ENTRE CONTENÇÃO E MULTIPOLARIDADE

O Irã na reconfiguração estratégica do Oriente Médio

O que está em jogo é mais amplo: a configuração do equilíbrio regional e a limitação das margens de projeção estratégica iraniana em um sistema internacional em reacomodação 

Os ataques recentes conduzidos por Israel e pelos Estados Unidos contra o Irã são geralmente apresentados sob dois argumentos centrais: impedir o avanço do programa nuclear iraniano e conter a chamada “ameaça existencial” representada por Teerã. A mudança de regime surge como horizonte discursivo mobilizador, mas raramente corresponde ao objetivo operacional imediato. O que está em jogo é mais amplo: a configuração do equilíbrio regional e a limitação das margens de projeção estratégica iraniana em um sistema internacional em reacomodação. 

Geografia e poder: o Irã como nó estratégico 

A centralidade iraniana começa pela geografia. Seu território ocupa uma posição de confluência entre o Oriente Médio árabe, a Ásia Central pós-soviética e o Cáucaso. Trata-se de um espaço de transição entre mundos históricos distintos: o árabe, o turco e o persa, além de conectar bacias energéticas estratégicas, tornando o país em corredor natural de fluxos: mercadorias, gasodutos, oleodutos, rotas terrestres e conexões marítimas. 

Ao Sul, domina a margem norte do Estreito de Ormuz, por onde circula parcela decisiva do petróleo comercializado globalmente. O simples poder de ameaça sobre essa rota já constitui instrumento geopolítico de alto impacto. Ao Norte, projeta-se sobre o Mar Cáspio, articulando-se com a Rússia e a Ásia Central. A Leste, conecta-se ao Afeganistão e ao Paquistão; a Oeste, influencia diretamente o Iraque e se aproxima do Levante, região que compreende países como Síria, Líbano, Israel e Jordânia, tradicional ponto de encontro e tensão entre Ásia, África e Europa. Poucos Estados concentram tal densidade de interfaces estratégicas. 

Influenciar o território iraniano significa ampliar acesso a rotas comerciais, energéticas e militares que conectam o Golfo Pérsico à Ásia Central e ao Sul da Ásia. Para a Índia, o porto de Chabahar permite alcançar mercados centro-asiáticos contornando o Paquistão. Para a China, o Irã oferece elo terrestre capaz de reduzir vulnerabilidades marítimas sob vigilância dos Estados Unidos. Para Washington, preservar uma arquitetura de segurança favorável no Golfo sempre foi condição para manter estabilidade energética e primazia regional. Um Irã autônomo e capaz de projetar poder desafia esse arranjo. 

Em outras palavras, o território iraniano não é apenas relevante por seus recursos, mas por sua capacidade de conectar espaços vitais da economia e da segurança internacionais. Há ainda uma dimensão histórica que amplia essa relevância: o Irã não é um Estado recente moldado por fronteiras coloniais, mas um Estado-civilização com continuidade persa milenar, identidade consolidada e estrutura institucional relativamente coesa. Essa profundidade histórica reforça sua capacidade de projetar influência além das fronteiras formais. 

Controlar, conter ou integrar esse espaço significa influenciar o equilíbrio de forças do Oriente Médio como um todo. É nesse terreno geopolítico que os ataques recentes devem ser situados. 

A disputa pela hegemonia regional 

Nas últimas décadas, o Oriente Médio estruturou-se em torno de uma rivalidade triangular entre Arábia Saudita, Irã e Israel. 

A Arábia Saudita, monarquia sunita e aliada histórica dos Estados Unidos, disputa a liderança política do mundo árabe e a influência sobre os rumos estratégicos do Golfo. Sua força deriva menos da capacidade militar autônoma e mais de três pilares: a centralidade no mercado global de petróleo, a capacidade financeira acumulada ao longo de décadas de exportações energéticas e a estreita integração com a arquitetura de segurança ocidental. Seu poder dissuasório deriva menos de autonomia militar e mais da conversão da riqueza energética em capacidade de compra estratégica e alinhamento geopolítico, consolidando-a como o principal contrapeso sunita às ambições regionais do Irã. 

O Irã, principal potência não árabe do Golfo Pérsico, posiciona-se como antagonista do arranjo regional apoiado por Washington e pelas monarquias do Golfo. Sob regime de sanções severas, desenvolveu uma estratégia que combina dissuasão geográfica, resiliência econômica e projeção indireta de poder. Embora petróleo e gás permaneçam pilares estruturais, o país desenvolveu base industrial diversificada maior do que seus vizinhos regionais e investiu em complexo militar-industrial voltado a mísseis balísticos e drones de baixo custo. 

Essa estrutura sustenta o chamado “Eixo da Resistência”: rede de aliados e milícias no Líbano, Iraque, Síria e Iêmen que amplia sua profundidade estratégica. São redes de influência assimétrica capazes de transferir o confronto para periferias estratégicas e elevar o custo de ataques diretos ao território iraniano. O apoio político-militar da Rússia reforça essa inserção em uma dinâmica mais ampla de contestação à ordem regional moldada pelos Estados Unidos. 

Israel completa o triângulo como ator militarmente mais sofisticado da região. Sustentado por cooperação estratégica com Washington e por complexo tecnológico-militar avançado, opera sob a doutrina da superioridade qualitativa: preservar vantagem tecnológica e estratégica suficiente para impedir a emergência de qualquer rival capaz de alterar o equilíbrio de dissuasão regional. Essa lógica sustenta operações de contenção militar direta contra a infraestrutura vinculada ao eixo iraniano e frente a alvos considerados existenciais. 

Esse triângulo configura a espinha dorsal da geopolítica regional. Cada movimento de um desses atores altera o cálculo dos demais, produzindo um equilíbrio instável baseado em dissuasão, contenção e confrontos indiretos. Contudo, esse tabuleiro regional não opera isoladamente: ele está inserido em uma disputa mais ampla entre grandes potências, que redefine alianças, pressões e margens de autonomia. É nesse entrelaçamento entre rivalidade regional e competição sistêmica que os ataques recentes se revelam como capítulos indissociáveis de uma disputa estrutural pela definição da ordem regional. 

Multipolaridade e contenção: a disputa estrutural por hegemonia no Oriente Médio 

O Irã na reconfiguração estratégica do Oriente Médio. Foto de uma fila de soldados
Crédito: Hosein Velayati/Wikimedia

A tensão em torno do Irã não pode ser compreendida como evento isolado. Ela integra uma competição sistêmica mais ampla pela definição de quem exercerá influência predominante no Oriente Médio nas próximas décadas. A entrada assertiva da China alterou o equilíbrio historicamente marcado pela primazia estadunidense, introduzindo uma variável estrutural que reconfigura a correlação de forças regionais. 

O acordo estratégico sino-iraniano estabelece uma troca pragmática: investimentos chineses em infraestrutura, energia e logística em contrapartida a um fluxo estável de petróleo iraniano com condições preferenciais. Essa parceria atenua os efeitos do regime de sanções ocidentais e integra o Irã à Nova Rota da Seda, consolidando seu território como eixo geográfico fundamental para a articulação euroasiática promovida por Pequim. 

Para além da dimensão econômica, a China ampliou seu papel diplomático ao mediar a reaproximação entre Irã e Arábia Saudita, sinalizando a redução da exclusividade norte-americana como árbitro regional. A entrada iraniana no BRICS reforça esse movimento, pois visa buscar alternativas ao sistema financeiro ancorado no dólar, além de ampliar margens de autonomia estratégica diante da pressão ocidental. A Rússia, por sua vez, mantém cooperação estratégica com Teerã nos campos militar e energético, consolidando uma convergência tática que opera como contrapeso à influência dos Estados Unidos e de Israel. 

Incapaz de competir simetricamente com a superioridade convencional norte-americana e a supremacia tecnológica israelense, o Irã estruturou modelo de dissuasão assimétrica baseado em três pilares: mísseis e drones de saturação; redes indiretas no Levante e no Golfo; e capacidade de pressionar gargalos estratégicos como Ormuz. A assimetria, nesse contexto, funciona como mecanismo de equalização em um sistema internacional em transição. 

Enquanto a China amplia sua presença econômico-diplomática e a Rússia oferece respaldo político-militar, o Irã preserva capacidade autônoma de perturbação regional. Essa combinação o transforma não apenas em ator regional relevante, mas em peça estratégica no tabuleiro da competição entre potências. O conflito que o envolve, portanto, deve ser compreendido como expressão de uma disputa estrutural mais ampla: a definição de quem moldará o equilíbrio do Oriente Médio em uma ordem internacional cada vez menos unipolar e progressivamente tensionada por dinâmicas multipolares. 

Nesse cenário, enfraquecer os instrumentos assimétricos iranianos significa reduzir sua utilidade geopolítica como polo de contestação e limitar sua capacidade de articulação com projetos alternativos de poder. 

O desmantelamento do Eixo 

O desmantelamento do Eixo da Resistência não implica necessariamente a queda formal de seus integrantes, mas na corrosão gradual da profundidade estratégica construída por Teerã. Trata-se de processo cumulativo de desgaste das camadas periféricas antes de qualquer confronto direto com o núcleo decisório, uma estratégica voltada à neutralização dos instrumentos de dissuasão indireta iranianos. 

A partir de 2003, o Irã consolidou sua influência regional ao explorar o vácuo de poder no Iraque deixado pela derrubada de Saddam Hussein. Teerã estreitou laços com a Síria e institucionalizou o apoio ao Hezbollah no Líbano, ao Hamas na Palestina e aos insurgentes Houthis no Iêmen. Esse arranjo não apenas ampliou a projeção estratégica iraniana, mas converteu tais aliados em extensões operacionais de um sofisticado modelo de guerra por procuração. Essa profundidade estratégica era, portanto, o núcleo da arquitetura de dissuasão de Teerã. 

Os ataques recentes conduzidos por Israel e pelos Estados Unidos podem ser interpretados como parte de uma estratégia gradual de redução dessa arquitetura. Em vez de um confronto frontal imediato com o centro decisório iraniano, consolida-se uma lógica de enfraquecimento progressivo das camadas externas que sustentam sua capacidade de coerção regional. 

A Guerra Civil Síria marcou o ponto de inflexão ao comprometer a ponte logística entre Teerã e o Hezbollah, rompendo o corredor terrestre vital para a coerência do sistema assimétrico. Esse desgaste foi aprofundado por ofensivas simultâneas em Gaza, no Sul do Líbano e no Mar Vermelho, que, embora não aniquilem os atores, degradam severamente sua infraestrutura e capacidade de coordenação. 

O objetivo central dessa dinâmica é neutralizar a atuação em múltiplas frentespilar da dissuasão iraniana, forçando o recuo da sua profundidade estratégica. Ao reduzir a conectividade desse ecossistema, os EUA e Israel buscam não apenas conter o Irã, mas reafirmar a primazia regional frente ao avanço da influência chinesa e russa nos corredores do Golfo. Para Israel, o desmonte dessa periferia é o passo imperativo para impedir que um rival com potencial nuclear altere definitivamente o equilíbrio de poder no Oriente Médio. 

Conclusão: o eixo na era da multipolaridade tensa 

O desmantelamento do Eixo da Resistência expressa, em escala regional, a transição de uma ordem internacional em transformação. A erosão da rede construída pelo Irã não representa apenas um reequilíbrio local de forças, mas integra uma engrenagem mais ampla de contenção geopolítica voltada à limitação de polos autônomos emergentes.  

O que está em disputa não é apenas o futuro de alianças periféricas, mas a definição de quais atores moldarão o equilíbrio estratégico do Oriente Médio em um contexto de redistribuição global de poder. Ao enfraquecer os instrumentos assimétricos iranianos, os Estados Unidos reduzem a margem de manobra de Teerã como ator capaz de articular-se simultaneamente com a Rússia e a China. O objetivo não é apenas conter um rival regional, mas limitar sua utilidade estratégica dentro de um arranjo internacional que desafia a primazia norte-americana. 

Para Israel, a equação é ainda mais direta: preservar superioridade tecnológica e liberdade de ação militar suficientes para impedir a consolidação de qualquer equilíbrio de dissuasão que restrinja sua capacidade operacional. O enfraquecimento das camadas periféricas do eixo é, nesse sentido, condição para preservar vantagem estratégica estrutural. 

Longe de constituir periferia do sistema internacional, o Oriente Médio reafirma-se como epicentro, onde energia, rotas comerciais e arquitetura de segurança convergem e que se testam, de forma concreta, os limites e as possibilidades da ordem internacional em transição. 

 

Mauricio Alfredo é Mestre em Educação, Professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior 

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