O Ícaro e a impossível democracia latino-americana

“UM CASTELO FEUDAL EM RUÍNAS COM UMA FACHADA CAPITALISTA DE PAPELÃO”

O Ícaro e a impossível democracia latino-americana

Edição 164 | América Latina
por Renaud Lambert
1 de março de 2021
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Muitos cidadãos latino-americanos irão às urnas este ano. Eles votarão para eleger presidentes, como no Peru e no Chile, ou para renovar parlamentos, como no México e na Argentina. Após os progressos dos anos 2000, entretanto, alguns países passam por um preocupante retrocesso democrático. Estariam as populações do subcontinente condenadas aos desvios autoritários?

Em 2010, Alain Rouquié, um dos mais finos conhecedores da América Latina na França, concluiu um trabalho sobre o continente nos seguintes termos: “Após décadas de instabilidade e ditaduras, a democracia parece ter se enraizado em toda a região”. Tendo em mente a chegada ao poder de Michelle Bachelet no Chile (2006), Evo Morales na Bolívia (2006) e Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil (2003), o ex-embaixador da França em Brasília celebrou: “Agora, uma mulher, um indígena ou um operário podem chegar pelo voto ao supremo mandato”.1

Dez anos depois, o cenário é outro. “O indígena” foi derrubado por um golpe de Estado;2 o “operário” é perseguido por uma justiça instrumentalizada pelos conservadores;3 e, se Bachelet conseguiu terminar seu mandato, Dilma Rousseff, eleita em 2011 à Presidência do Brasil, foi destituída após uma conspiração parlamentar sem fundamento jurídico.4

Há alguns anos, poderíamos nos alegrar com Rouquié por ter visto, em 2003, no Brasil, um presidente suceder “pela primeira vez em 43 anos a outro presidente eleito por sufrágio universal”; o venezuelano Hugo Chávez (1999-2013) ampliar o campo da participação popular na vida política de seu país; e o ex-economista equatoriano Rafael Correa (2007-2017) concluir pacificamente seu segundo mandato, quando, em uma década, nenhum de seus sete antecessores havia obtido esse feito.

 

Hierarquias consideradas imutáveis

Agora o clima é menos festivo. O ex-militar que comanda o Brasil, Jair Bolsonaro, tem saudade do período da ditadura (1964-1984), enquanto seu filho Eduardo, de quem é próximo, evoca a necessidade de estabelecer outro período autoritário, “se [a] esquerda radicalizar”.5 Em janeiro de 2019, Juan Guaidó, um deputado neoliberal de segunda categoria, autoproclamou-se presidente da Venezuela, com o apoio dos Estados Unidos e da União Europeia. E o ex-chefe de Estado equatoriano Lenín Moreno tentou usar a justiça para bloquear o caminho de alguns de seus oponentes durante as eleições presidenciais de fevereiro de 2021.6

“Enraizada em toda a região”, a democracia latino-americana? Pelo contrário, ela atravessa um novo período de instabilidade, até mesmo de deriva autoritária. Como explicar essa decepção? Talvez precisamente pelo progresso que a precedeu. Como Ícaro, que a cada bater de asas na direção do Sol preparava sua queda, os democratas latino-americanos parecem condenados a criar as condições de seu fracasso à medida que avançam rumo ao seu objetivo.

Por mais paradoxal que possa parecer para uma região associada a militares de óculos escuros, o princípio democrático é fundador das repúblicas latino-americanas. Ao proclamarem a independência, no século XIX, as elites brancas “crioulas” desfraldaram a bandeira do Iluminismo. Se pegavam em armas, era em nome da soberania popular: “No sistema espanhol vigente”, escreveu o libertador Simón Bolívar, “os americanos […] não ocupam outro lugar na sociedade senão o de servos para o trabalho e, no máximo, de simples consumidores. […] Nunca fomos vice-reis ou governadores […], raramente arcebispos e bispos; jamais diplomatas; soldados, apenas na qualidade de subalternos; […] nunca fomos, enfim, nem magistrados nem encarregados das finanças”.7

Porém, “não foram os colonizados, indígenas e mestiços, que se rebelaram”, esclarece Rouquié, “mas uma minoria branca, muitas vezes constituída por uma aristocracia de proprietários de origem europeia”. Se estes proclamavam igualdade, era antes de tudo para se libertar de uma metrópole que os privava do poder, apesar de deterem riqueza. A despeito das Constituições democráticas que promulgaram, as elites não abriram mão de seus privilégios. O direito de voto ficou restrito aos “capazes”. “A razão coletiva é a única soberana, não a vontade coletiva”, proclamava o escritor argentino Estebán Echeverría (1805-1851). “Daí resulta que a soberania do povo só pode residir na razão do povo e que somente a parte sensível e racional da comunidade social é chamada a exercê-la. A democracia não é o despotismo das massas ou das maiorias, mas o regime da razão”.8 E conclui Rouquié: “Para as elites liberais sul-americanas, a democracia é impossível em vista do estado da sociedade, mas é insubstituível” – uma vez que justifica a independência. A mão que redige a certidão de nascimento da cidadania latino-americana é a mesma que edita sua sentença.

Então se coloca em ação uma luta que continua a ritmar a vida política do continente. De um lado, os partidários de uma adaptação da soberania popular à realidade de hierarquias tidas como naturais e imutáveis – em suma, uma democracia sem igualdade ou, para usar a expressão de Rouquié, “sem cidadãos”. Do outro lado, um campo que busca subverter a ordem estabelecida, conferindo realidade concreta aos princípios inscritos nas Constituições.

Essa estruturação do espaço político opera-se no quadro de uma inserção singular no sistema econômico mundial. Ao contrário das colônias setentrionais da América do Norte, “desprovida das condições geológicas e climáticas, bem como das populações nativas necessárias para estabelecer economias de exportação”, como explicou o economista Andre Gunder Frank,9 a América do Sul forneceu à Europa as matérias-primas indispensáveis para sua revolução industrial, consumindo os produtos finais por ela produzidos.

A oligarquia crioula não pretendia que a independência viesse a privá-la de sua opulência – uma opulência baseada no princípio que inflava as velas dos transatlânticos: o livre comércio. Nessas condições, “a transferência de poder não implicava uma transformação da sociedade”, observa o intelectual chileno Luis Vitale. “Enquanto na Europa o liberalismo serviu à burguesia industrial contra a oligarquia agrária, aqui ele foi convocado por esses mesmos proprietários contra o monopólio espanhol. Lá, serviu à causa do protecionismo industrial; aqui, à do livre comércio.”10

 

A audácia de Salvador Allende

Assim, a América Latina “independente” reforçou as dinâmicas econômicas que a vassalizavam. Não estava errado o visconde britânico Charles Canning, que, em carta de 17 de dezembro de 1824, declarou: “A América espanhola é livre e, se nos ativermos bem a isso, ela é inglesa”. Ela se prendeu, da mesma forma, na armadilha econômica do subdesenvolvimento: concentração da riqueza, fragilidade do mercado interno e aparelho industrial raquítico. Uma camisa de força da qual ainda não se libertou, embora o início do século XX tenha sido marcado por várias tentativas nesse sentido.

Quando a Primeira Guerra Mundial, depois a crise de 1929, ocasionaram uma interrupção dos fluxos que estruturam o comércio internacional, a maioria dos países optou por uma fase conhecida como de “substituição de importações”, dedicada a promover a indústria local. Esse processo, no entanto, caracterizou-se desde o início por duas exigências. Em primeiro lugar, não mudar as estruturas sociais. Porém, sem uma redistribuição da riqueza, o mercado interno era incapaz de produzir uma demanda que pudesse estimular a produção. Esta, portanto, concentrou-se apenas em bens de consumo de nicho destinados a rendas muito altas: roupas, calçados, equipamentos eletrônicos etc. Superar essa dificuldade exigiria optar por um modo de industrialização no qual o Estado – e não a demanda do consumidor – determinasse quais bens essenciais deveriam ser produzidos. Ocorre, porém, que a segunda exigência que enquadrou a tentativa de desenvolver a indústria era não perturbar as lógicas de mercado. Como os países latino-americanos não chegaram a um nível de desenvolvimento suficiente para produzir seus próprios bens de capital, eles precisavam importá-los: “Substituíram um tipo de importação por outro”, concluiu Gunder Frank. Em um rascunho de carta que queria enviar aos “norte-americanos” em 1964, o escritor mexicano Carlos Fuentes resumiu: “Este capitalismo ingênuo e liberal se […] sobrepôs às estruturas feudais sem destruí-las. Ele abandonou à própria sorte as grandes massas de camponeses e operários, reservando o progresso a uma minoria urbana. […] Eis o que é a América Latina: um castelo feudal em ruínas com fachada capitalista de papelão”.11

Um castelo feudal, uma economia que o livre comércio condena ao subdesenvolvimento e uma desconfortável proximidade com os Estados Unidos, que logo olharam para a América Latina como se fosse seu “quintal”… Nada indicava que o caminho da emancipação seria coberto de rosas. Os intelectuais aqui citados – Frank, Fuentes, Vitale – não ignoram isso. A corrente política que eles encarnam fala a linguagem dos anos 1960 e 1970: “Não há democracia possível, você sabe, com o estômago vazio, a cabeça vazia, as casas vazias”, escreveu Fuentes em sua carta. “A democracia não é uma causa: é um resultado”. Abaixo, portanto, a “democracia formal”: aquela, disfuncional e burguesa, que rege as sociedades da região e que eles se recusam a considerar como um instrumento capaz de mudar o mundo. Viva a “democracia real”: o objetivo rumo ao qual conduzem os processos de emancipação. E tanto pior para as urnas, pois só uma revolução permitirá às repúblicas latino-americanas concretizar os ideais que lhes deram origem. Mesmo que isso signifique pagar o preço: “Revolução!”, ironizou Fuentes. “Você toma o céu por testemunha, torce as mãos e chora pela violência e pelo derramamento de sangue. Sim, infelizmente nunca se pôde convencer as classes dominantes de um país feudal de que sua hora havia chegado.”

A determinação desses autores se fortalece ao observarem o destino de Juan Domingo Perón na Argentina (1946-1955), de Getúlio Vargas (1951-1954) e depois João Goulart (1961-1964) no Brasil, ou ainda de Juan Bosch na República Dominicana (1963). Esses dirigentes queriam dar um lugar aos deixados à margem, sem, no entanto, perturbar as hierarquias sociais – “fazer a revolução antes que o povo a fizesse”, resume Rouquié. Mas isso já era demais. Todos foram derrubados pelas Forças Armadas sob o argumento de que ameaçavam a democracia, simplesmente porque desafiavam a ordem estabelecida.

Esse mesmo pretexto de defesa da soberania popular justificou os pronunciamentos militares ao longo dos anos 1970 e 1980. “Todos aqueles que, como nós, acreditam na democracia pluralista travam uma guerra contra os adoradores do totalitarismo, uma guerra pela liberdade e contra a tirania”, declarou o almirante Emilio Massera, membro da junta que assumiu o poder em Buenos Aires em 1976, em discurso no dia 2 de novembro desse mesmo ano. No centro do confronto Leste-Oeste, o anticomunismo elevou a defesa conservadora dos privilégios ao nível de uma luta universal: uma “terceira guerra mundial” contra o “materialismo dialético e o sindicalismo idealista”, explicava Massera. Ele também ajudou a garantir o precioso apoio dos Estados Unidos.

A chegada ao poder do chileno Salvador Allende, em 1971, marcou um ponto de ruptura. Para ele, as duas democracias – a formal e a real – podiam ser conciliadas, os ritos eleitorais poderiam servir ao ideal a que se referem. Sua ambição despertou entusiasmo em uma esquerda que havia renunciado à luta armada, mas não à esperança. Todos os olhos se voltaram para Santiago, inclusive os do futuro presidente socialista francês, François Mitterrand. Sinceramente convencido ou não, este último expôs os motivos desse fascínio durante uma viagem à América do Sul: “O Chile é uma síntese interessante e original. Na França, um país industrial avançado na zona de influência ocidental, é pouco provável que possa se desenvolver uma ação violenta sem que ela seja reprimida pelas forças da grande burguesia. Em compensação, o movimento popular pode pensar legitimamente em vencer por meios legais: graças ao sufrágio universal e às pressões dos trabalhadores dos setores em crise. Trata-se de mostrar aos franceses que esse caminho é possível” (Le Monde, 14-15 nov. 1971).

Aos olhos das classes dominantes, porém, a ousadia de Allende justificava o esmagamento da democracia – em nome da democracia: “Sempre respeitei e admirei a democracia como conceito político”, explicou o general Augusto Pinochet, que derrubou Allende em 1973. “Apesar de suas virtudes, entretanto, sem a adaptação adequada, ela se revela perfeitamente incapaz de se opor ao comunismo.”12 Com as mesmas causas produzindo os mesmos efeitos, em 1978 apenas a Colômbia, a Venezuela e a Costa Rica tinham escapado à ditadura. Mas a Colômbia vivia no ritmo de uma sangrenta guerra civil, e a Venezuela, sob o regime do “pacto” Puntofijo, concluído em 1958, pelo qual os dois principais partidos políticos compartilhavam o poder e as prebendas.

Crédito: Wikimedia
Os teóricos da renúncia

Não obstante, os regimes autoritários caíram um a um durante a década de 1980, abrindo uma fase de “transição”. No entanto, “as ‘democracias restauradas’ não são regimes representativos como os outros”, observa Rouquié. “São herdeiras das ditaduras, quando não suas prisioneiras.” No Chile, a Constituição legada por Pinochet – que confirma a orientação neoliberal da economia, a privatização das universidades… – sobreviveu a seu regime e só se abriu um novo processo constituinte após a realização de um referendo em 2020.

Essas transições “pactuadas” colocam a democracia sob tutela, já que as Forças Armadas – que se acordou que não seriam alvo de nenhum processo – permanecem em alerta. Em 1987 e 1988, a Argentina experimentou três levantes militares. No Chile, o ex-presidente da Federação Mundial da Juventude Comunista e assessor do presidente Ricardo Lagos (2000-2006), Ernesto Ottone, conta: “Nós nos perguntamos: ‘Qual é o objetivo mínimo a que aspiramos para esse mandato de Lagos?’. A resposta foi secamente minimalista: ‘Que ele permaneça os seis anos previstos e saia por suas próprias pernas’”.13 Como? “Concebendo as lutas políticas ‘dentro de um quadro que não ponha em risco a unidade essencial do Chile e garanta a governabilidade democrática’, o que implica renunciar a qualquer projeto que pudesse reproduzir as causas de uma tragédia semelhante à de 1973.”

A renúncia é menos custosa às elites políticas e econômicas, às quais pertencem Ottone e seu coautor, Sergio Muñoz Riveros (ex-assessor da presidenta Michelle Bachelet), na medida em que elas concordam sobre os méritos das transformações operadas pelas ditaduras. “Foi preciso reconhecer, ainda que indiretamente, o papel que a política da ditadura teve no surgimento de uma dinâmica de recuperação econômica após o fracasso do período 1970-1973”, notam os dois ex-militantes comunistas. “Mesmo que seja difícil admiti-lo, é preciso reconhecer que, em certas questões relativas ao funcionamento da economia moderna, os professores estavam ‘do outro lado da rua’”.

A mesma situação pode ser observada em um mundo intelectual que perdeu suas personalidades mais radicais sob as balas das ditaduras ou que se convenceu de que a reação militar foi provocada por um período de irracionalidade coletiva: “Todos temos uma parte de responsabilidade na ruptura democrática do Chile”, proclamaram os ex-presidentes Patricio Aylwin (1990-1994) e Ricardo Lagos (2000-2006) durante a cerimônia em memória do 30º aniversário da morte de Allende. Muñoz Riveros e Ottone se empenham em disseminar essa convicção, apoiando sua demonstração na fina flor do pensamento progressista francês: Laurent Joffrin. E o citam: “A revolução socialista […] é um mito perigoso que liberta o Leviatã totalitário quando tem sucesso e o terrorismo quando fracassa”, pontifica o jornalista. Assim se desenvolve a chamada teoria dos “dois demônios”, segundo a qual comunistas e fascistas são igualmente culpados do advento das ditaduras, tendo os primeiros, porém, cometido o erro original de despertar os segundos.

As transições foram feitas, portanto, com muito cuidado para não “libertar o Leviatã”, mesmo sob o risco de ser necessário contentar-se com um mundo no qual se aprofundam as disfunções que outrora causaram a agitação popular, e mantendo seus pilares fundamentais: as desigualdades sociais, a relegação de parte da população às margens da cidadania política, a submissão ao livre comércio e aos ditames dos Estados Unidos. Em suma, um mundo que sempre falha em reunir as condições necessárias para uma democracia real. “Uma em cada duas crianças está em situação de pobreza em nosso país”, destacou Alberto Fernández em seu discurso de posse da presidência argentina, no dia 10 de dezembro de 2019. “Quando falta pão, não há democracia possível.”

Portanto, para todos aqueles que ainda acreditam na soberania popular, tudo ainda está por fazer. Constatando que as instituições oriundas das transições “pactuadas” não deixam nenhum espaço para as reivindicações do povo e que os processos eleitorais normalmente conduzem à traição de promessas, alguns chegam à conclusão de que a política se faz em outro lugar: nas ruas, longe dos palácios. Esses se apoiam no exemplo dos manifestantes bolivianos que, no início dos anos 2000, conquistaram importantes vitórias contra os planos de privatização da água e do gás. John Holloway descreveu essa estratégia – adotada pelos zapatistas em Chiapas, no México, por exemplo – em seu livro Mudar o mundo sem tomar o poder, publicado em 2002.14

Outros, críticos de uma abordagem que consiste em abandonar o poder aos conservadores, reabilitam uma velha esperança: a ideia de que, apesar de suas limitações, a via eleitoral seria capaz de subtrair a América Latina de sua cidadela feudal, anunciando já de saída que ela não seria suficiente, como Lula em 1985: “Estamos tentando respeitar as regras do jogo da democracia. Acreditamos que o Parlamento não é um fim em si mesmo, apenas um meio. Vamos tentar usá-lo o máximo possível. Na medida em que percebermos que, pela via parlamentar, pela via puramente eleitoral, não chegaremos ao poder, eu assumo a responsabilidade de dizer à classe trabalhadora que ela deve buscar outro caminho”.15 Ou à custa de algumas concessões em relação a seus princípios, como o mesmo Lula admitiu após dois mandatos presidenciais: “Se Jesus viesse ao Brasil, até ele teria de fazer aliança com Judas”.16

Foi assim que, em vários países, líderes determinados a “democratizar a democracia” foram eleitos durante uma “onda vermelha” que varreu a América Latina: Chávez na Venezuela (1998); Lula (2002) e Dilma Rousseff (2010) no Brasil; Néstor Kirchner (2003) Cristina Kirchner (2007) na Argentina; Evo Morales na Bolívia (2005); Rafael Correa no Equador (2006).

Como Ícaro alçando voo, eles tentaram – com mais ou menos sucesso – aproximar suas sociedades do ideal democrático: reduzir as desigualdades, transformar os abandonados em cidadãos, moldar Estados capazes de atender às necessidades da população. Os avanços sociais e econômicos registrados nesse período foram fartamente documentados, inclusive nas colunas do Le Monde Diplomatique. De repente, votar voltou a ter sentido. Em seu estudo anual sobre a relação entre os latino-americanos e a democracia de 2010, a empresa Latinobarómetro constatou que, “desde 2007, o apoio da população à democracia aumenta continuamente. […] É a primeira vez, desde que começamos a usar esse indicador de satisfação com a democracia [em 1995], que ocorre um aumento contínuo por quatro anos consecutivos”.17

 

Golpes de Estado

No entanto, quanto mais a democracia progride, mais ela é ameaçada. Isso porque não escapa aos dominantes que o aprofundamento da democracia significa a condenação de sua classe. Eles reagem. Golpes de Estado militares, destituições fraudulentas, tentativas de derrubada, bloqueios econômicos por parte do patronato: a maioria dos países passa por isso. Até mesmo o Brasil, onde Lula e Dilma Rousseff se destacaram pelo espírito de conciliação.18 E, quando uma alternância finalmente ocorre, os conservadores aproveitam sua ascensão ao poder para perseguir seus antigos oponentes. Assim, os líderes progressistas – ou oriundos de movimentos progressistas – ainda em função agarram-se a seus cargos, mesmo que isso signifique tomar liberdades com relação às exigências democráticas. Em 4 de novembro de 2016, o presidente venezuelano Nicolás Maduro proclamou, a respeito de seus adversários: “Eles nunca colocarão os pés no palácio presidencial de Miraflores: nem com cédulas nem com balas”.19

Em 2002, o venezuelano Chávez foi derrubado por um golpe de Estado militar. Autoproclamando-se presidente, o líder da federação patronal Pedro Carmona dissolveu a Assembleia Nacional e destituiu os governadores e os prefeitos, antes que uma mobilização popular fizesse a operação fracassar. Na época, os herdeiros de Fuentes que participavam do entorno de Chávez o aconselharam a aproveitar a oportunidade. “A oposição tem mostrado que não respeita a vontade popular; é o momento perfeito para suspender as eleições. Assim você terá tempo para colocar em prática todas as transformações necessárias para finalmente estabelecer a soberania popular na Venezuela”, disseram-lhe durante uma cena relatada por um deles, de origem brasileira. Chávez rejeitou a ideia. Ele perdoou aqueles que o derrubaram na esperança de que finalmente aceitassem as regras do jogo. Mas os ex-golpistas preferiram conspirar, acusando o homem que os poupou da prisão de “tendência autoritária” – tendência que seus métodos ajudaram a realizar.

Ícaro se eleva, depois cai. E uma pergunta permanece: como construir a democracia com não democratas?

 

*Renaud Lambert é jornalista do Le Monde Diplomatique.

 

1 Alain Rouquié, À l’ombre des dictatures. La démocratie en Amérique latine [À sombra das ditaduras. A democracia na América Latina], Albin Michel, Paris, 2010; todas as citações desse autor são retiradas dessa obra.

2 Ler “En Bolivie, un coup d’État trop facile” [Bolívia: um golpe de Estado fácil demais], Le Monde Diplomatique, dez. 2019.

3 Ler Perry Anderson, “Au Brésil, les arcanes d’un coup d’État judiciaire” [Brasil: os mistérios de um golpe de Estado judicial], Le Monde Diplomatique, set. 2019.

4 Ler Laurent Delcourt, “Printemps trompeur au Brésil” [Uma primavera enganosa no Brasil], Le Monde Diplomatique, maio 2016.

5 Guilherme Mazui, “Eduardo Bolsonaro diz que, ‘se esquerda radicalizar’, resposta ‘pode ser via um novo AI-5’”, O Globo, Rio de Janeiro, 31 out. 2019.

6 Ler Guillaume Long, “Trois projets pour l’Équateur” [Três projetos para o Equador], Le Monde Diplomatique, fev. 2021.

7 Simón Bolívar, “Lettre à un habitant de la Jamaïque” [Carta a um habitante da Jamaica], 6 set. 1815.

8 Estebán Echeverría, Dogma socialista y otras páginas políticas [Estebán Echeverría, dogma socialista e outras páginas políticas], Estrada, Buenos Aires, 1846, citado por Alain Rouquié, À l’ombre des dictatures, op. cit.

9 Andre Gunder Frank, Lumpenbourgeoisie, Lumpendevelopment: Dependence, Class and Politics in Latin America [Lumpenburguesia, lumpendesenvolvimento: dependência, classe e política na América Latina], Monthly Review Press, Nova York, 1972; todas as citações desse autor são retiradas dessa obra.

10 Luis Vitale, Interpretación Marxista de la Historia de Chile [Interpretação marxista da história do Chile], Prensa Latinoamericana, Santiago do Chile, 1969, citado por Andre Gunder Frank, Lumpenbourgeoisie, Lumpendevelopment, op. cit.

11 Carlos Fuentes, “L’Amérique Latine: Quelques mots aux Américains du Nord…” [América Latina: algumas palavras para os americanos do Norte…”. In: Leo Huberman e Paul Sweezy (orgs.), Où va l’Amérique latine? [Para onde vai a América Latina?], Maspero, Paris, 1964; todas as citações desse autor são retiradas dessa obra.

12 Augusto Pinochet, The Crucial Day [O dia decisivo], Editorial Renacimiento, Santiago do Chile, 1982.

13 Ernesto Ottone e Sergio Muñoz Riveros, Après la révolution. Rêver en gardant les pieds sur terre [Após a revolução. Sonhar com os pés no chão], L’Atalante, Nantes, 2008; todas as citações desses autores são retiradas dessa obra.

14 John Holloway, Changer le monde sans prendre le pouvoir. Le sens de la révolution aujourd’hui [Mudar o mundo sem tomar o poder. O significado da revolução hoje], Syllepse, Paris, 2008.

15 Citado por Christian Dutilleux em Lula, Flammarion, Paris, 2005.

16 Democracia em vertigem, documentário de Petra Costa, Netflix, 2019.

17 “Informe 2010”, Corporación Latinobarómetro. Disponível em: www.latinobarometro.org.

18 Ler Geisa Maria Rocha, “Bourse et favelas plébiscitent ‘Lula’” [Bolsa de Valores e favelas aclamam Lula], Le Monde Diplomatique, set. 2010.

19 “‘Ni con balas ni con votos entran a Miraflores’” [“Nem com balas nem com votos entram em Miraflores”], El Nacional, Caracas, 4 nov. 2016.



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