em sua composição cultural e racial. O senhor acredita que a imagem da sociedade brasileira mudou no imaginário colombiano depois de 2018?

No governo Lula a região sentiu a proximidade do Brasil. Não somente do Brasil do samba, do futebol e dos carnavais, mas de um Brasil solidário, integrador e independente. Sopraram os ventos do Sul global, foram estruturados novos mecanismos de defesa hemisférica, compartilhamos políticas públicas inclusivas como o Bolsa Escola no Brasil e o SISBEN na Colômbia. Nasceu a UNASUL. A chegada de Bolsonaro ao poder foi o terceiro ato da tragédia golpista que primeiro removeu Dilma da presidência acusada de não ser corrupta, depois prendeu Lula para que não pudesse ser candidato e, finalmente, elegeu Bolsonaro para estabelecer um governo fascista, submisso aos interesses de Trump e distante da região. Como em qualquer boa partida de futebol, os progressistas da América Latina estamos esperando a revanche no próximo ano.

 

Em duas disputadas eleições foram eleitos recentemente, à direita, Guillermo Lasso presidente do Equador e, pela esquerda, Pedro Castillo presidente do Peru (que ainda depende de uma oficialização através dos trâmites legais). Como o senhor analisa as relações externas da Colômbia nesta nova composição geopolítica atual?

Se analisarmos em um contexto mais amplo é inegável que, à medida que a crise social se acentua e a governabilidade democrática se fragiliza os projetos progressistas ressurgem como alternativa. Alberto Fernández na Argentina, Lopez Obrador no México, Castillo no Peru, Arce na Bolívia, a nova Constituinte no Chile, a mobilização social na Colômbia, as novas políticas migratórias e climáticas de Biden são alguns bons exemplos de que a região está retomando um caminho de luz no meio de tanta escuridão da pandemia. Esta última nos deixou um ensinamento claro e definitivo: depois da pandemia, não podemos voltar ao mesmo lugar. É necessário que haja mudança de atores, cenários e roteiros.

 

Alberto Fernández, presidente da República Argentina, demostra explicitamente sua preocupação na construção de um bloco latino-americano progressista. Como o senhor avalia a atuação de Alberto frente a essa questão? Acredita numa liderança do presidente argentino na construção de uma unidade latino-americana?

O presidente Fernández colocou sobre seus ombros a difícil responsabilidade de reestabelecer o conceito de integração regional como proposta de desenvolvimento coletivo. Nunca havia sido tão necessária a integração como agora e nunca havíamos estado tão desintegrados como hoje. O fato, não por coincidência, de que tendo 8% da população do mundo tenhamos 30% dos contágios de Covid prova que a política do “salve-se quem puder” estimulada pelos governos de direita não é o caminho e que a conta social da pandemia não deve ser nunca paga pelas vítimas, como se pretendeu em países como Colômbia, Brasil e Chile.

 

Por último, quais são cenários e prognósticos políticos que o senhor, como uma importante figura para a integração regional no século XXI, vislumbra para os próximos anos na América Latina?

A América Latina sonha acordada. Apesar de todas as nossas dificuldades, temos que seguir sonhando e trabalhando para fazer com que nossos sonhos sejam realidade. Argentina e México acolheram a ideia, proposta pela Unasul, de iniciar um processo de convergência de seus mecanismos sub-regionais de integração (Mercosul, Comunidade Andina, Estados do Caribe Alba etc.) sob o manto comum da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) para identificar espaços que possam ser somados, descartar espaços contenciosos e desenvolver especialidades setoriais. Trata-se de uma grande convocatória para relançar a integração não como um arquipélago de tratados de livre comércio, senão como um verdadeiro processo de integração regional que inclua mobilidade sem fronteiras de cidadãos, conhecimentos, capitais, infraestruturas, mercadorias e serviços, tudo a partir da convicção de que todos somos parte do Sul do planeta.

Victor Moreto, historiador pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e doutorando em Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires (UBA).

[1] Ernesto Samper usou a expressão colombiana “buscando el ahogado río arriba”, no original em espanhol. A tradução literal seria: “buscando o afogado rio acima”. Como não há um equivalente no Brasil, optamos por usar uma expressão em português que se aproximasse ao que foi dito pelo ex-presidente.



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